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Um dia como autora na Bienal

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O despertador tocou às 07:55. Cochilei no sofá porque havia uma montanha gigante de roupas em cima da cama – eu nunca sei como consigo chegar a esse ponto. Levantei num pulo, tomei um banho rápido com água fria (porque ainda não tive tempo de resolver aquele problema no aquecedor) e vesti a roupa que deixei separada no cantinho da mesa branca de madeira. Pensei em tomar café da manhã, mas ao abrir a geladeira percebi que o leite de caixinha estava estragado e só restava a embalagem vazia do pão de forma. Sem problemas. Decidi ir mais cedo pra comer alguma coisa antes de embarcar. A mala já estava fechada perto da porta e eu só precisava pedir o táxi, que finalmente me levaria até o aeroporto. Verifiquei mais uma vez se meu RG estava na bolsa e apertei o botão para chamar o elevador. Espelho. Eu estava de coque, com muito sono e sem maquiagem. Ainda bem que o óculos escuro era enorme e se eu encontrasse alguém no caminho, não teria problemas em tirar foto. Não sou nenhuma celebridade, mas vez ou outra encontro com uma leitora na rua e como hoje em dia todo mundo tem um aparelho celular com câmera, as fotos são obrigatórias. Adoro ter esse contato com as meninas, mas o problema são os comentários que as pessoas deixam depois nas redes sociais, né? Bruna sem maquiagem. Bla. Bla. Bla. Bruna, uma garota normal, eu, com fome, Congonhas moço, por favor.

Gosto de aeroportos. Eles são melancólicos e inspiradores, principalmente quando você está sozinha e ouvindo alguma música do Radiohead. Meu estômago estava doendo quando o moço entregou o bilhete e disse o número do meu portão em voz alta . De fome, óbvio, mas também de ansiedade. Eu demorei um tempão pra assumir que estava ansiosa pra bienal. É que eu não gosto de criar expectativas, sabe? Prefiro fingir que é só mais um dia normal aí, se tudo der errado, eu não vou precisar chorar e me lamentar. Era um dia normal, como o do cara de terno e gravata que passou por mim e não disfarçou ao olhar pro meu quadril. Um dia normal, como o da moça que estava comprando o livro “Por que os Homens Amam as Mulheres Poderosas?” na livraria do aeroporto. Um dia normal, como o da garota que dormia de um jeito fofo no colo do provável namorado.

Droga. Nessa hora eu me senti um pouquinho só. Não, eu me senti sozinha. No diminutivo, para parecer menos dolorido. Eu estava no meu canto, com um fone no ouvido e lendo o novo livro da Martha Medeiros. Olhava atentamente para o painel digital, mas não pude deixar de pensar em como as coisas seriam diferentes se eu tivesse alguém legal pra compartilhar aquele momento comigo. Minha mãe estava em Minas e como teria que ir para São Paulo na semana seguinte cuidar de uns problemas de saúde, não conseguiria ir a Bienal no Rio. Meu pai tinha serviço pra entregar e não gosta muito de viajar. Meu irmão tava sem grana e minha tia-avó já não tem mais idade pra fazer Leopoldina-Rio sozinha. Não é pra sentir pena de mim, tá? Eles vão no lançamento em Leopoldina e sempre me dão muito apoio. São ótimos em ser da família. Eu só estava me sentindo sozinha porque eu realmente estava sozinha ali, no meio de tanta gente desconhecida, mas isso não é necessariamente ruim. Também não era novo. Desde que sai de casa essa sensação de estar vivendo no mundo dos adultos tem me feito companhia. É uma mistura de sentimentos e sensações muito louca, mas que no final das contas fazem a coisa toda fazer sentido: liberdade, medo, vontade de cantar a música em voz alta, vontade de chorar, vontade de conhecer novas pessoas, felicidade, borboletas no estômago, nó na garganta e por fim, ela, a gastrite nervosa.

Regina Spektor cuidou da minha trilha sonora no caminho até a esteira. Quando finalmente peguei minha pequena mala azul (quase a última a chegar), vi que havia algumas meninas gritando na sala ao lado. Instantes depois recebi mensagem de um amigo que havia acabado de desembarcar no Rio. Ele queria me avisar que o aeroporto estava lotado e havia fãs de uma tal banda esperando os integrantes. Sai de fininho, mas não teve jeito, elas logo me reconheceram. Como eu disse, pediram pra tirar foto e também perguntaram se eu fui no show de São Paulo. Respondi que sim, contei como foi e até mostrei as fotos que tirei. Elas surtaram!

