
A maioria das escolhas que realmente me causaram medo nessa vida não eram tão decisivas e definitivas quanto eu achei que seriam. Perceber isso é quase um antídoto para minha mente ansiosa. Fico mais tranquila quando lembro das fases difíceis e de como com o tempo até os piores desdobramentos e reviravoltas trouxeram textura na forma que eu me permito contar essas histórias pra mim mesma e pintar essas gravuras na mente. Nem todas eu emolduro e coloco na parede, mas elas me ensinam como envelhecer é um presente, uma oportunidade de não ser apenas o que já aconteceu. Até porque tudo assusta um pouco menos se você presta atenção na parte em que a vida continua independente da ideia estática que você criou dela no passado.
Muitas vezes essa ideia nem era sua de verdade.
No que diz respeito a mim, um indivíduo do sexo feminino que acabou de completar três décadas de vida, tenho tido como principal forma de autocuidado fazer escolhas que me possibilitam fazer mais escolhas no futuro. Entendi que esse é um jeito de dançar com o ponteiro do relógio. Tenho me dado tempo e espaço pra observar não só os que estão à minha volta, mas também a mim mesma. Isso na prática significa juntar dinheiro, ir com calma nos relacionamentos, me dedicar ao meu trabalho, construir uma rede de amigos em que eu confio e viver em um lugar confortável. Soa como egoísmo, mas é uma retratação da minha própria história. Não apenas me tornar consciente dela, mas ocupar o meu espaço e mudar a narrativa. Sinto que devia isso a mim mesma por ter desperdiçado tanto tempo e energia tentando fazer parte de histórias que não eram realmente minhas.
Infelizmente nenhuma experiência é individual.
Por um intervalo de tempo a minha segurança vinha da sensação de independência, como se a maior lição fosse nunca depender de ninguém. Foi quando o olhar do outro se tornou um lembrete de quem eu sou. Depois me vi querendo usufruir do privilégio de poder fazer as coisas com um pouco mais de calma, escolher e não apenas reagir. Agora me sinto aberta para o que está por vir. Sem tanto medo de perder tudo, de me perder de mim mesma. Soa como uma conquista, mas eu sei que esses tratados internos entre as minhas versões ainda são recentes. De tempos em tempos eu preciso ficar sozinha, organizar as regras e os limites para fazer funcionar. Tem funcionado.
Se você sabe que quer ter filhos, continue aqui comigo. Caso você tenha certeza de que isso não é pra você... ótimo. Continue também. Por curiosidade ou talvez para que você entenda um pouco mais quando suas amigas vierem desabafar a respeito. Depois dos 30 em algum momento isso sempre vira assunto. Na mesa de bar, na bancada da cozinha, entre os aparelhos da academia ou na sala de espera de uma consulta médica.
A questão é que logo ali depois da esquina de quem carrega um útero existe uma decisão que é definitiva e muda tudo. Pelo menos por um tempo. A escolha da maternidade é um mergulho num mar em que não se nada mais sozinho. Nunca mais. Isso me fascina e me assusta na mesma intensidade. Me instiga e paralisa também. Foi assim com você?
Depois de uma certa idade, o relógio biológico te faz pensar em bebês com mais frequência. Eles estão por toda a parte, sempre estiveram, mas agora eles sorriem de volta pra você e a cena fica na memória. O story que mais entretém é aquele da sua amiga que tá grávida ou acabou de sair da maternidade. Quando você menos espera, seus traços se misturam com o dele e uma inteligência (nem sempre artificial) cria uma imagem que faz seu coração bater mais forte. Deus me livre (agora), mas quem me dera (e se não der nunca?). Colocaram tanto medo na nossa geração sobre o risco da gravidez na adolescência que agora com esse tanto de responsabilidade da vida que conquistamos fica difícil imaginar o que muda para que isso possa funcionar. Pelo que entendi, a única certeza que temos até o momento é a da mudança.
Antes de falar sobre o quanto a sociedade nos ensina desde cedo a querer ocupar esse lugar como a ordem natural das coisas, dou um passo para o lado e levanto uma questão que me parece pertinente e decisiva na posição em que vamos ocupar nessa montanha-russa toda. Será que existe uma forma de nos prepararmos pra isso? Não tem nada a ver com “estar pronta”, porque essa ideia eu já abandonei há anos quando a minha primeira amiga engravidou. Ninguém está completamente pronto para algo que ainda não aconteceu. Torna-se com o acontecimento.
A ideia de retirar-se do centro da própria vida me parece um tanto quanto descabida depois de anos me colocando exatamente nessa posição, mas é quase impossível não enxergar beleza na complexidade e na importância dessa escolha. Os meus olhos brilham com as nuances de colocar de lado meus anseios e ocupar um papel de alguém que cria, ensina e acolhe sem querer nada em troca e talvez receber um mundo inteiro de novas emoções, sensações e sentimentos.
