Talvez sempre tenha sido assim: nossos pais, avós e outros antepassados desconectados viviam o que aparecia pela frente, surfavam nas ondas do destino, de vez em quando deixavam uma delas passar porque estavam distraídos ou preguiçosos, e um dia morriam. De sopetão ou com aviso prévio, eles morreram quando o coração parou de bater, igualzinho vai acontecer comigo e contigo, ainda bem.
O que mudou, além da idade média e causas dessa mortalidade, é que eles deixaram de herança suas calças com a barra gasta de tanto arrastar, um sofá rasgado, a poupança ou as dívidas no banco, a gilete enferrujada na pia, um vinil na estante, a lista de compras na geladeira e quem sabe cartas secretas de uma antiga namorada no fundo da gaveta.
Depois de mortos, os utensílios de uso pessoal dessa gente sortuda iam para o lixo, os pertences úteis para um bazar e as cartas poderiam até quebrar o coração da viúva, mas então eram queimadas e desapareciam, ou apenas desbotavam. Os mortos viravam memórias, anedotas, jargões, princípios transmitidos indiretamente pelas lembranças subjetivas de quem participou de uma parte de suas vidas.
Nem todos conseguiram manter uma reputação positiva, é claro, mas justamente o fato de não poderem falar por si mesmos lhes confere um certo benefício da dúvida. Quando eles morreram, levaram consigo peças fundamentais para que completemos o quebra-cabeça do que foi a vida deles.
As peças do nosso estamos deixando, todos os dias, em lugares da internet dos quais já não nos lembramos, sob a guarda de termos de serviço que não lemos.
Você já buscou algum nome no Facebook de alguém que morreu de forma repentina e virou notícia de jornal? Geralmente, o perfil dessa pessoa desconhecida é aberto, e ali você descobre qual foi a última coisa que ela digitou, vê as fotos das últimas férias dela, do casamento. Você encontra o blog dela, lê seus textos escritos naqueles momentos de mágoa descontrolada que provavelmente nem ela releu nos meses seguintes, pois seguramente se arrependeria de ter publicado aquilo para quaquer um ler.
Tenho medo de poucas coisas na vida. Morrer não é uma delas, mas perder o controle da minha vida porque a tecnologia é cada vez mais avançada me parece sinal de que nossa humanidade está perdendo a corrida. Você sabe em quantos sites tem perfil? Lembra da senha de todos eles? Já fez alguma busca nos arquivos da internet atrás dos seus rastros inapagáveis?
Não precisa levantar o dedo, eu sei que você já se arrependeu de algo que já deixou registrado na internet. Enviar para o mundo aquele pensamento que mal tivemos tempo de formular é fácil porque digitar na tela sensível a toque é mais rápido que refletir sobre o que realmente queremos dizer.
Completo 30 anos nesse mês. Metade deles passei online, primeiro em bate-papos e mensageiros instantâneos com primos, amigos, uma menina com Síndrome de Down na BBS e um garoto de Karachi que usava o apelido MA$E no iCQ. Desde os 18 produzo e publico conteúdo em texto, fotos, vídeos e até em alguns arquivos de áudio.
Há anos alguma lembrança sobre o que publiquei me vem à mente esporadicamente, e instantaneamente corro para checar quão público é aquele detalhe que eu, em certo momento, achei relevante expor a um nível que eu sequer consigo medir.
Há meses penso em escrever sobre isso, mas as ondas da vida são cada dia mais parecidas com as praias do Havaí do que com a nossa pacata Enseada, no Guarujá.
Há semanas eu engasguei durante uma despretensiosa soneca. Estava sozinha em casa, acordei com a garganta fechada, saltei da cama desesperada em busca de fôlego, e em poucos segundos já respirava normalmente. Talvez eu nem sequer tenha chegado perto da morte, e por isso tenha levado ainda um bom tempo para chegar ao décimo-primeiro parágrafo desse texto que tem martelado tanto na minha cabeça. Mas vamos morrer do jeito que escolhemos viver, e gostaria de refletir sobre a possibilidade de termos concordado em deixar nossas escolhas de vida nas mãos alheias.
Esse é o primeiro de uma série de textos que eu gostaria de escrever sobre esse assunto. Privacidade, auto-censura, segurança e também a insegurança são alguns dos fatores que merecem atenção nesse debate, além dos detalhes que eu ainda não cogitei e que vocês podem sugerir nos comentários. Em breve eu volto, se até lá eu não morrer ou me distrair…
SOBRE A AUTORA: Ana Carolina Moreno (1982) é graduada em jornalismo pela Universidade de São Paulo (2006), com especialização em Edição em Jornalismo pela Universidade da Coruña (2009). Já trabalhou em jornais, revistas e sites de notícias no Brasil e na Espanha, além de ter experiência como correspondente internacional na Argentina, Cabo Verde, Chile, França, Suécia e Turquia.
Texto retirado do blog Pensar Enlouquece, do amigo @Inagaki.


31 comentários
Uma conversa de leitora para leitora.
Este espaço continua sendo seu também. Comente com carinho e respeito por quem está lendo.
Adoro o entre aspas, bem legal esse acho que todos nós um dia vamos virar memórias esquecidas! Beijo http://meusalto20.blogspot.com/
Amei, eu chorei, e se eu morresse agora o que eu deixaria para trás??
é um texto interessante,por que passamos a vida pensando na vida e esquecemos que a morte é certa!! beijinhos
Não quero nem imaginar o que seria do meu blog se eu morresse.
