O início pode parecer um tropeço, já que ninguém são vai ser contra o amor, mas há os que, em lapsos de mornas temperaturas, opõem o amor e a paixão. E se o conflito é esse, o título é uma escolha de lados.
A paixão é sempre avassaladora, traz o nosso melhor, o nosso pior, e não deixa saber qual é qual. O amor é uma lareira quentinha que arde continuamente, estável, serena. E quem pode ser contra as lareiras quentinhas, senão os loucos? A paixão é como se toda a energia da lenha queimasse de uma vez, em um brilho que cega e tudo consome, como uma supernova. Depois, talvez só haja lenha em outras constelações, pode aparecer mais lenha, infinitamente, ou pode não sobrar nada jamais. Observe um apaixonado e você vai ver alguém que não está mais de posse das suas faculdades mentais, ou mesmo do mínimo de autocontrole.
Dizem que a paixão é tóxica, e ela é, mas e daí? Nós amamos as drogas. E somente a embriaguez da paixão é digna de arte. O amor, para ser arte, só se for difícil, como os do Calvino, não realizado, como os desprovidos de entrega, ou mesmo completamente impossíveis. Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam, segundo um tal de Eça de Queiroz. Há controvérsias, só que, de fato, nada jamais chegará aos pés do amor que não acontece, este sim mais idealizado que a mais brutal das paixões.
As pessoas falam em histórias de amor e o assunto sempre esbarra em Romeu e Julieta. Até que eu li por aí: “Romeu e Julieta não é uma história de amor. É um romance relâmpago entre uma menina de 13 anos e um carinha de 17, que dura três dias e termina com seis mortos”. É a paixão que torna a história saborosa, assim como a vida. História de amor, amor mesmo, são os primeiros cinco minutos de “UP – Altas aventuras”. É lindo de chorar, mas é isso, cinco minutos de filme. O resto são cachorros falantes no fim do mundo, e nostalgia.
Alguém disse que viu mais amizades que paixões se transformarem em amor. Será? O universo da amizade é muito maior, por ser plural, e existem mais amizades que paixões. Mesmo assim, senão uma fração daquelas se transforma em amor. As que se arriscam, em geral, sofrem de unilateralidade e exílio na “zona da amizade” mesmo.
Esperar que o amor venha da amizade, sem uma paixão devastadora junto, é uma das coisas mais mornas e acomodadas que já ouvi falar. É como uma apólice de seguros. É o amor servido como uma dobrada fria. Você ir fazendo um “filtro de compatibilidade” do seu círculo de amigos, que já são pessoas por quem você tem apreço, até que isso se torne, suavemente, uma opção amorosa, equivale a tratos do tipo “se eu e você chegarmos solteiros aos 40, a gente casa um com o outro, tá?”
Apaixonar-se é dar murro em ponta de faca mesmo. A paixão não cega as pessoas para os defeitos dos outros. Como poderia? O que ela faz é aumentar a nossa capacidade de relevar, de não dar a mínima, de nem ligar que ela tenha essas esquisitices, e não de achar que defeitos não existem e, então, se desapontar quando caem as máscaras, ou quando passa o afã.
Pela sua força explosiva, a paixão é efêmera mesmo. Ninguém consegue se manter nesse estado, nessa intensidade por décadas, anos, ou seriam dias? Difícil achar uma medida de tempo, mas nem o amor consegue essa longevidade toda. Um amor que nasça de uma paixão, de uma conexão profunda formada no coração em chamas de uma estrela, é mais bonito e vivo que um amor sereno, gradativo e limpo.
Orson Welles disse que “se você quer um final feliz, isso depende, é claro, de onde você para a história.”
Pensando bem, paixão é sofrimento e um amor tranquilo é um bálsamo para a alma. O amor é seguro, confia na sua estabilidade. A paixão é onde a gente tropeça, se envergonha, faz papel de bobo e, muitas vezes, acaba sendo a causa do seu próprio ocaso.
A paixão teme o seu próprio fim e por isso se agarra à vida. Mesmo explosiva, a paixão permite que se faça amor de forma lenta, sentida, transpirando o desejo de que aquele momento não acabe nunca, nunca, nunca, que aquele enlace jamais termine. Mas tudo termina, não?
A vida é muito curta. É instável. Pode acabar de surpresa. A paixão é mais parecida com a vida que o amor.
Um universo que força você a escolher entre paixão e amor é um filho da puta, porque o melhor dos mundos é o encontro das duas coisas. Uma vida só de paixão, sem amor, é sofrida demais. Mas se insistem em tornar a paixão um veneno vil, oposta ao amor, então sou contra o amor.
Autor: Renato Kaufmann é autor dos livros “Diário de um grávido” e “Como nascem os pais”. Para acompanhar o trabalho do cara, siga o perfil @neural_noise ou acesse confeitariamag.com.


16 comentários
Uma conversa de leitora para leitora.
Este espaço continua sendo seu também. Comente com carinho e respeito por quem está lendo.
1# haha muito lindoo
Olá amores,pra começo e conceito eu amo o blog..haha Eu sempre escrevo textos ,pelos meu atos e relatos sobre a vida ,sobre erros ,enfim…eu não procuro escrever nada ,além de que eu sinta mesmo.Eu não tenho literalmente um blog ,nunca pensei em fazer.Pois eu comecei agora e ainda to pensando bem nesse conceito de um blog na minha vida ,se é que me entende.Queria muito que me respondesse e manda-se o imail do blog pra mim mandar meus textos ,vai que por acaso gostem e ele aparece ai ?!haha muitos beijos
“se você quer um final feliz, isso depende, é claro, de onde você para a história.” adorei essa frase, a mais pura realidade.
beijos lindas, http://eighteensoon.blogspot.com.br/
Adorei, muito realista e bem escrito
Lindo texto, amei! (:
http://onlycraziness.blogspot.com.br/
“O amor é uma lareira quentinha que arde continuamente, estável, serena.”
que coisa mais linda….!!!
mil beijinhos
Kammy
http://www.ComerBlogarAmar.com.br
ótimo texto!
http://toobege.blogspot.com/
Amei <3
que texto lindo!!
Adorei!Bruna, no blog http://milenalolaa.blogspot.com.br tem uma menina copiando os seus posts, não sei se você já sabia,só vim ajudar!…
“A paixão é sempre avassaladora, traz o nosso melhor, o nosso pior, e não deixa saber qual é qual.“ De todas as frases desse texto essa é mais foda de todas!!!
OOi Bruu, deixa eu te perguntar.. Eu tenho um canal no youtube e quero ser parceira, só que para isso eu preciso ter uma conta no google adsense e gostaria de saber se eu tenho que ter um cartão internacional para fazer a conta ou que tipo de conta eu tenho que ter no banco para fazer o meu cadastro no google adsense ?
beijão e obrigada desde já !
Amei o texto, nunca tinha visto as coisas por este lado e fez todo o sentido pra mim.
Olá! Escrevo meus sentimentos em http://www.sentimentosefemeros.tumblr.com (:
sou fã incondicional desse blog! cada postagem que me deixa assim…atônita, me faz ansiar pelo próximo! rs
lindo texto.