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Tomara que seja amor

SEJA-AMOR

Tomara que ela saiba o que fazer quando você contar uma de suas piadas sem-graça. E que ela não te frustre ao dizer que você deveria parar de tentar ser engraçado. Tomara que ela veja que as covinhas na sua bochecha enquanto você fala fazem tudo valer a pena. Até a falta de riso. Tomara que ela veja isso.

Tomara que ela entenda seus ciúmes quietos. Sua mania de fechar a cara e fazer bico, mas não admitir por nada que o problema é o colega de trabalho que liga demais. Tomara que ela encontre as partes do seu corpo que mudam seu humor. E que descubra que um carinho na sua orelha faz desaparecer qualquer braveza.

Tomara que ela saiba fazer uma massagem melhor do que aquela que eu fazia. Que te abrace sempre que der. E que vá tarde da noite para a sua casa quando você ligar dizendo que está com saudade. Tomara que ela descubra logo como você gosta de surpresas. E como ama ser surpreendido em madrugadas vazias.

Tomara que ela entenda suas tristezas. E que ela saiba te deixar chorar saudades que você nunca vai superar. Tomara que ela entenda seus dias de mau humor, suas vontades repentinas de não sair e seus silêncios angustiantes sentindo falta das partes de si que foram e não voltam. Tomara que ela não fique sabendo que uma parte de ti ainda me ama.

Tomara que ela goste das suas comidas. Que não faça o tipo “modelete” que não come nada para manter o corpinho. Tomara que ela entenda que você gosta é de quem se esbalda sem culpa e aproveita a vida. Porque você curte mesmo é ter companhia na sua felicidade e de ter um riso leve ao lado das suas gargalhadas.

Tomara que ela segure sua mão como se não fosse soltar. E que ela saiba que você gosta mesmo é de pessoas que ficam. Porque já está cansado das pessoas que arrumam as malas e vão. Tomara que ela não desista. Que vocês não briguem tanto. E que tenham o suficiente para continuar juntos. Tomara que ela não seja como eu.

Tomara que as diferenças não sejam tantas. Tomara que vocês não batam tanto de frente. E que consigam ficar juntos para sempre. Tomara que ela te faça feliz e tomara que você saiba fazê-la feliz como me fazia também. E, de tudo o que eu te desejo na vida, isso é o mais importante: tomara, de verdade, que seja amor. Um pouquinho, um terço sequer do que era com a gente. Tomara que reconstrua as partes quebradas do seu coração. Porque, aí então, eu dormirei tranquila ao saber, amor, que te entreguei em boas mãos.

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O valor das coisas

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Durante o último mês estive em alguns estados para lançar o meu segundo livro. Gosto de viajar e conhecer lugares novos, mas quando vou a trabalho, é sempre muito corrido e exaustivo. Principalmente porque fico ansiosa na véspera e não consigo dormir direito. Tenho a péssima mania de deixar tudo pra última hora e acabo só fazendo as malas durante a madrugada que antecede o embarque. É óbvio que isso sempre me faz deixar algo importante pra trás ou levar coisas sem necessidade alguma. Por exemplo, da última vez, levei meu óculos de sol preferido na bolsa. Assim, sem querer. Por que isso é um problema? Não notei que ele estava lá e coloquei um monte de coisas junto. Resultado? Sim, ele quebrou de um jeito que não dá pra consertar. Meleca!

É só um óculos, eu sei, mas fiquei chateada pois aquele era o único modelo que combinava com qualquer look e escondia milhas olheiras nas manhãs de domingo quando vou almoçar sozinha no shopping, por isso mesmo ele nunca saia da minha bolsa. Um óculos baratinho, comprado por poucos dólares em alguma fast fashion gringa, que infelizmente já deve até ter saído de linha. Na hora fiquei com raiva de mim, por ser tão descuidada e atrapalhada. Não é a primeira vez que isso acontece, sabe? Semana passada quebrei sem querer meu anel da sorte. Ele era em forma de uma borboleta, que coitada, acabou ficando sem asas quando acidentalmente caiu do vigésimo andar. Mais uma vez, admito, a culpa foi toda minha.