Pã-nam! Minutos depois recebi outra mensagem. Era uma amiga, uma das que mais confio na vida, me chamando pra tomar café da manhã no Jardim Botânico. Calculei o tempo que tinha pra aprontar e chegar na Bienal, não daria tempo, mas como era aniversário dela, acabei aceitando o convite. Mesmo que fosse só pra passar, dar um “oi” e seguir meu caminho. Não deu outra. Assim que chegamos lá, o celular tocou e era uma das funcionárias da editora. Ela queria saber se eu já estava pronta pra Bienal. Coque. Sem maquiagem. Hotel bem longe de onde eu estava. Hunf. Expliquei que  ainda estava esperando uma mesa pra tomar café da manhã e pela urgência, percebi que não daria mesmo tempo de ficar ali por mais tempo. Me despedi das meninas, desejei feliz aniversário pra minha amiga mais uma vez e entrei em outro táxi. Um amarelinho.

Eu estava me ajeitando no banco e tentando achar o endereço do hotel na minha caixa de e-mails (também muitíssimo bagunçada) quando o taxista sorriu e disse: “Pra onde vamos, mocinha?”. Meu coração acelerou porque ele tinha os mesmos traços de um tio muito querido que faleceu quando eu ainda era criança. O Tio Wilian. Eu devo ter ficado em silêncio por alguns segundos, pois ele repetiu a pergunta ainda com um sorriso no rosto. Típico dos cariocas. Me concentrei na tarefa de encontrar o tal endereço (eu sabia que o hotel ficava em um condomínio na Barra). Ufa! Disse em voz alta o que estava escrito na tela do meu celular e lá fomos nós.

Desde que fui morar em cidade grande me tornei meio dependente de táxi. Lá em Leopoldina eu podia contar no dedo as vezes que precisei pedir táxi no ano, mas em São Paulo ou em qualquer outra viagem que vou a trabalho, isso acontece frequentemente. Tenho várias histórias pra contar sobre taxistas engraçadões, simpáticos, sinceros, religiosos, intrometidos, cantores, e agora, que são a cara do meu tio Wilian.

O tal taxista não sabia exatamente onde ficava o hotel, mas disse que iria para o bairro e lá pediria informação para alguém. Quando você não sabe nada sobre o caminho, só te resta aceitar as condições do cara, né? Nem o Google Maps fazia ideia de onde era aquele tal endereço. Já vi vários amigos falando que os táxistas cariocas costumam enganar turistas, mas aquele era a cara do meu tio, ele não faria aquilo comigo, certo? Hua hua.

Ficamos quase o trajeto todo em silêncio, mas em algum momento reparei nas minhas unhas e me dei conta de que havia esquecido de fazê-las (pintar, tirar cutícula, essas coisas de menininha!). Fueeeim. Sou uma péssima blogueira, né? Considerando que as meninas na sessão de autógrafos reparam bastante nas minhas mãos, ficar com a unha naquele estado seria vergonhoso. Decidi pedir para que nós parássemos em alguma farmácia.

Por algum motivo ele esqueceu disso e só parou em um posto de gasolina pra pedir informação. Ninguém sabia que hotel era aquele ou para que lado ficava aquela rua. Fomos para outro posto e lá, um dos clientes que estava em um carro bacanerrimo, sabia e explicou pra gente. Quero dizer, pro taxista. Eu não entendi nada do que ele falou. No segundo seguinte já havia embaralhado tudo na minha cabeça. Esquerda. Direita. Atravessa a avenida tal. Minutos antes o taxista parecia preocupado por estar tão perdido, pedia desculpas a cada dois minutos, quando o cara deu as coordenadas ele vibrou tanto que eu até achei fofinho. Sorrindo ele se parecia ainda mais com meu tio.

Entrei no hotel correndo pois já estava atrasada e quando cheguei na recepção, dei de cara com um funcionário que simplesmente era a cara do Leonard de The Big Bang Theory. Eu juro! Queria ter tirado uma foto pra compartilhar com o pessoal ou ter alguém lá comigo pra comentar e constatar que nós temos um Johnny Galecki aqui no Brasil também. No minuto seguinte mudei de ideia. O cara era lerdo, leeeerdo, leeeeerdo e ainda me soltou a bomba: você só pode fazer check-in depois das 14:00. Nesse mesmo horário eu já deveria estar lá na Bienal. Murphy, porque faz isso?

Liguei pro pessoal da editora e eles resolveram o problema (mas antes disso eu tive vontade de matar o Leonard brasileiro 32423423432 vezes). Entrei no quarto, liguei o chuveiro e joguei as roupas em cima da cama – eu já falei que amo camas de hotel? Passei maquiagem (batom vermelho, delineador, etc), pedi um misto quente no restaurante do hotel e por último, coloquei minha caneta da sorte dentro da bolsa (na verdade, minha letra fica bonita com ela!).