Dá uma conferida no meu blog de intercâmbio! http://www.piauiensenaafrica.blogspot.com
Será que só eu fiquei meio paranoica com esse post? Bom minha mãe sabe que eu venho aqui no DDQ todos os dias comentar então… Mãe se algo vier a acontecer comigo minhas senhas de todas as redes sociais estão naquela agendinha dentro do guarda- roupa! Delete tudo sem parar pra pensar ou ler! kkkkkkkkkkkkkk
Bru, você tem alguma forma de contato da autora do texto? Sou estudante de Jornalismo e estou fazendo um super trabalho sobre edição para novembro. Vi que ela é especializada nisso e preciso de fontes hahahaha. Se souber, você pode me falar? Estou precisando MUITO! Obrigada <3
O twitter dela é @anarina <3
Obrigada, Bru <3
https://www.facebook.com/pages/Escritores-de-Gaveta/147281915406470
SAIAM DA GAVETA
Eu sempre imaginei isso: de como seria se eu morresse. Se alguém se lembraria de mim ou dos meus feitos… Por isso, comecei a escrever e postar no meu blog e nas rede sociais. Mas, claro, só aquilo que eu quero que os outros lembrem…
http://enxergandoalemdasaparencias.blogspot.com.br/
Gostei muuuuuuuuito!
Ameii realmente me fez refletir o que eu iria deixar para trás se eu morresse agora o que seria as minhas lembranças com meus amigos familiares, mãe, pai .. seria só lembrança ,mais tenho certeza que em algumas jamais serei esquecida . Meu avô morreu tem 2 meses muitas coisas deles estão guardadas e histórias que ele contava na memória momentos com ele que nunca esquecerei minha vida fez parte da dele acho que isso nunca será esquecido . Bom culpa sua em Bruuna me Fez chorar agora mais é Bom pra refletir ..Beijos :)
Com certeza me arrependi de coisas q eu postei na net, mas fazer a gente sempre erra eu não sei como vou morrer e muito menos quando na verdade isso ninguém sabe, mas quero aproveitar o máximo para que nos últimos momentos eu diga eu fiz tudo q eu tinha vontade de fazer.
Bjssssss
Muito bom para que cada um pense bem o que anda escrevendo por aí com nome e perfil aberto. A internet pode ser um tanto perigosa em vários setores e esse da privacidade é algo difícil porque TUDO fica registrado na internet.
O mais importante é ter a certeza da vida eterna em Cristo Jesus. A morte é mero detalhe. Devemos viver o hoje como se Cristo voltasse a qualquer momento, escolhendo sempre fazer o bem, amar sempre o próximo, afinal, Deus é amor. Fazer o bem é consequencia da fé no Criador. E ele é Deus de vivos e não de mortos.
Que texto lindo, adorei.
Beijoos!
http://simplesglamour.blogspot.com/
muito bom.. esse assunto de morte faz todo mundo parar pra pensar.. :)
Bru, olha eu again hahaha.
Tem umas meninas do quarto ano de Jornalismo fazendo um TCC sobre a revista Capricho. Elas queriam histórias de garotas que tenham algo legal da revista pra contar, aí lembrei de você e contei a sua pra elas. Enfim, elas gostaram e vão entrar em contato contigo :)
Tô deixando avisado porque sei que você tem muuuuuitos e-mails pra responder e tals. Não sei quando elas vão enviar, mas se quiser, te aviso por Twitter (@juliedebatom).
Beijos,
Ju.
Humm ainda nem pensei mas acho que se morrer e ir pra outra vida nhér…
kkkkkk, vejam aquihttp://jhonatashenrrique.blogspot.com.br/
Me fez refletir bastante, sabia? Eu, assim como a autora, não tenho medo de morrer. É a coisa mais absoluta da vida… a certeza da morte. Afinal, nascemos para que um dia possamos morrer, e o que não é assim, pelo menos ao meu ver, é contrário a ordem natural das coisas. Publico muitos textos e fotos, e sinceramente, nunca parei pra pensar no que aconteceria com eles quando eu perecesse. Mas acho que como último desejo, gostaria que fizessem um site só com os meus dilemas, com meus texto, contos e fotografias, pra que as pessoas lembrassem que mesmo depois que a gente morre alguem cuida da gente, mesmo que seja só das palavras que escrevi. E é delas que eu quero que cuide, pois é por meio delas que serei lembrada.
Eu amei o texto, Bru, me fez refletir muuuito e possivelmente o reblogarei, com os devidos créditos, lógico. Parabéns, viu?
Beijo grande! :*
Raíssa Tayná Klasman
As vezes eu fico pensando nisso e sinceramente acho que não quero descobrir, prefiro imaginar mil coisas loucas sem fundamento e viajar em um mundo louco pensando nisso do que simplesmente acreditar que é apenas o fim. Amei esse texto *0*
Amei loucamente !
Também não tenho medo da morte e sim da vida e do que deixamos de fazer por ‘perder’ tanto tempo nesse mundo virtual…Mas tudo isso é preciso…Melhor o dia da morte do que o que se nasce, pq ao morrermos já temos feito um bom nome ( se assim for o caso)!!!
Adorei o texto, otima escritora :)
http://strawberrycupcake-rafa.blogspot.com.br/
http://secretsofariel.blogspot.com.br/
Oi pessoal e Bru. Voces tem alguma ideia de nome para blog? Tambem quero publicarmeus textos, obrigada!!!
Dá uma certa paranoia parar pra pensar nisso…
Interessante esse texto =D
Adorei! que novidade neh….amo o “depois dos quinze”