Pode parecer besteira, mas tudo isso me fez pensar no valor e na importância que dou para certas coisas na minha vida. É uma analogia besta, mas acho que não acontece só comigo. Quando algo que gostamos está sempre a nossa disposição, acabamos nos acostumando com isso e por comodidade, esquecemos de demonstrar o quanto aquilo é importante e tomar o cuidado necessário. A desvantagem de ser assim, tão distraída, é que só nos damos conta, quando nos damos conta, que algo era importante no momento em que o perdemos de vez. Isso vale para objetos, mas também para momentos e pessoas importantes.

Sabe aquela história clichê em que a garota só se da conta do quanto o amigo é especial quando ele se apaixona por outra garota do colégio? Ou quando ela para de investir em um relacionamento porque o cara já está apaixonado e semanas depois ele aparece dizendo que quer terminar ou dar um tempo? É sempre assim. Não existem garantias ou promessas que durem pra sempre. Precisamos continuar lutando por aquilo que acreditamos. Já dizia o pequeno príncipe, “somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos”.

Pare pra pensar um pouquinho e sempre que der, se coloque no lugar do outro. A vida de todo mundo tem sido corrida, cheia de problemas e neuras que ninguém entenderia, mas ainda vale a pena valorizar e separar um tempo para o que realmente nos faz feliz – e não apenas aquilo que achamos que nos faz ou um diz nos fez. Um objeto, um diálogo ou uma atitude que surpreenda. Para quem realmente se importa, os pequenos detalhes fazem toda diferença.

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Os alguéns que eu encontrei

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“Está na hora de você encontrar alguém!”. Essa frase poderia ser facilmente endereçada a mim, em algum almoço de família qualquer. Ou até mesmo vinda de alguma amiga preocupada demais com a minha “eterna solteirice”. Dessa vez, no entanto, ouvi a frase no metrô, entre uma conversa de duas amigas que não deveriam ter mais do que 14 anos. Eu ri, porque se estava na hora daquela menina de 14 anos encontrar alguém, eu nem consigo imaginar o que sua amiga diria para mim, uma garota de 21 que não tem um namorado.

Depois, enquanto eu caminhava para o meu trabalho, comecei a pensar quantas mil vezes já ouvi alguém dizendo que eu deveria encontrar alguém. Provavelmente, ouvi essa ladainha aos 14, ou até antes. Mais tarde, então, a frase deve ter sido repetida pelo menos um milhão de vezes. Já fiz o tipo que ligava, já fiz o estilo que não estava nem aí. Dependendo do meu momento, doía ou só me fazia rir. Mas uma coisa é verdade: a gente sofre uma pressão desesperadora para namorar.

Eu já encontrei alguém. Eu já achei que era o cara certo, já achei que era o cara errado e decidi apostar mesmo assim, já achei que era amor e não era – nem da minha parte. Eu esbarrei com grandes amigos, grandes amores platônicos e casinhos que foram sendo escritos na minha história, que depois descobri que nem tinham tanta importância. Eu encontrei “alguéns”. O menino que era meu melhor amigo e foi embora; aquele que se apaixonou por mim, mas que eu não me apaixonei de volta; o cara que apareceu e me fez sentir coisas que eu não deveria sentir por ele. E aí, depois de todos esses alguéns, eu descobri que eu simplesmente estava procurando o alguém errado.

Não que eu queira dizer que todo mundo deva adotar a solteirice como modelo perfeito de vida. Quero dizer totalmente o contrário: modelos perfeitos de vida não existem. Não é só porque você namora e é feliz com isso que sua amiga solteira só será feliz namorando também. Namorar é legal, é ok e pode fazer crescermos muito. Aprender a lidar com o outro é uma das coisas mais bacanas da vida. Mas ficar sozinho, se olhar no espelho sem se desesperar e aprender a lidar com si mesmo, para mim pelo menos, é o verdadeiro sinal de que a maturidade está chegando.

Se eu pudesse voltar naquele vagão do metrô, talvez eu dissesse para aquelas meninas que elas realmente deveriam lutar para encontrar alguém. Deveriam tentar descobrir do que esse alguém gosta, o que esse alguém quer fazer, aonde esse alguém quer chegar. Eu diria para elas, talvez, que quando elas se conhecessem de verdade, as coisas seriam bem mais fáceis e leves. Talvez, se eu voltasse no tempo, eu dissesse simplesmente: “É, está na hora de encontrar alguém…e esse alguém é você mesmo.” Porque quando a gente se encontra, os alguéns que esbarram no nosso caminho se tornam uns baitas de uns sortudos. E a gente tem uma sorte enorme também.