O taxista que me levou até a bienal era bastante simpático. Expliquei que estava atrasada e ele disse que faria o possível pra chegar a tempo. 15 minutos de atraso que viraram 30, pois é óbvio que eu me perdi lá no Riocentro. Que lugar gigante, minha gente. É pavilhão tal, portão tal, acesso tal e eu lá, querendo chorar pois não conseguia encontrar ninguém conhecido. Também queria chorar por não ter tempo de andar com calma e xeretar em todas aquelas montanhas de livros. Ô, maldade.

Quando finalmente me encontraram (Tati, te amo!), caminhamos até o estande da Capricho onde fiquei tirando fotos com algumas leitoras. Depois, às 16h, me juntei ao pessoal da Editora Gutenberg pra lançar oficialmente o romance “De Volta Aos Quinze”. Havia muuuuitos leitores me esperando e uma hora depois da sessão de autógrafos começar, o livro simplesmente e-s-g-o-t-o-u. O número limite de senhas foi distribuído e eu fiquei lá, abraçando, beijando e assinando até mais ou menos 20h. Recebi cartinhas, declarações de amor e até uma caixa customizada com minhas bandas preferidas + um monte de guloseimas. Meninas e meninos de todas as idades, estilo e classes sociais. Pessoas que ficaram três horas na fila pra me dar um abraço apertado e trocar algumas palavrinhas. Papais e mamães que saíram de casa (alguns até de estado) só pra fazer o filho mais feliz. Imaginar que eu, euzinha, era o motivo de tantos sorrisos e até algumas lágrimas fez meu coração bater mais rápido. Em uma velocidade que pouquíssimas vezes ele conseguiu.

Não tinha mais como me enganar: era amor. Estava – e estou – perdidamente apaixonada pelo que faço.

Obs1: dia 07 tô na Bienal de novo, viu? Mais detalhes aqui.

Obs2: Pra comprar o livro pela internet é só clicar aqui.

Obs3: Dei uma entrevista especial pra Capricho e disponibilizei um capítulo inteirinho do novo livro.

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O dia em que eu me apaixonei pela liberdade

Na aula de história me ensinaram o significado da palavra liberdade. Talvez até tenha caído em alguma prova do ensino fundamental. Anos depois, durante as aulas semanais de filosofia, um professor me contou o que Descartes, Leibniz e Karl Marx pensavam a respeito. Quase todos os meus amigos achavam um saco tanta teoria, e confesso, às vezes, eu também.

Algumas coisas que nos contam na escola só começam a fazer sentido quando damos o primeiro passo em direção ao mundo dos adultos. Essa perspectiva mais real da vida, que a gente tem principalmente quando não pode mais passar os maiores problemas para os nossos pais, é a primeira batalha da guerra interna que se inicia dentro da gente e, levando em consideração os papos que tenho com minha vó, dura nada mais nada menos que toda a nossa existência. Vocês vão me achar louca por fazer essa analogia e comparar grandes conflitos da história com os pequenos aborrecimentos do cotidiano, mas sabe o que eu andei reparando? Tudo gira em torno da mesma coisa: a independência. Seja de uma nação, uma família ou o pobre coitado do nosso coração.

Vishhhh!

Confesso que as coisas ainda são meio confusas para mim. É que não faz tanto tempo que eu sai de casa, né? Digamos que eu ainda esteja aprendendo a lidar com esse silêncio todo e a rotina de trabalho (graças a Deus) não tenha me deixado pensar naquelas coisas ruins que normalmente fazem a gente olhar pra trás. Tenho a sorte de ter uma família incrível que sempre me apoiou e talvez, também de ter nascido tão longe daqui, no interior e ainda em outro estado. Como assim? É que a minha segunda opção nunca teve a menor chance com essa cidade.

São Paulo é o cenário dos sonhos de qualquer garota que tenha grandes planos. Só que quando você muda pra cá, percebe que a vida longe da sua antiga realidade não é exatamente o que você tinha imaginado. Quero dizer, as festas incríveis acontecem, os shows internacionais também, mas isso não quer dizer que você vai (querer) fazer parte disso, sabe? Às vezes falta grana, às vezes falta é vontade de sair de casa depois de uma semana exaustiva de estágio, faculdade, trabalho, etc. As pessoas aqui estão sempre muito ocupadas e eu estou me colocando nesse grupo. Tive conversas sobre esse assunto com pessoas de diferentes idades e realidades, e adivinhem? Acontece com todo mundo.

