
No começo da semana tentei marcar uma consulta médica para sexta. A mocinha, por telefone, avisou que não seria possível já que dia 25 é feriado, aniversário de São Paulo. Fiquei alguns segundos em silêncio e marquei para a próxima quarta (não me deixem esquecer). Desliguei o telefone e lembrei dessa mesma data no ano passado. Eu ainda morava em Leopoldina, mas minhas malas já estavam prontas e só faltava a tão esperada festa de formatura do CEFET para a mudança acontecer. Lembro de organizar tudo em caixas e chorar ao ver a Zooey perceber a situação. Com alguns meses de vida, ela desenvolveu a incrível capacidade de entender que as malas significam dias longe da mamãe. Daquela vez eram várias delas. Muito mais que dias.
Todo mundo diz que eu fui corajosa. Que mudar de cidade, sozinha, aos 17 anos não é uma tarefa tão simples. E de fato não foi. Mas quando tomei a decisão, no começo de 2011, não lembro de ficar imaginando como seria. Expectativas demais estragam qualquer sonho. Fiz um acordo comigo mesma e prometi que esse assunto só seria pauta dos meus pensamentos de travesseiro quando fosse a hora. Enquanto o tempo passava, juntei o máximo grana possível e convenci meus pais.
São Paulo, para mim era cinza. Assim como o Rio é laranja. Desde pequena ligo cidades a cores e da janela do ônibus, naquele primeiro dia, percebi que eu não estava tão errada assim. A cidade que nunca dorme, em uma madrugada qualquer na feirinha da Brás, estava acordando. Tudo era novo. A quantidade de orientais. O trânsito. Ter que usar o elevador. Estar sozinha na hora da novela das 9. Droga. Deixei uma lágrima escorrer enquanto escrevia isso. A falta que senti dos meus pais, amigos e na época, namorado, me fazia parecer uma cachoeira ambulante. Tive que escrever uns vinte textos para entender que aquilo era uma fase e que logo ia passar. Ok. Não passou, mas aprendi a ocupar minha mente, conversar com o cachorrinho Schnauzer da vizinha e simplesmente parar de assistir novela sozinha.
Desde então, foram tantas primeiras vezes. Por exemplo, minha primeira balada gay. Ver os caras se beijando e flertando com meus amigos foi algo completamente inesperado. Na minha cidade isso não é tão comum. Não sou nem um pouco preconceituosa, mas no primeiro momento, achei tudo aquilo muito curioso. Com duas semanas me acostumei e até comecei a pensar que todo garoto dessa cidade era homosexual. Felizmente me provaram que não. Conheci vários gays e a cada dia tenho mais certeza de que eles são os amigos melhores e mais divertidos que eu poderia ter.
Não foi a primeira vez que andei de avião, mas foi a primeira vez que embarquei sozinha. Com uma mala enorme (graças a Deus aprendi e ser mais prática) e um estado desconhecido como destino. Em abril, lá estava eu indo para o Desencontro e me aproximando da Lia, conhecendo o João e aprendendo a levar o blog a sério, como um negócio mesmo. Eu era tão tímida. Ficava imaginando vinte coisas para dizer e só conseguia manter diálogos monossilábicos com as pessoas. Ainda bem que me deram uma segunda chance. Ainda bem que eu dei outra chance para as pessoas também.
Foram tantos lugares e coisas que me mostraram que existem infinitos jeitos de ser feliz. Caminhar pela Paulista logo depois de comprar a primeira Capricho com minha coluna, o parque Ibirapuera e o meu primeiro tombo feio de patins (dói até hoje), o Paris 6 e o meu primeiro jantar romântico (o Lucas da banda Fresno estava na mesa ao lado), a decoração de Natal do El Dorado que me fez ligar para minha mãe, frozen yogurt com morango e farofa crocante, o Salão do Proença que me fez voltar a amar meu cabelo, o shopping Paulista e o lançamento do meu livro e agora, ficar a tarde em casa sozinha ouvindo engenheiros e escrevendo este texto.
Parabéns São Paulo. E obrigada por me receber e entender desde sempre.

68 comentários
Uma conversa de leitora para leitora.