Uma conhecida disse que a maternidade a ajudou com a ansiedade porque pela primeira vez ela percebeu a insignificância dos problemas que só existiam na cabeça dela e a importância da sua presença no presente afinal de contas o corpo dela tinha tudo o que um bebê precisava para sobreviver. Uma amiga privilegiada, é claro, porque alguns problemas existem dentro, mas principalmente fora da nossa cabeça. Na nossa realidade.
Penso que quando você não romantiza tanto algo e enxerga a cena de diversos ângulos, lá na frente a comparação machuca um pouco menos. Porque o que foi te vendido era bonito, difícil, solitário, indescritível e único.
Quando me dizem que ter um filho é uma experiência transformadora e que você morre e nasce de novo isso não me assusta. Muito pelo contrário. Pra mim se reinventar é uma das maiores alegrias dessa vida. Adoro a sensação de voltar num lugar que já estive e perceber o tanto de vida que aconteceu no intervalo. Imagina como é passar por isso e ter uma vida como acontecimento de verdade.
Só que essa geralmente é uma experiência que a gente vive em conjunto. Em dupla, em comunidade, em família. No meu caso é algo que eu sei que quero viver e com quem quero viver, mas ainda não tenho certeza do quando e em quais circunstâncias. Não me refiro aos protocolos e rituais que geralmente as pessoas buscam viver antes desse momento, mas ao eixo e o balanço entre as áreas da vida dos dois indivíduos que fazem parte da relação.
E eu me pergunto se os caras também estão preocupados com isso. Se eles pensam nessas coisas quando dizem “eu quero ser pai”. É importante lembrar que gravidez compulsiva não resolve crise de relacionamento. Não tira ninguém de uma fase ruim da vida. Engravidar para fazer alguém feliz não te torna uma mãe feliz.
Aqui em casa desde o começo da relação eu finquei os pés no chão pra trazer um pouco mais de realidade sobre o que significa responsabilidade e cuidado. Observei atitudes e não apenas discursos. Pra ser honesta, felizmente eu não engravidei em outras relações que tive quando ainda não tinha maturidade pra perceber e comunicar tudo isso. Digo isso porque eu já estive em relacionamentos em que a outra pessoa disse em alto e bom tom “família nunca será prioridade pra mim” enquanto claramente família sempre foi prioridade na minha vida. Por isso, repito, confronte. Converse. Essa diálogo é importante e pode acontecer em qualquer fase da relação. O quanto antes melhor.
Gostaria que todas as mulheres pudessem fazer o mesmo. Pensar em formas de chegar ou se aproximar de uma realidade com responsabilidades equalizadas. Estabelecer e criar um arranjo dentro da relação para que a parentalidade seja no mínimo, quando possível, equilibrada. É difícil falar disso no início quando pensamos na gestação, no puerpério, amamentação e na quase inevitável culpa por não dar conta de tudo (uma constante nas conversas que tenho tido com amigas que acabaram de ter bebê).
Quando se pode planejar, o que deve entrar pra lista das prioridades? Estabilidade financeira? Rede de apoio? Rotina equilibrada? Casa própria? Saúde mental? Saber cozinhar? Já ter vivido o suficiente? Querer viver tudo de novo de um jeito diferente? Um parceiro presente?
Como as dinâmicas atuais da vida de vocês podem mudar para que num período de sobrecarga você consiga se dedicar, cuidar e também preservar a sua individualidade sem estar usando toda a sua energia pra simplesmente dar conta de tudo? Quais são as suas responsabilidades atuais com o resto da sua família? Você dá conta de assumir outras? Como você se sente sobre parar de trabalhar por um tempo?
Poder pensar sobre isso, me questionar, fazer essas perguntas em voz alta pra quem eu amo e fazer planos é a minha versão de “felizes no agora” que convenhamos é muito mais interessante pra gente do que o “felizes para sempre”.
Dia desses, depois de gravar dois vídeos (1) (2) sobre o assunto no meu Instagram, falaram que por ter esses questionamentos eu era mais uma vítima do feminismo. Eu dei risada. Poder escrever esse texto sem um pingo de medo e vergonha é mais uma das conquistas dessa luta que ainda não ganhamos. Para falar a verdade, estamos perdendo cada vez mais visto que as mortes por feminicídio nunca estiveram tão altas quanto agora.

6 comentários
Uma conversa de leitora para leitora.
Este espaço continua sendo seu também. Comente com carinho e respeito por quem está lendo.
Que post incrível. Sempre olho o blog para procurar novidades e essa me surpreendeu. Estou com 31 anos, mãe de um menino de 3 anos e várias amigas grávidas com ou bebês. Parece que está na época para todo mundo. É um misto de emoções ser mãe. Tem momentos que você ama e momentos que você quer fugir. É uma culpa por deixar ele em casa, mas aliviada por ter tempo só para você. Vale a pena ser mãe, mas o preço é caro. Você briga com seu egoísmo, a vida não é mais a mesma. Parece que é mais intensa, mais forte, mais exigente e mais feliz. Apesar de todas as dificuldades que vão aparecer. É a experiência mais louca e feliz da minha vida. Até porque trabalho dois expedientes e ainda tenho de dar conta de casa e do baby. Minha mãe e meu marido me ajudam, mas ainda assim muita coisa sou eu.
