
Em determinadas relações, ficamos muito mais sufocadas pela ausência do homem que amamos do que pela presença dele. Eu estava quieta, só ouvindo. Éramos eu e mais duas amigas numa mesa de restaurante e uma delas se queixando, pela trigésima vez, do seu namoro caótico, dizendo que não sabia por que ainda estava com aquele seqüelado, etcetera, etcetera. Estava planejando terminar com o cara de novo, e a gente sabia o quanto essa mulher sofria longe dele. Eu estava me divertindo diante desse relato mil vezes já escutado: adoro histórias de amor meio dramáticas. Foi então que a terceira componente da mesa, que é psicanalista, disse a frase definitiva: “Eu, se fosse você, não terminava. Às vezes ficamos mais presas a um amor quando ele termina do que quando nos mantemos na relação”. Tacada de mestre.
A partir daí, começamos a debater essa inquestionável verdade: em determinadas relações, ficamos muito mais sufocadas pela ausência do homem que amamos do que pela presença dele. Creio que vale para ambos os sexos, aliás. Um namoro ou casamento pode ser questionado dia e noite: será que tem futuro? Será que vou segurar a barra de conviver com alguém tão diferente de mim? Será que passaremos a vida assim, às turras? Óbvio que não há respostas para essas perguntas, elas são feitas pelo simples hábito de querer adivinhar o dia de amanhã, mas a verdade é que mesmo sem certificado de garantia, a relação prossegue, pois, além de dúvidas, existe amor e desejo. E isso ameniza tudo.
Os dois estão unidos nesse céu e inferno. Até que um dia, durante uma discussão, um dos dois se altera e termina tudo. Alforria? Nem sempre. Aí é que pode começar a escravidão.Nossa amiga queixosa, a da relação iô-iô, perdia o rumo cada vez que terminava com o namorado. Aí mesmo é que não pensava em outra coisa. Só nele. Não conseguia se desvencilhar, mesmo quando tentava. Todas as suas atitudes ficavam atreladas a esse homem: queria vingar-se dele, ou fugir dele, ou atazaná-lo – cada dia uma decisão, mas todas relacionadas a ele. Só quando reatavam (e sempre reatavam) é que ela descansava um pouco desse stress emocional e se reconciliava com ela mesma.
Eu nunca havia analisado o assunto por esse ângulo. Sempre achei que a sensação de asfixia era derivada de uma união claustrofóbica e a sensação de liberdade só era conquistada com o retorno à solteirice. Mas o amor, de fato, possui artimanhas complexas.
Minha amiga finalmente terminou sua relação tumultuada e hoje está vivendo um casamento mais maduro e sereno. Aquele nosso papo foi há alguns anos, mas nunca mais esqueci dessa inversão de sentimentos que explica tanta angústia e tanta neura. Por que temos urgência de abandonar um amor pelo fato de ele não ser fácil? Quem garante que sem esse amor a vida não será infinitamente mais difícil? Às vezes é melhor uma rendição que nos garanta liberdade do que fugir de um amor que não foi vivido até o fim. Foi isso que nossa amiga psicanalista quis dizer durante o jantar: não antecipe o término do que ainda não acabou, espere a relação chegar até a rapa, e aí sim.
Quer saber quem escreveu esse texto?
Martha Medeiros (Porto Alegre, 20 de agosto de 1961) é uma jornalista e escritora brasileira. Filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros, é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro. Casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas. Estudou no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, tradicional de Porto Alegre, localizado nos arredores do bairro Moinhos de Vento. Formou-se em 1982 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre. Trabalhou em propaganda e publicidade, mas logo se sentiu frustrada com a carreira. Quando seu marido recebeu uma proposta de trabalho no Chile, decidiu que uma mudança de país seria uma ótima oportunidade para dar um tempo na profissão. Esta estada de nove meses no Chile, na qual passou escrevendo poesia, acabou sendo um divisor de águas na sua vida. Quando voltou para Porto Alegre, começou a escrever crônicas para jornal e, a partir daí, sua carreira literária deslanchou.

48 comentários
Uma conversa de leitora para leitora.
Este espaço continua sendo seu também. Comente com carinho e respeito por quem está lendo.
Relacionamento em si é um mistério. O casamento é maravilhoso desde que tenha maturidade para lidar com ele pois o que não vai faltar são momentos ruins, afinal ninguém é cem porcento legal e feliz todos os dias. Existem uma série de problemas e é nessa hora que o Amor fala mais alto, não aquele amor cego, possessivo, mas o sereno, o verdadeiro que vai te fazer enchergar muito além da raiva e da vontade de terminar. ;) É uma odisséia, rs. Beijos!
Suuuuuuuuuuuuper concordo! Estou vivendo isso agora. Terminei com um menino no começo do mês, por estar cheia da nossa relação, que estava nas mesmisse. Ele esperneou, gritou, me ligou, brigou comigo, tuuudo para reatarmos. Mas eu achava que eu estava certa, que quando a paixão cansa e parece não existir mais, é porque tem outra nos esperando. Mentira! Eu estava errada e descobri que não era paixão, era amor mesmo. Estava vivendo o amor da minha vida, e olha, nem sabia. Pois é, hoje choro por ele e odeio o fato de eu me pegar pensando nele, isso inúmeras vezes por dia. Já tentei falar com ele, e agora é ele que não quer falar comigo. Viu como o mundo gira? E eu que o diga, a gente só dá valor quando perde.
nossa, adorei!