Este espaço continua sendo seu também. Comente com carinho e respeito por quem está lendo.
Adorei! Voce manda mt Bru!!!
Queria convidar suas leitoras para conhecerem a minha lojinha: http://www.glams.com.br Acessórios femininos e Yes Cosmetics Online!
Até me emocionei com o texto. Se mudar e ainda mais sozinha, tão nova e pra tão longe de casa é coisa de gente muito corajosa mesmo. Nem imagino como seria.
Aih me arrepiei e quase chorei, pq sinto o mesmo morando longe da familia. Bruna parabéns pela garra, por ter sido tão corajosa, torço muito por vc, para que tudo na sua vida dê certo. Sou mais do que sua fã, sou uma amiga distante que quer te ver bem, e muito bem.
http://www.vidaaposdezoito.com/
Juro que chorei antes de ler a metade do texto.
Me fez pensar sobre a situação complicada e parecida que estou passando.
Adoro ler os textos que vc escreve, vc bota emoção neles.
É incrível como vc mesmo tendo pouca idade é tão madura.
Obrigada por compartilhar eles com a gente.
Beijos
Adorei o texto Bru! Você foi muito corajosa em vir pra essa cidade maravilhosa!
que linda você!
adorei o texto e adorei conhecer melhor sua história!
(quem me dera ter um blog como o seu)
beijos
http://acessoriosecafeina.com
Tbm ligo cidades a cores, pensei que fosse só eu kkkk.. Que legal ler isso :D Só amei Bruna!!
adorei o texto
me emocionei!
http://ogarotodoespaco.blogspot.com.br/
Adorei seu texto Bruna! Parabéns pela coragem.
“ouvindo engenheiros” foi o suficiente para eu ter um treco! Nunca passou pela minha cabeça que você gosta deles! Antes, eu achava você uma adolescente tão diferente de mim, mas com o tempo, vejo que somos muito parecidas, mas você no jeito bruna e eu no jeito Crystal. Estou gostando bastante de te conhecer melhor atraves dos posts e quebrar tabus. Beijo, Bruna!
uaaal,me identifiquei bastante com seu texto. No início de 2012 (tinha acabado de complestar 17 anos) resolvi mudar para Viçosa-MG,fazer o terceiro ano e morar sozinha em uma cidade em que eu não conhecia absolutamente ninguem, nenhum contato. Não foi dificil convencer meus pais que moram em Goiânia-GO,na verdade eles até queriam que eu morasse em BH,já que tenho parentes lá,mas como é difícil morar com parentes resolvi ir sozinha em busca do meu sonho. Tive que aprender a fazer coisas simples que eu nunca tinha me dado conta,como fazer comprar,analisar o mais barato e descartar tds as “porcarias” do carrinho do supermercado.n a verdade acho q só me dei conta que eu tinha que fazer as compras sozinhas quando minha pasta de dente acabou e eu nao tinha minha mae para “repor” na mesma hora..foi e está sendo uma experiencia incrivel.Amadureci bastante (antes eu não ligava nem no salão para marcar um horario) e são historias como a sua (na época de outras meninas) que nos faz ter forças,a lutar pela distancia,a não entrar em desespero e ligar pra mãe pedindo pra ir embora..Adoro seu blog,beijos
Sou de São Paulo e adoro esse lugar, tem muita coisa diferente acontecendo o tempo todo! E o seu texto ficou lindo!
texto incrível Bruna, parabéns.
Como é bom ficar relembrando coisas tão importantes… As vezes simples, ou não, mas bem importantes.
http://www.alemdemim.com
SP é amor e faz o amor acontecer em N sentidos. Amo minha cidade e amo ser paulista, é uma loucura, mas é da loucura mesmo que a gente gosta!!
Eu acho lindo esse texto, vale a pena dar alguns minutinhos para se concentrar.. Mas Bruninha, faz muito tempo que eu procuro sua postagem sobre a roupa para o primeiro dia da faculdade e não acho o que houve?
Nossa,cada texto que leio fico mais apaixonada,me pego chorando lendo eles! Parabéns Bruna [emoji]e20c[/emoji] :cry: