
Tinha sido uma semana difícil. Eu, não lembro exatamente quando, mas há algum tempo atrás criei o que eu chamei de ” tratado da perfeição ” , que se resumia a um punhado de regras que eu deveria seguir pra ter a vida que eu considerava suficiente pra mim. E esse tratado implicava em um monte de coisas, que para muitas pessoas possa ser básica, mas que era um esforço pra mim. Coisas como dormir e acordar no mesmo horário, manter as gavetas organizadas (ou pelo menos as roupas não espalhadas), malhar todos os dias e comer a quantia certo de porções de proteínas ou carboidratos que uma boa alimentação deveria ter.
Em um segundo nível, enquanto fui ficando mais velha, comecei a me cobrar de outras coisas. Manter meu trabalho perfeitamente impecável, prevendo problemas e estando a frente de todas as coisas, dinheiro sobrando no banco, controles financeiros, como evitar o consumismo, um bom relacionamento familiar e manutenção de boas amizades.
A parte espiritual e controle emocional também me cabiam na lista do meu controle. Estar sempre conectada com o cosmos e com Deus, manter um coração limpo e leve e uma alma sonhadora e otimista. Equilíbrio, equilíbrio de humor seria fundamental, porque era esse último que me ajudava a reger todas as coisas.
Por último, eu criei essa coisa de postura social para relacionamentos e o que chamo de “imagem de altivez”. Eu pretendia me tornar uma mulher calma, que tem aquela aura de que sabe o que está fazendo, que detêm uma atmosfera que fazem todos ficar perto. O retrato da paz, mas tudo somado com mistério pela pouca informação ou poucas palavras que eu deveria ter.
Ou seja, o que eu previ pra mim era ser um ser extremamente agradável, equilibrado, eficiente e praticamente, como venho a concluir agora, robótico.
E o não cumprimento destas coisas me transformavam em um ser culpado, prestes a chicotear-se. Como seria possível eu não cumprir todos estes itens básicos que parece ser o cal de que foi construído o mundo? Não é natural alguém acordar e dormir na mesma hora? Ou consumir a mesma quantia alimentar, mesmo que variada, sem insensatez? E o humor? Jamais poderia oscilar ou ofender alguém, afinal, estando ancorada no meu tecido cósmico, eu relevaria e analisaria instantaneamente tudo que alguém falasse e poderia reagir da forma mais correta possível.
E, aparentemente, obcecada por essas coisas datadas como “básicas”, eu fui esquecendo o que realmente era latente em mim. Ocupada em formar uma imagem de condessa doce perante à sociedade, cresci em meu peito amarras que, ironicamente, me deixavam cada vez menos segura para ser o que eu era.
Mas quem eu era? Eu era a voz da espontaneidade. Eu era artista. Eu era música. E na minha extremidade é que eu fazia notas ordenadas e doces, que apaziguariam o coração e a atmosfera de qualquer um que pudesse escutar (e isto sem a minha presença, onde quer que fosse).
E no meu horário “chinês” de passar o escuro em claro é que eu reluzia nas minhas frases doces e enchia o peito de inspiração para falar, escrever, compor, e cutucar a mais profunda das minhas entranhas.
O meu natural era uma bagunça oficialmente organizada, ousada, e incrível. E eu passando esse tempo todo ocupada em ser um ser socialmente aceitável, perfeito pela unha bem feita e a sobrancelha delineada. Pela voz em tom constante sem agudo que fosse. (Bastante difícil vindo de um soprano).
Hoje, cheguei em casa, abri o armário e peguei um copo de vinho. E notei que eu deveria me libertar desta construção estável que criei pra mim mesma, afinal, tudo bem deixar uma meia espalhada vez ou outra, ou, alguns dias com a casa bagunçada, desde que eu pusesse ordem no que me sufoca se eu não organizar: os meus sonhos, os meus ideias, a minha promessa de vida que nada tem a ver com a imagem que eu passe numa roda de amigos ou numa profile de rede social, nada tem a ver com o meu número de sapatos ou a forma como estão disposta as cores no meu guarda-roupa, nada tem a ver com não comer carne ou correr todos os dias na esteira.