E quando você termina um relacionamento maduro e sereno pra entrar um um sem pé nem cabeça? Acho que a minha vida tá todo invertida, preciso da sua luz Bruna!
muuuito minha cara, acabei d eterminar um namoro, mas vejo que é melhor vooltar
sempre leio seu site, br, e confesso que nunca parei pra comentar em nenhum deles (perdão), mas esse… nossa, esse foi um choque pra mim. estou passando por isso agora, estava disposta a terminar o namoro e esse texto me fez refletir sobre a minha escolha. acho que vou dar outra chance pra o meu namoro e enfrentar esse obstaculo junto com meu namorado, essa turbulencia deve ser uma das peças que a vida prega para nos testar. enfim, obrigada por divulgar esse texto da martha medeiros, que por sinal é maravilhosa! estou lendo um livro dela “doidas e santas” e tou amandooo e agora com esse texto… virei fã de carteirinha.
Estou passando por isso terminei um relação por medo dele nao gosta de mim e por algumas atitudes dele. Ele nao entendeu o modo como eu terminei e nao expliquei pra ele ate hoje. E agora isso me atormenta dia e noite, nao sei o que eu faço mais pq eu tento esquecer e nao consigo.
Uau amei o post! muito legal =D
http://fearless-girls.blogspot.com/
Obrigada Martha Medeiros, por escrever esse texto, e obrigada Br por postá-lo quando eu realmente preciso dele.
nhoin
Amo os textos da Martha.
visitem: http://esfriandosentimentos.blogspot.com
Nossa esse texto realmente me incentivou a comentar. Incrível mesmo, estou passando por isso nos últimos três meses ,meu namoro anda numa corda bamba. Esse texto realmente me ajudou, não antecipar o termino do que realmente não acabou é uma boa :D
Adorei!
Beijos&beijos
meu namoro dura tanto tempo por que pesistimos em não terminar por bobagem , só quando for o fim mesmo . e não estamos juntos pelo comodismo ainda há sentimento .
http://www.blogescolhas.tk
Gostei do texto.
Gostei muito do texto, muito mesmo. Acho que você vai gostar muito da Eliane Brum também, colunista da Revista Época. Procura os textos dela… são excelentes! (Eu tenho um preferido que se chama: “Meu filho, você não merece nada”)
Beijos!!!
gente, AMEI a indicação <3
amei o texto.. apesar de não ter uma relação a trancos e barrancos (pelo contrário, temos uma ótima relação com muita maturidade e amizade) meu namorado mora longe e a distância as vezes nos entristece mas temos a plena certeza de que estamos somos muito melhores juntos (sim, juntos na distância, discrepância do destino como ja dizia a musica rsrs)
post lindo ;)
EE Martha Medeiros sempre me impressionando x3
Estou vivendo exatamente isso! Estou deixando o relacionamento chegar até a rapa… mas é dificil estar vivendo tudo isso!
Aiai…sábias palavras!
Li o comentário de uma pessoa que disse ter terminado uma relação e depois que percebeu q era amor, tentou voltar mas o moço não aceitou! Amiga, passei exatamente pela mesma situação…igualzinha sabe, fiz de tudo até que conseguimos nos “reconciliar”. Mas foi um dos períodos mais infernais da minha vida, as vezes o que agente quer não é o melhor pra gente, mas estamos tão presos emocionalmente que não enxergamos…pra mim ele era tão perfeito! depois se tornou uma pessoa ruim. Sofria com ele e tbm longe dele, mas um ponto foi crucial, eu me apaixonei não pela aparencia dele, mas sim pelo jeito carinhoso e amigo, no final das contas percebi que tudo que ele me fez, mostra que ele já não era mais tudo isso. Pulei fora e sofri demaissss…o importante é aceitar esse período, tipo luto, chorar o tempo que for necessário, só assim viramos mais essa página….qta coisa né? momento terapia…rs bjs
texto lindoo
http://analianarodrigues.blogspot.com
Sinceramente… Fiquei abismada com este texto e como o conteúdo que ele passa é verdadeiro, se for parar para analisar bem ele faz todo o sentido e só de lê-lo faz uma diferença enorme na vida de muitas pessoas. Amei !
Lindo esse texto, super me identifiquei.
como alguém pode resumir o que nós sentimos em uma unica frase? a gente só dá valor quando a gente perde…
http://saiadeflorbm.blogspot.com
Nossa super massa, adoro os textos dela, super me identifico!Amei
adorei o texto.. concordo plenamente..
as vezes agente termina um relacionamento achando que vai ser melhor e depois percebe que aquilo era tudo de bom que agente tinha e perdemos.. nos fechamos pro mundo e começamos a viver em função da outra pessoa e o pior: ela nem sabe!
E é nessa hora que temos que abrir o ? e deixar que outras pessoas entrem nele e talvez nos façam embarcar em outro amor ou então a vida será sempre um suplício voluntario!
Nossa, falou tudo :O
cheguei a me arrepiar, pq é bem assim que acontece mesmo