
Sobras de minha existência pela casa, escondidas para não irritar a nova mocinha. Meu pijama sufocado num canto da gaveta para que nenhuma lembrança respire. Meus chinelos abduzidos no meio da “sapataiada”, tão pequenos que quase inexistem ou poderiam passar tranqüilamente por pares de criança. Fotos, milhares delas, guardadas sem carinho, uma preguiça triste de arrumá-las em álbuns. Estão lá, paralisadas em momentos felizes, tradutoras de uma vida que quase foi, trancadas porque o que quase foi não pode atrapalhar o que ainda pode ser. Talvez um fio de cabelo, o último deles, esteja nesse momento sendo varrido e levado pelo vento forte e solitário que não deixa dúvidas que o inverno chegou.
Inverno que era sempre comemorado porque eu sabia que ele não sentiria tanto calor para dormir e eu poderia ser abraçada de conchinha o tanto que desejasse. Agora é outra que suspira protegida olhando o quadro do Monet e ri apaixonada de algum provável barulho que ele faça com seu nariz estranho, jurando na manhã seguinte que não ronca. Saudade não é ex, tampouco amor. Mas a vida da qual abrimos mão por um sonho (ou por um erro) é passado. E de escolhas e de perdas é feita a nossa história.
Não há nada que se possa fazer a não ser carregar por um tempo um peso sufocante de impotência: eu escolhi que aquele fosse o último abraço. Agora é outra que se perde em ombros tão largos, tomara que ela não se perca tanto ao ponto de um dia não enxergar o quanto aquele abraço é o lado bom da vida. Da vida que te desemprega mesmo depois de tantas noites em claro e de tantos beirutes indigestos. Da vida que te abre uma porta que você jura ser a certa mas quando resolve entrar descobre duas crianças brincando na sala e uma mulher esperando no quarto. Da vida que te confunde tanto que você quer se afastar de tudo para entendê-la de fora. Da vida que te humilha tanto que você quer se ajoelhar numa igreja. Da vida que te emociona tanto que você não quer pensar. Da vida que te dá um tapa na cara pra você acordar e não tem ninguém pra cuidar do machucado e dizer que vai ficar tudo bem. Da vida que te engana.
Aquele abraço era o lado bom da vida, mas para valorizá-lo eu precisava viver. E que irônico: pra viver eu precisava perdê-lo. Se fosse uma comédia-romântica-americana, a gente se encontraria daqui a um tempo e eu diria a ele, que mesmo depois de ter conhecido homens que não gritavam quando eu acendia a luz do quarto, não faziam uso de um cigarro que me irritava profundamente e sobretudo minha rinite alérgica, não amavam os amigos acima de, não espirravam de uma maneira a deixar um fio de meleca pendurado no nariz, não usavam cueca rosa, não cantavam tão mal e tampouco cismavam de imitar o Led Zeppelin, não tinham a mania de aumentar o rádio quando eu estava falando, não tiravam sarro do bairro em que nasci, não insistiam em classificar minhas mãos e pés como seres de outro planeta, não ligavam se eu confundisse italiano com espanhol e argentino, nomes de capitais, movimentos artísticos, datas de revoluções e nomes de queijo, era ele que eu amava, era ele que eu queria. E ele me diria que, mesmo depois de ter conhecido mulheres que conheciam a Europa e não entupiam o ralo com cabelos, mulheres que tinham nascido em bairros nobres e charmosos de São Paulo, ou melhor, do Rio de Janeiro, mulheres que arrumavam a cama e não demoravam tanto para sentir prazer, não entravam de sapato no carpete, não tinham uma blusa ridícula com uma rajada de dourado, não eram dentuças e tampouco testudas, não cantavam tão mal, não tinham medo de cachorros pequenos, não reclamavam do ar-condicionado e nem tinham medo de perder a mãe ou comer uma comida muito temperada, era eu que ele amava, era eu que ele queria. Mas a realidade é que não gostamos desses tipos de filme fraco com final feliz, gostamos dos europeus “cult” onde na maioria das vezes as pessoas sofrem e perdem, assim como aconteceu com a gente.
QUER SABER QUEM ESCREVEU ESSE TEXTO?
