
19 de dezembro de 2013. Meu Deus, como o tempo passou rápido. Se tudo tivesse sido diferente desde o começo, hoje, nós completaríamos exatos seis anos juntos (dois como melhores amigos). Era impossível olhar no calendário e não reparar naquele número. Eu ainda conseguia me lembrar das vezes em que esquecemos de comemorar a data do “aniversário mensal” de namoro. Tão distraídos as besteiras do dia a dia. Mas tudo bem, sempre nos perdoávamos pelo erro, afinal de contas, ainda tínhamos todos os outros dias para fazer isso. Diferente de agora.
Enquanto prolongava os minutos na cama, desobedecendo o despertador, voltei no tempo. Para ser mais preciso, o dia em que nos despedimos de vez. Lembro que eu estava empolgado com minha nova vida. Mudar de cidade, fazer estágio, entrar na faculdade… tudo seria perfeito se, por culpa do destino, seu futuro não fosse em um lugar tão longe. Até aquele momento não tinha ideia no quão difícil seria. Alguns meses antes, quando imaginava a despedida ou quando alguns dos nossos amigos perguntavam como seria, me convencia, de um jeito muito egoísta, que algo surpreendente aconteceria antes. Um furacão. Uma proposta irrecusável mais perto. Uma ordem da família. Mas no fundo, sempre soube que seu talento era grande demais para aquela pequena cidade. Que mais cedo ou mais tarde alguém descobriria e te roubaria de mim.
Eu te admirava muito. Acreditava que era a garota mais sensível que eu poderia conhecer nessa vida. Não é pra menos, né? Você sempre surpreendia todos ao redor com seus planos para o futuro. Para você, com certeza, não existiam limites. Já, infelizmente, para o que eu sentia… Não me entenda mal. Eu não sabia o que fazer com tudo aquilo que quase explodia dentro do meu peito. Era tão estranho imaginar que algum tempo depois você simplesmente viraria a página em que escrevemos, nos últimos anos, nossa história. Eu não queria fazer parte só das suas lembranças, mas também não queria dividir o futuro com ninguém. Nenhum detalhe. Principalmente com pessoas que tenho certeza, teriam uma vida bem mais interessante que a minha. Você sabe, aqueles seus amigos da internet. Ainda sinto um pouco de ciúmes quando penso que você conheceu, conversou, enfim, foi você, com cada um deles.
Isso me fez ter um repulso enorme de tudo que tivesse a ver com o seu futuro. Você vivia me cobrando um pouco mais de companheirismo. Mas como eu poderia me sentir feliz por saber que a cada boa notícia, mais concreto a ideia da mudança se tornava? Hoje sei que foi besteira, mas enfim, aquela minha antiga versão pensava assim. Aquela minha antiga versão agia assim. Não entenda mal. Jamais torci para o seu fracasso. Eu apenas acreditava que sua vitória seria mais feliz se estivesse ao meu lado. Mas hoje penso e admito, eu queria sim você do meu lado. Mas ainda não estava verdadeiramente do seu lado.
Peguei a chave do carro e fui até sua casa. Não pude deixar de lembrar que aquela era a última vez que eu faria aquele caminho para te encontrar e te beijar, abraçar, apertar… Você morava do outro lado da cidade. Desde que nos conhecemos, fiz aquele trajeto pelo menos umas mil vezes. Aliás, agradeço até hoje a Joana por ter nos apresentado naquela festa chata que acabou se tornando uma das mais importantes da minha vida. Você estava tão linda com aquele vestido estampado. Não consegui tirar os olhos por um minuto. Depois, lembro de ter me esforçado bastante para conseguir ser seu amigo por tanto tempo.
Toquei a campainha e logo escutei o latido da sua cadelinha barulhenta. Ela me olhou da janela e logo reconheceu. Respirei fundo e pedi, fazendo aquela voz que você sempre fazia, para que ela chamasse logo a “mamãe”.
Dessa parte em diante as coisas ficam embaralhadas na minha cabeça. Como o final de um filme ruim. Quero dizer, um final sem final feliz. Acho que fiquei tanto tempo tentando bloquear isso da minha memória, que por defesa, fantasiei coisas. Criei duplos sentidos nas frases que dissemos e nos olhares que trocamos. Era mais fácil acreditar que você já não gostava tanto de mim como no começo do namoro. Que nós conseguiríamos voltar a ser só amigos algum tempo depois. Enfim, criei desculpas que justificam minha escolha: terminar.