Bru, eu li isso com um nó silencioso no peito.
Eu nunca me vi como mãe. Nunca foi uma identidade que eu projetasse com clareza. E, ainda assim, a vida aconteceu. Me tornei mae aos 35 rs
E mesmo sendo mãe, eu ainda carrego inseguranças. Elas não desapareceram com o nascimento, nem com o amor imenso que veio junto. Às vezes acho que elas só mudaram de forma. Não é mais medo de decidir, é medo de errar. Não é mais medo de perder liberdade, é medo de não ser suficiente.
Quando você fala sobre fazer escolhas que permitem outras escolhas no futuro, eu penso que a maternidade também faz isso, mas de um jeito que a gente não controla totalmente. Ela amplia, tensiona e revela.
Gosto da forma como você não romantiza e também não rejeita. Existe beleza e existe peso. Existe fascínio e existe cansaço. E talvez o que mais me atravessa no seu texto é isso: a honestidade de olhar para essa decisão sem ingenuidade, mas com desejo.
A maternidade não me fez morrer e nascer de novo de uma vez só. Ela me faz me reinventar em pequenas doses, todos os dias. E ainda assim, continuo sendo eu. Em construção.
http://www.saidaminhalente.com
Eu amo o blog e amo suas postagens… mesmo estando na casa dos 20 (21, para ser mais exata) me identifiquei com o que disse sobre bebês estarem por toda parte, mas, para mim, o que está por toda parte são casamentos, casamentos e bebês. Amigas e colegas da escola estão construindo a vida, casando-se, tendo filhos e eu me sinto ”como assim? ainda temos 15 anos”, não porque talvez eu não queira filhos ou me casar, mas porque a passagem de tempo é bizarra, realmente sinto como se ainda tivesse 15 anos. E tá tudo bem, né? <3
Eu tive meu primeiro filho aos 19 anos: não é gravidez na adolescência, eu sei, mas eu era tão jovem… Vivi tudo com TANTA pressa, pressão, cobrança. Tudo que eu queria era poder ter meu filho próximo a casa dos 30. Queria viver ele novamente, mas com a maturidade da idade pra poder ser a melhor mãe que eu poderia ser. A gente NUNCA está pronta para ter filhos e isso se comprova quando ele nasce, mas a maturidade ajuda muito.
Foi só depois de ouvir seu podcast sobre maternidade que descobri que você ainda escreve para o blog. Como alguém que te acompanha desde o início, tive um misto de sentimentos de nostalgia e felicidade. Senti, como há muito tempo não sentia, a genuína vontade de deixar um comentário sobre um conteúdo que, ao contrário da rede social, está ali para ser consumido com tempo e profundidade. Por isso, meu primeiro obrigada.
Sobre o tema, sinto como se você tivesse gravado aquele podcast e escrito esse texto, depois de uma longa conversa comigo. É exatamente tudo o que tenho pensado e refletido ao longo dos últimos meses. Por aqui, o questionamento também nunca foi sobre querer ou não, mas sim, qual seria o momento certo. A partir do momento que percebi que 1) o momento certo nunca vai existir e 2) hoje, felizmente, não há nenhum motivo relevante para não dar esse passo, a decisão sobre começar a tentar veio naturalmente.
Mas, é claro, assim como você, me sinto privilegiada por estar em uma condição que me permite enfrentar cada um desses dilemas de forma racional e tranquila. A escolha do parceiro, e ter deixado isso às claras desde o início da relação, certamente fizeram toda a diferença para que eu pudesse estar nesse lugar.
Eu e você temos praticamente a mesma idade (também dou de 94) e, de certo modo, penso em você como uma amiga que mora longe, mas que vive fases muito próximas às minhas e sempre tem um bom conselho para dar. Então, encerro esse textão com mais um obrigada por você espalhar pelo mundo tanta beleza, sabedoria e generosidade <3
Bruna, ao chegar aos meus 32 anos eu simplesmente entendi que talvez eu não queira ser mãe, e que o momento em que “quis ser mãe” foi só porque era tudo o que se diziam que deveríamos ser: mães.
Mas pode ser também que eu não queira ser uma mãe que vai gestar. Essa história de engravidar e durante 09 meses carregar alguém em formação dentro de você nunca me pareceu uma ideia romantica da gravidez. Como diria uma amiga “quem dá a luz é sol, a mulher pari mesmo”. huahuahuahua
Mas achei pertinente o seu texto e questionamentos. Afinal, qual o melhor momento para se ter um filho? Qual a idade perfeita para isso? O que deve estar estabilizado antes de gestar alguém? O parceiro será presente ou só mais uma criança que vai precisar de atenção?
Eu, sendo uma mulher lésbica, em alguns momentos cheguei a pensar se a parceira com quem estava seria uma boa mãe junto comigo. Enfim, sempre pensei em adotar. Mas qual seria o melhor momento para adotar? Eu conseguiria adotar uma criança sendo uma mãe solteira? Me coloco nesse lugar porque minha mãe foi solteira…
Fica a pergunta: será que queremos ter filhos mesmo?