Eu queria aparecer pro mundo no avesso, e é nesse avesso que eu tinha que por ordem quando pusesse para fora: em letra, que pudesse inspirar, em melodia, que pudesse tocar e em canção, que independente de que forma estiver a caixa de e-mails ou de bijouterias… tudo isso não tem importância, quando eu ouvir a minha voz saindo do peito de forma mais natural do que qualquer ordem que eu quisesse ter posto.

34 comentários
Uma conversa de leitora para leitora.
Este espaço continua sendo seu também. Comente com carinho e respeito por quem está lendo.
Perfeito!!!
AMEI.
http://www.carmemrejaneblog.blogspot.com/
Parabéns! Lindo demais *-* amei! Sempre me identifico com seus textos!
Pocha. Bati palmas. Você escreve muito, muito bem flor *-*
perfeito
SENHOR JESUS, QUE COISA MAIS LINDA FOI ESSA? Menina, você acabou de fazer minha noite mais doce e feliz, não consigo sequer pôr em palavras como estou maravilhada!
nuss tenho acompanhado o depois dos 15, e cada dia mais me surpreendo com as postagens.. ! cada texto que parece ser feito pra mim… !#amo
Meninas, obrigada ;) Vocês são demais!
P-E-R-F-E-I-T-O, ter um talento assim não é pra muitos não *–*
jeansepoesia.blogspot.com
Nossa, seus textos são IN-CRÍ-VEIS!!! Vc escreve super bem, fora que sempre me identifico com todos, inclusive aqueles que estão no seu blog! hashusahuas
Eu me senti libertada! E esse texto me acalmou, me fez respirar um ar puro! Parabéns!
Nossa, que texto lindo. Concordo plenamente com a Luana. (:
http://inwonka.blogspt.com
Um texto realmente muito bom . Queria ter o dom de escrever tão bem assim *-*
Nossa, você escreve muito bem, virei fã!
adorei, todos nós construímos imagens de nós mesmos e nos culpamos por não cumpri-la a risca. E pior, ainda pensamos que somos os únicos no mundo a fazer isso. Paz difícil de se alcançar.
Tão verdadeiro que chega a tocar nosso amago.
Primeira vez que comento aqui e…Nossa meus sinceros parabéns não só por escrever bem, mas por saber escolher de uma forma incrível os assuntos.
Não poderia deixar de te parabenizar e dizer o quanto o seu texto me fez bem.
Acho que é nisso que o escrever consiste… Saber que existem outras pessoas que passam pelos mesmos dilemas que você deixa a vida melhor.
Continue postando mais textos maravilhosos como este.
Abraços.
estou apaixonada com os textos dessa nova colaboradora, era o que faltava no blog ! mt mt bom mesmo !
Ual, acho que todos já tivemos uma fase assim.. É muita coisa na cabeça e nós não contentes com o que temos queremos tudo, queremos sempre sermos melhores, pena que algumas vezes deixamos de ser naturais por conta disso…
Bjs.
Nossa….. EU queria saber me expressar assim, parece que eu li a minha vida agora… obrigada!
HOJE, esse texto resume A MINHA PESSOA. Eu to querendo alistar os afazeres do dia, e não me prender em uma única coisa. Sei lá, muito monotonia, chego do trabalho e vou pro computador, de lá fico até a hora de ir pra aula. O que me faz se sentir culpada o resto do dia por não ter concluido várias coisas no meu dia. Eu só achei algumas partes confusas de enteder, mais de resto, tudo ótimo!
sem palavras,cara PERFEITO *-*
Eu adorei o texto. Não sei bem, mas eu me encontrei nele… Parabéns :)