Esse foi nosso combinado. Sem dores. Nós simplesmente não ficaríamos mais juntos, como namorados, mas continuaríamos conversando e trocando respondências online. Acho que nas últimas semanas você queria desistir dessa bobagem. Mas eu, já convencido e no fundo um pouco ansioso para minha nova vida, te convenci que era melhor daquela maneira.
Definitivamente não foi. Eu senti sua falta cada segundo nos dias seguintes. Como já era o previsto, mudei também pouco tempo depois. Faltava pouco o para o inicio das aulas e logo em seguida, finalmente começaria o estágio na Light, maior companhia de energia elétrica da região. A cidade era diferente. Isso me fazia acreditar que não existiram lembranças de você. Ah, como eu estava enganado. Cada coisa nova que eu via ou vivia, me dava uma vontade enorme de compartilhar com você. Não no seu mural. No seu ouvido. Aliás, por favor, qual é a marca do seu perfume? Eu senti ele em todas as garotas que me aproximei nos três meses seguintes.
Os meses foram se passando, e a falta de convivência e os ciúmes que foram surgindo (duvido que eram todos gays naquela festa), fizeram com que em menos de um ano, nos tornássemos apenas desconhecidos. Triste, mas real. Você tinha sua nova e perfeita vida. E eu ainda continuava andando com os nossos mesmos amigos, fazendo absolutamente as mesmas coisas de sempre. O que tornava tudo ainda mais complicado. Afinal de contas, minha vida não tinha mudado tanto assim. E tenho certeza, na sua agenda não sobrava sequer um minuto para pensar em mim.
Depois de quase um ano conheci uma garota de verdade. No trabalho. Ela era diferente das outras que tinha me envolvido até então. No começo até comparei com você em uma coisa ou outra, mas depois, descobri que ela era especial e tinha suas próprias peculiaridades. Ficamos juntos por um bom tempo, me diverti bastante, e adivinha? Em uma noite assistindo um filme que não lembro direito o nome, no sofá do meu apartamento, disse o primeiro “eu te amo” depois de você.
Ela me deu um beijo demorado, disse que também me amava. E aquilo me confortou por dentro. As coisas estavam caminhando. Com certeza o sentimento não era ainda o que construímos no tempo em que passamos juntos, mas eu sabia que aquela garota me faria muito feliz. Era uma questão de amar o futuro um pouquinho mais do que eu amava – e sentia falta do – passado. Ou melhor, de você.
Dei espaço e ela entrou na minha vida de vez. Acredita que ela até se tornou melhor amiga da minha irmã? Viajamos junto com a família toda para o nordeste, nas férias de 2011. Foi com certeza um dos melhores momentos da minha vida. Tudo era tão colorido e real. Nada de lembranças. Era um presente do presente.
Queria te contar agora um final feliz, mas isso só seria possível se em uma madrugada de agosto, eu não tivesse inventado de ir em uma exposição que estava acontecendo na cidade vizinha. Se não me engano, já fomos nela alguma vezes. Ela, ao contrário da senhorita, adorava uma festa. Não perdia a oportunidade de ver pessoas e encontrar amigos. Topou na hora e ficou pronta em 20 minutos. Passei de carro, e pegamos estrada. Queria colocar uma música legal para já irmos entrando no clima. O show principal era do Skank. Pedi então para que ela se abaixasse e pegasse os CDs do meu pai, que como você deve lembrar (ele não mudou nadinha), ficavam escondidos debaixo do banco de passageiro. Nesse segundo, apareceu na estrada um cachorro branco, e o pior aconteceu. Para desviar, joguei o carro para a direito e batemos com tudo em uma árvore enorme. O carro estava em uma velocidade considerável, mas com cinto, nada teria acontecido. Só que graças a mim, ela não estava mais usando. Isso mesmo, a culpa da morte dela foi totalmente minha.
Aquilo parecia um pesadelo. Cena de filme de terror. Eu deveria ter morrido no lugar dela. Queria pegar a dor dos pais dela, no velório, e injetar no meu peito. Ficar de luto eterno e nunca mais sair do meu quarto. Mas na vida real, não é assim, né? Tive que abrir as cortinas. Fui para o trabalho e juro, nunca achei que me sentiria daquele jeito de novo. Na verdade, era ainda pior. Acho que a gente só esquece de verdade a dor de uma antiga lágrima quando deixamos outra escorrer. No meu caso, o destino me obrigou a deixar.