Com certeza você já ouviu ou viu algo da Tati Bernardi por aí. Talvez tenha visto uma cena em algum programa na Rede Globo ou tenha lido um texto no perfil de alguém. Seus tem o estilo que toda adolescente gosta, confusão, mistério e muito amor. Tati Bernardi é paulistana e nasceu em abril de 1979. É formada em propaganda e marketing pela Universidade Mackenzie e fez pós graduação em vários cursos especializados de roteiro e cinema. Trabalhou nas melhores agências de propaganda do país durante oito anos e nos últimos dois anos se dedicou basicamente à literatura. Lançou os livros “A mulher que não prestava” e “Tô com vontade de alguma coisa que eu não sei o que é” pela Panda Books e atualmente colabora para revistas da Editora Abril como colunista e escreve programas de televisão para a Rede Globo. www.tatibernardi.com.br ou @tati_bernardi


46 comentários
Uma conversa de leitora para leitora.
Este espaço continua sendo seu também. Comente com carinho e respeito por quem está lendo.
Adoreeeeeeei o texto.
Beijos,
http://carmemrejaneblog.blogspot.com/
Lindo!
Eu amoooo a Tati adoro os textos dela!!!
‘[ .. ] as pessoas sofrem e perdem, assim como aconteceu com a gente.’
É a mais pura verdade , faz a gente refletir sobre um alguém especial que foi embora e que você , simplesmente , não o vê mais e isso acontece devido as escolhas que nos tomamos.E em pensar que as coisas poderiam ter sido tão diferentes se ambos os lados quisessem!
Amei , lindo texto ! =)
Se você soubesse o quando gosto do seu blog … Um do meus sonho seria conhecer você, e ser sua amiga (impossível) ok eu sonho de mais, todos dizem isso! Mas eu te admiro muito mesmo.
No começo eu achava q você era só mais uma no “mundo dos blogs”
não gostava muito de você, até te criticava. Mas ai percebi o quanto errei, nunca parei pra ler seus posts’ ou ver seus vídeos, simplesmente falava q tudo não passava de textos idiotas. Até que me bateu um arrependimento sabe? de falar tão mal de você antes mesmo de procurar saber um pouco mais sobre o seu “robe” se é assim q posso chamar! Decidi ler um dos seus textos de amor, e adivinha… me apaixonei, parecia que era o que estava faltando para complementar a minha vida! E agora… rã agora, não vivo mais sem eles! Me apaixonei profundamente. E aprendi a não julgar as pessoas sem antes conhece-las! Mil beijos do fundo do meu coração…Mariana!
Ai, que comentário lindo Mari. Adorei saber que você mudou sua opinião sobre mim e sobre o blog <3
Continue entrando sempre aqui tá? E comentando tb =P
Testo maravilhosoo ! http://doceestampa.blogspot.com
@Nathália Lima, Não se escreve “Testo” e sim “Texto”!
Beijos
@Mariana, KKKKKKK o pior é que eu sei disso, pura distração !
Perfeito, muito lindo…
beijos!
Que texto lindo, agora fiquei com vontade de ler algum livro dela!
olha não sei se vai ler isso mas de tanto me inspirar em você acabei criando coragem e criei um blog gostaria muito que você fosse me visitar e deixe um comentário que ficaria muito agradecida somo duas mineirinha blogueiras te dolo beijo
Que lindinho!!!!!
Amoooo os textos da tati bernardi, são muito bons. E teu blog então, adoroo haha sempre vejo, tá de parabéns! beijos
Bruna, tenho vindo aqui todos os days *—* e acho incrível sua capacidade de nos entreter (; cara, amei esse texto, tudo condiz comigo.
Liindo *-* me segue no meu blog tb ?
Bruna, queria uma ajuda sua! Pode me dar dica de lojas que vendem coturno?
Obrigada desde já. Beijos
caveiracute.blogspot.com
Na loja da Lia Line tem Andréia :D http://www.lialine.com.br/
Que texto maravilhoso!
Simplesmente adorei!
bjo
http://feedbackpositivoagora.blogspot.com/
Adoroo seu blog Bruna, e os textos são maravilhosos!
Nossa, amei o texto! Já que tô num momento bem deprê, ler esse texto me fez refletir um pouco.