O primeiro dia

24 de fevereiro de 2015
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Na virada de ano eu fechei meus olhos e enquanto os fogos barulhentos iluminavam o céu, fiz um único desejo. Não pedi dinheiro, não pedi viagem e também não pedi sucesso. Pedi uma boa companhia pra estar ao meu lado enquanto batalho e conquisto aos pouquinhos cada uma dessas coisas. Não pedi um amor pra exibir e provar pra todo mundo que eu ainda tenho um coração. Pedi alguém que fizesse minhas músicas preferidas terem um pouquinho mais de sentido quando as escuto antes de dormir.

Não pedi um amor pesado que me fizesse entrar num labirinto como da última vez. Não queria matéria prima para o meu trabalho, muito pelo contrário, queria alguém que me fizesse esquecer dele durante alguns dias da semana. Pedi um novo personagem pra minha história, sabe? Um novo capítulo com novos aromas, risadas e erros. Alguém realmente interessado no que sou, não no que posso vir a proporcionar. Nem tão superficial, nem tão profundo assim. Nem tão experiente, nem tão imaturo. Um cara com boas histórias, mas sem um passado que me deixe meio invisível na maior parte do tempo.

Desejei alguém pra mandar aqueles vídeos fofos de cachorro que encontro na internet ou sei lá, mostrar o quanto minha filhote cresce a cada dia. Alguém que enxergasse a vida de um jeito meio parecido que o meu ou alguém que me fizesse mudar completamente de ideia. Alguém pra odiar o verão comigo e fazer a tradicional contagem regressiva pro inverno chegar.

Todos ainda estavam gritando e se abraçando quando abri os olhos pela primeira vez em 2015. Era ótimo estar perto dos meus amigos, mas confesso que senti uma pontadinha de angústia quase sufocante. Olhei pra fora para tentar disfarçar e pensar em outras coisas. A vista da sacada continuava tão linda quanto no ano anterior. Prédios bem espremidinhos para caber todas as pessoas que assim como eu decidiram em algum momento da vida que viver aqui era a melhor opção. Provavelmente a maioria delas vive se questionando se foi ou não uma boa ideia.

Seria legal se elas se encontrassem.

Foi o que pensei quando entrei no táxi e olhei as ruas desertas que iam sumindo a cada esquina. São Paulo sem as pessoas não parece São Paulo. São os momentos compartilhados por ali é que vão dando cor, textura e beleza aos bairros. Mesmo depois de tanto tempo, cada um deles é especial por motivos diferentes. Até o que escolhi viver. O caminho de sempre, o museu e as árvores, me fez perceber o quanto apesar de tudo, aquele lugar havia se tornado familiar pra mim. No final das contas era bom estar ali. Eu precisava mesmo entender e viver um bocado de coisa antes de estar realmente pronta de novo.