Abri os olhos assustado. Tinha ficado pelo menos 40 minutos ali na cama. Escrevendo, mentalmente, uma carta para alguém que eu nem sabia mais se ainda se importava comigo. Levantei com um pulo, e corri para o banheiro. Liguei o chuveiro e, enquanto a água molhava meu cabelo, me perguntava, o que será que minha ex primeira e agora única melhor amiga estaria fazendo naquele exato momento? Com certeza, se eu ainda tivesse coragem de ligar, ela saberia exatamente o que dizer.

57 comentários
Uma conversa de leitora para leitora.
Este espaço continua sendo seu também. Comente com carinho e respeito por quem está lendo.
Naquele momento eu queria dizer tudo, queria desabafar e dizer tudo o que estava guardado aqui dentro de mim. Mas eu não consegui; eu apenas disse “tudo bem, pode ir”. E você se foi, deu as costas e não mais olhou para mim. Eu esperava que você me perguntasse algo, sei lá, talvez naquele momento eu tivesse conseguido me declarar se você tivesse insistido para que eu tivesse dito algo a mais. E depois disso, eu só pude pensar na chance que eu havia perdido. Talvez a primeira e última.
Bruna, que perfeitas essas suas historias, espero que tu poste uma todos os dias, achei que teria continuação do “A novata” rsrs…
Sucesso linda ^–^
Nossa, texto lindo e triste.
História’ Lindo AMEI *—*
Muito lindo e extremamente profundo.
Valeu Duda! Obrigada também pela dica!
Quase chorei de tão lindo e verossímil que ficou esse texto. Parabéns!
Muito bom o texto, nunca paro para ler textos sentimentais mais esse realmente está de parabéns.
Noooosssaa….estou acompanhando seu blog desde ontem e já estou surpreendida!
Parabéns!
Lindo demais, parabéns.
–
http://frommewithluv.blogspot.com.br
. eu não sei dizer o que senti acabando de ler sua crônica, que coisa bela, para uma pessoa tão jovem escrever, quanto sentimento! fica a impressão de que um dia gostaria de conhecê-la pessoalmente, uma sensibilidade assim é um presente conhecer.
. beijinhos mil.
. fique com DEUS.
. leila diniz (http://www.vitrineaugusta.com/)
Triste, mas lindo. Escrevendo cada vez melhor!
Olá, minha amiga esta fazendo faculdade de moda e começou a carreira de fotografa. Ela criou uma página no facebook: http://www.facebook.com/KasmiFotografia curti ae e ajude a divulgar ;)
inclusive tem a prévia do meu ensaio vintage: http://www.facebook.com/media/set/?set=a.154544418025455.52347.151963591616871&type=1
Bruna já veio alguma vez a Rondônia?
Bru, estou adorando cada vez mais seus textos. Estão de uma profundidade e uma sentimentalidade extrema! Gosto disso. Percebi (eu acho) que você se inspirou em alguns fatos da sua vida para escrever esse texto. Me sinto feliz por ver que você está amadurecendo cada vez mais, a ponto de escrever sobre algumas coisas da sua vida como lembrança, e não como algo doloroso (pelo menos, eu sinto isso com seus textos, mas não sei se estou certa). Parabéns lindona, você vai longe! Você, sem dúvida, é uma das minhas inspirações! Estou muuuuuito ansiosa pra ler seu livro novo, deve estar maravilhoso! Beijo!
CARAMBA ! Que história ! Impressionante que esses dias tava pensando em te mandar uma pergunta sobre escrever com um eu lírico masculino. Ai vem vc e me responde desse jeito ! kkk Vi que vc divulgou o lugar da estreia do seu livro. Queria saber quais outras cidades vc vai. :*
acho que algumas coisas ali são bem familiares, Br.
não sei se é de fato o que aconteceu (espero que não) mas Deus sempre tem o melhor pra nós
Perfeito,essa é palavra certa para esse texto. Tão profundo ,que é possível sentir cada palavra ,cada sentimento retratado.
Bruna !!!
Muitooo perfeito !!!
Cada texto percebo que voc6e realmente tinha que escrever um livro
E pra nossa sorte, você está =D
Parabéns Você merece !!!
P.S. é dificil me fazerem chorar, mas com este texto, o problema foi segurar as lágrimas …
Uau! Ficou lindo o texto. Trocando o Gênero você também manda bem. Fico lindo e triste. Um “final sem final feliz”.
http://tatilaflorentino.blogspot.com.br
Brunaaaa, que história lindaaaa.. eu realmente entrei nela, rsrs.. Parabens !!
