Oi, como vocês estão nessa segunda pós 1º turno das Eleições aqui no Brasil? Queria conversar um pouco. Principalmente com quem tem sentido aversão a tudo que envolve política. Não só com quem pensa como eu.

Queria falar sobre algo que aconteceu comigo ontem. Nutrimos aqui uma relação de muitos anos, e talvez o relato de alguém que você cresceu junto possa te fazer pensar sobre a importância do seu voto no dia 25 de outubro.

Fui votar em Atibaia, no interior de São Paulo, e fui sozinha pra fila. Usando preto. Pedi informação para saber qual era a minha fila, agradeci pela ajuda com um sorriso e fui para o meu lugar. Logo, uma família chegou e ocupou os lugares atrás de mim. A fila tava longa, então eu sabia que levaria pelo menos uma hora. Achei algo pra ler no celular pra ocupar a minha cabeça. Mas estavam falando alto. Mesmo. Como se estivessem confortáveis em causar desconforto em quem estava por perto. Eu respirei fundo. E segui lendo. Até que uma frase chamou a minha atenção.

A filha, uma mulher jovem de cerca de 20 anos, soltou: “Se Deus quiser, acaba no primeiro turno. E, se não acabar, eu acho que tinha que tirar com tiro. Ele e todos que o apoiam.” Eu senti meu corpo arrepiar. Porque ouvir essa frase saindo da boca de uma mulher que tem a idade de boa parte das leitoras dos meus livros me deixou perplexa. Ela continuou: “Tipo fizeram lá nos Estados Unidos, sabe? Dar um tiro na cabeça e pronto.”

Eu odeio sentir raiva. Eu odeio confusão. Eu odeio violência, mas, nesse momento, a minha bolha estourou tão forte que eu tive que me virar e olhar com a pior expressão que consegui fazer. A mãe logo notou, porque tanto o pai quanto o garoto estavam dando risada. E disse: “Que é isso, filha? Não seja tão extremista. A gente não sabe quem tá ouvindo isso aqui na fila.” Me chama a atenção o conforto em usar a camisa da seleção e falar, em alto e bom tom, das motivações questionáveis do voto da família. Isso junto com outras falas, como “deveríamos ter trazido o bebê do fulano pra passar na frente” ou “credo, você é autista?”, quando a mãe reclamou de algo.

O Deus em que eu acredito, com quem eu cresci conversando nos melhores e piores momentos da minha vida, jamais apoiaria esse tipo de violência. Honestamente, eu sinto que, pra nos protegermos, estamos nos isolando. E esse isolamento tem nos afastado de uma parte importante da realidade. Porque não adianta a sua família estar segura se as famílias das pessoas que trabalham na sua casa não estão. Se as famílias dos que atravessam a rua com você não estão. Se as famílias dos que vão pra missa com você não estão.

Tenho inúmeras críticas ao governo atual e sinto que elas nem estão sendo pautadas como deveriam pela imprensa e pelos apoiadores, simplesmente porque estamos com medo de que se repita o que aconteceu em 2020. Eu tava aqui. Você estava? Muitos não estão mais. Eu nunca vou esquecer o medo que senti naquele ano. Talvez também nunca esqueça o medo que senti na fila eleitoral durante a votação deste ano.

Eu não acho que seja o ódio que cancela o ódio. É a conversa, é o diálogo, é o entendimento de que nem sempre os recortes que me enviam são suficientes pra minha tomada de decisão. Eu preciso abrir sites diversos com notícias atualizadas, eu preciso entender quem tá envolvido com aquilo em que eu não acredito e eu preciso impedir que o nosso futuro seja uma versão ainda pior do que já aconteceu no passado.

A gente não lembra, mas quem estudou história (ai, que saudade da minha professora de história!) deve ter aprendido isso na sala de aula. Ah, e sabe o que a pessoa que tava na minha frente, também uma mulher, me disse, num tom de piada, logo antes de chegar a vez dela de votar? “Eu vou colar a tecla 3 pra isso acabar de uma vez.” Então, eu não aguentei: “Se você fizer isso, como eu vou ter o direito de votar?” Ela engoliu seco e foi exercer o direito dela, enquanto eu a observei pensando no tanto que lutamos pra ela poder fazer isso.

Eu sei que vivemos numa bolha, e eu me incluo nisso. O resultado me afeta menos do que afeta a maioria das pessoas que me seguem, mas eu vim de uma realidade diferente daquela em que vivo hoje e jamais esqueceria o que me fez chegar até aqui. É por isso que eu não consigo falar de qualquer outro assunto com tudo isso entalado na minha garganta. E não é só o discurso de ódio que me assusta: é a escolha de não fazer parte dessa conversa. De viajar na data da eleição. De deixar o marido, o pastor, o chefe ou alguma autoridade tirar de você o direito de defender o seu direito de existir com liberdade neste mundo.

Eu acredito em Deus. Provavelmente compartilho vários valores com você, valores que não estão só no meu discurso e podem ser observados nas minhas atitudes há anos aqui na internet. Por isso, meu pedido: não deixe de participar de uma conversa que é sobre você.

posts favoritos

novidades

É mais que amor

Acho que vou te esquecer e te coloco em uma vírgula errada no meio de um texto. Eu já tentei te apagar do meu pensamento, mas, como você pode ver, a tentativa foi frustrada. Eu posso até continuar tentando – e olha que••• Continue Lendo

Último dia em New York

Durante minha passagem por Nova Iorque, tive a oportunidade de conhecer algumas locações super populares onde foram (e ainda são) gravados vários filmes e séries que amo (!) Já mostrei pra vocês um pouquinho do Central Park, Magnolia Bakery e Times Square, mas um dos roteiros mais••• Continue Lendo

Trilha sonora em New York

Os últimos dias passaram tããão rápido. Acho que é sempre assim quando estamos realmente felizes. Lembro como se fosse ontem do momento em que o táxi amarelinho saiu do aeroporto. As luzes acesas, a neve fininha caindo e do outro lado da janela,••• Continue Lendo

A vista do Top of The Rock

Depois de uma segunda com temperatura bem baixa e neve fininha no começo da tarde, finalmente acordamos com um solzinho no céu. Só assim para conseguirmos fazer, sem congelar, os programas ao ar livre que tínhamos colocado no roteiro. Nós já visitamos quase••• Continue Lendo

As melhores compras de make da viagem

A viagem ainda não terminou, mas eu já elegi minhas compras prediletas de maquiagem. Nossa pequena listinha é composta por diferentes produtos que aqui em Nova York (ou em qualquer lugar dos EUA), comprando em dolar, ficam bem mais em conta que no••• Continue Lendo

Presentes criativos para a Páscoa

Apesar da tradição da Páscoa sempre pedir chocolate, existem várias formas de presentear alguém nesta data! Vale investir em presentes diferentes, mas que ainda assim não saem do tema da Páscoa. Você pode escolher entre almofadas, canecas, perfumes, livros e vários outros objetos••• Continue Lendo

Passeando na Union Square

Lembram quando comentei lá no twitter que iria passear pela cidade com a turma do curso de inglês? Pois na sexta, nossa professora nos levou na Union Square. Gostei tanta do lugar que chamei a Paula (que está estudando em outra sala) para••• Continue Lendo