Todos nós estamos olhando para esse mesmo pôr-do sol laranja no final do dia enquanto respiramos o ar poluído, para quem não sabe, motivo da vista ser tão bonita assim. Estamos escutando nossas músicas preferidas no fone de ouvido com o pensamento longe enquanto não chega a estação certa do metrô ou o semáforo abre. Estamos reclamando mentalmente do trânsito e desejando que amanhã faça menos frio que hoje.

E você achava que era totalmente diferente das pessoas que atravessam a rua diariamente com você, né? Risos. Eu também. Aí num belo dia, durante uma conversa sem tanta pretensão, descobri que todos nós parecemos muito por dentro e que o que nos diferencia é a maneira que mostramos isso para o mundo. Somos livres para mostrar o que quisermos e como quisermos. Essa liberdade que as outras gerações tanto lutaram é linda e é um dos motivos por eu continuar amando viver aqui.

Independência é o poder de escolha, meus caros. Ter a liberdade de ir e vir, escrever e cantar, levando em consideração nossas próprias vontades. Às vezes isso parece muito com solidão, eu sei, mas gosto de pensar que tem mais a ver com honestidade: estar onde a gente realmente quer estar.

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Playlist: 100 músicas nacionais que eu adoro!

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Vocês já repararam que minhas playlists quase sempre são compostas por músicas internacionais, né? Depois que uma leitora me questionou sobre isso lá no facebook, resolvi encarar a pergunta como um desafio e selecionei 100 músicas de artistas brasileiros que marcaram minha vida lá no Rdio. Como somos praticamente da mesma geração (me sentindo velha agora! hehe), acho que vocês vão gostar e lembrar de muita coisa dando o play.

Esqueci de alguma? Comenta aí!

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O que eu quero ser quando crescer?

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O ambiente já era velho conhecido, amigo do peito praticamente. Uma sala de aula, dezenas de mesas dispostas em fileiras separadas e cadeiras desconfortáveis. Em uma lousa preta, as velhas informações que eu já estava cansada de saber: horário em que poderia entregar o gabarito e horário do fim da prova. Mas na minha cabeça, antes mesmo que me entregassem as folhas de teste, só tinha uma dúvida: e aí, é isso mesmo?

Eis uma pergunta que me fiz pelo menos um trilhão de vezes antes de decidir qual seria meu grande chute final. Publicitária, jornalista, advogada, atriz, veterinária? Não é que eu não fizesse a mínima ideia de qual profissão eu iria seguir, acontece que havia pelo menos uma dezena de profissões que eu achava atraente e nas quais me via trabalhando. Aí batia aquela incerteza chata: é isso o que eu quero fazer para o resto da vida? E a coisa desandava. Travava total.

Com 16 ou 17 anos, você pouco sabe o que quer da vida. A minha vida, pelo menos, havia se resumido até então a: escola, alguns cursos paralelos, trabalhos temporários e minha família. Para falar bem a verdade, a maioria de nós pouco tem ideia de como é o mundão lá fora, aquele real, de gente grande, salários e contas para pagar. No entanto, a pergunta que mais ouvimos durante todos os anos até aqui é uma só: o que você quer ser quando crescer?

Eu “cresci” e continuo sem saber o que eu quero ser. A profissão eu escolhi, aos 45 do segundo tempo. Já estou na fase final, com sensação de que a escolha foi certa. Mas decidi assim: de supetão. Podendo errar feio e ter que voltar atrás e dizer que fui pelo caminho errado. E ok, né? Quem é que não erra a esquina e precisa procurar o retorno ao menos uma vez na vida?

De vez em quando ainda me bate aquela dúvida: “e aí, é isso mesmo?”. Já me desesperei mais pelas minhas incertezas. Hoje, apenas penso que tudo bem. Tudo bem continuar me questionando aos 21. Tudo bem me questionar aos 25. E se eu ainda tiver dúvidas aos 40, que mal tem? O Pedro Bial disse em uma música, que você já deve ter ouvido por aí, que as pessoas mais interessantes que ele conhece não sabiam, aos 22, o que queriam da vida; e muitos dos quarentões que conhece continuam sem saber.

Talvez eu seja louca de achar isso sensacional. A vida dá a chance de a gente se reinventar a qualquer hora. E depois que eu cresci, foi isso o que reparei: ter certezas imutáveis na vida não faz de ninguém mais feliz. Feliz mesmo nessa vida é quem tem a leveza e a coragem de se transformar, mudar de opinião, voltar atrás e correr em busca de novos sonhos. Porque a vida só se torna imutável de verdade quando ela acaba. E curta ou longa, enquanto não acaba, tem muita coisa pra rolar.

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