Que crônica mais maravilhosa! Você escreve perfeita mente bem, mesmo que eu seja muito suspeita pra falar de sua maneira de ser expressar, ela é a minha preferida atualmente. Confesso que deu uma vontade enorme de deixar uma lágrima rolar. :’)
Parabéns e tudo do bom e do melhor para você Bruna, você merece muito mais do que já tem.
Que texto perfeito! No início, achei que era uma versão da sua história com o seu ex de Leopoldina contada por ele, e tenho certeza que foi inspirada nisso, mas o final é surpreendente. É lindo e muito triste. Amei!
http://pequenaaventureira.blogspot.com/
Bruna, que texto mais lindo é esse guria ? eu amei e acho que devia considerar uma continuaçao, o que achas ? haha tá faltando elogios pros teus textos :)
Belo texto! Pena que é triste.
Adorei..
delllirios.blogspot.com
quanta inspiração, hein? lindo *.*
Nooossa Bruna! Eu estou em estado de extase aqui! Que texto mais cheio de emocao esse! Lindo! Voce escreve muito! Fique com uma grande emocao depois que li!
Liindo demaais!
:*************
Pude ver Alisson e Bruna nessa história. Dejavu.
Bruna, esse texto me surpreendeu totalmente, tanto por ser um garoto no papel do narrador, quanto pelo final.
“Vi” você em muitas partes do texto hehe
Beijo!
No começo parecia você falando do seu ex falando de você rs Lindo e triste :/
Texto muito lindo, como as outras meninas tambem achei que tem bastante coisa pessoal ai, o que pra mim torna mais incrivel (:
Comentario inutil, mas não posso deixar de fazer; 19 de dezembro é meu aniversário rs se essa data significa alguma coisa pra voce, quando vier pra Curitiba, tem uma praca aqui com esse nome. Não é muita coisa, por ser no centro, mas só pela data já vale a pena haha
Nossa, fiquei muito emocionada. parabéns, muito lindo seu texto !
Bruna, texto lindo! *-* Vai estar no livro?
uma das história mais lindas que já li *–*
fatos reais ?
Quem nunca se pegou escrevendo mentalmente uma carta para um(a) ex-melhor amigo(a)? :/
Nossa muito perfeito! Me identifiquei muito, afinal, meu ex namorado acabou indo morar em outra cidade e nunca tentamos um namoro a distancia, isso a três anos atrás, e ainda mantemos contato. Parabéns Bruna acompanho o seu trabalho a tempos e está escrevendo cada vez melhor.
Parabéns liinda! texto super incrivel. *-*
nosa você mesmo que escreveu isso mesmo ??!! serio to babando até agora :o que coisa linda.seério seus textos são mto inspiradores.parebens
Nossa, amei. Simplesmente, perfeito! *-*
Cara… Sem palavras…
Genial, apaixonante, ofegante, e lindo!
#chorei
Meu Deus Bruna!!!!! Obra sua isso? Se isso é só um texto pata o blod, imagina o seu livro? imagina o sonho que ele deve estar! SENHOR PRECISO DELE JÁ!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Olá Bruna, sem palavras para descrever o que eu senti lendo este texto, eu realmente me emocionei e mesmo estando lendo aqui do escritório onde eu trabalho não consegui conter as lágrimas, não de tristeza, mas de emoção por cada palavra que, por ironia combinou muito bem com tudo que eu tenho vivido. Obrigada por cada texto maravilhoso que você escreve Bruna.
Beijos, Fani.
Meu deus, meu coração até acelerou, sério. Isso daria um livro super lindo *–* Gosto de verdade das coisas que voce escreve, e foi apartir daqui que eu criei coragem para passar para textos as coisas que eu sinto :) bjs
http://www.naquelemomentoeujuro.blogspot.com
Deus do céu!! simplesmente perfeito!! A bruna que lindo…nossa lindo de mais! quando eu achei que tudo ia dar certo a história foi para um rumo tão diferente!! eu gostei do final, apesar de ser triste foi ótimo! daria um ótimo filme!
Da uma olhada no meu blogg, minha vida na Suécia.. Tudo sobre moda, curiosidades etc
http://crislund.blogspot.se/
Bruna tem tudo pra ser minha escritora favorita <3
sensacional!
Nossa, é difícil adjetivar a sensação que tive ao ler o texto. Parabéns.