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Você estava errado

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Certa vez me disseram que eu sou muito fechada. Era alguém importante e que me conhecia bastante, como pouquíssimas pessoas no mundo, eu diria, então considerei o comentário e coloquei na cabeça que eu precisava dar mais espaço para as pessoas na minha vida. Não estou falando profissionalmente, porque existe essa diferença pra mim. Dar mais espaço significava confiar. Contar meus medos e segredos. Ser um pouco menos durona. Baixar a guarda, mesmo que só nos finais de semana e dias de sol. Me tornar assim, um pouquinho vulnerável. Correr o risco de quebrar a cara depois. Oh, céus, quem me fez usar esse escudo?

A independência, talvez.

Demorei um tempinho pra admitir que eu era uma dessas pessoas que vivem dentro da bolha. Porque eu dedico tanto do meu tempo ao trabalho, que graças a Deus é algo que me dá muito orgulho e prazer, que nem consegui notar que estava me afastando das outras pessoas. Fisicamente isso já havia acontecido, pois eu estava em São Paulo há algum tempo. Convenhamos, quando não existe convivência é tão mais difícil manter o contato e ter assunto diariamente. Minha vida se resumia ao trabalho e eu nunca gostei de ficar falando sobre isso com os meus amigos mais próximos que me conheceram antes disso começar. Tinha medo de parecer estar me gabando, sabe? Contentava-me em contar as boas novas para minha família e pronto. Pro resto, quando perguntavam, dizia o básico e pulava logo para a próxima pauta.

Por ironia do destino, justamente a pessoa que me cobrou mais humanidade, agiu pelas costas de forma covarde e quando achei que estava perto da cura, me peguei trancando todas as portas mais uma vez e colocando o fone de ouvido no último volume só pra fugir da realidade e das mentiras desse mundo que definitivamente não é o meu. Eu não queria mais tentar me misturar. Ora bolas, meu coração não é de plástico. Ele não desmonta como me convém.

Em silêncio, do outro lado da cidade, segui meu caminho. Não foi tão difícil assim. Fiz como das últimas vezes. Escrevi durante madrugadas inteiras e canalizei boa parte dos piores sentimentos. Ocupei minha cabeça e logo o meu coração deixou de besteira e também entrou no ritmo. Decepções em geral nos fazem pensar sobre a maneira que levamos a vida. Principalmente quando estamos sozinhos. As músicas ganham outro significado. O pôr-do-sol e a chuva também. Penso que quando não temos alguém pra agradar, nos resta agradar a nós mesmos. E pra mim, amiguinhos, essa foi uma das tarefas mais complicada.

Como eu poderia saber quem sou eu nesse mundo sem ao menos vivenciá-lo um pouquinho? Sou uma ótima observadora, mas nesse ponto da história, precisei tirar os dedos do teclado e vestir o meu melhor vestido. Foi exatamente assim que me libertei, aos pouquinhos. Comecei aceitando convites e dizendo besteiras sobre o que eu achava que sabia sobre sentimentos. Sem nem me importar com o que iriam pensar depois. As pessoas já falavam sem saber de qualquer maneira. Que tivessem então um motivo pra me achar idiota.

O que uma garota de 19 anos pode saber sobre a vida? M* nenhuma, eu diria.

O universo fez questão de me dar os sinais, de um jeito até gentil, pois perdi a conta dos sorrisos e posso contar no dedo as lágrimas que deixei escapar nesse meio tempo. Não é fácil admitir certas coisas pra nós mesmos, mas ao contrário do que pensei, fica um pouco menos complicado quando mais alguém se importa. Não é tão simples achar alguém que realmente faça isso hoje em dia, mas também não é impossível. Talvez nem todos os amigos só estejam interessados em favores. Existem pessoas que pensam como eu. E melhor, existem pessoas que agem como dizem. E elas andaram me ensinando um bocado de coisa.

Você estava errado. Todos nós vivemos dentro de uma bolha e nem sempre podemos controlar a direção do vento, mas a maneira que enxergamos o trajeto e quem escolhemos para estar ao nosso lado, isso sim, é uma tarefa completamente nossa. São atitudes, palavras, valores e um monte de coisas que a gente só descobre o verdadeiro valor quando aprende a ser leve.

E assim, acredito eu, vamos longe.

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