5 coisas que percebi quando fui morar sozinha
27/05/2013


01. Porta-retratos - Nunca entendi porque as pessoas gostavam tanto de dar porta-retratos em aniversários. Acho que principalmente os adultos, né? Há alguns anos, quando abria um embrulho e me dava conta de que era um deles, dava três beijinhos na tia, agradecia e colocava em qualquer lugar. Hum. Não gostava mesmo. Agora, me dei conta, as coisas mudaram. Nessas últimos andanças pelo shopping em busca de móveis e coisas que estão faltando para o apartamento, me peguei na parte de decoração, com um ou dois deles na mão. Ok, na verdade, comprei três e, pasmem, passei horas olhando a caixa de fotografias e escolhendo qual delas ficaria exposta na estante do sala. Ah, que bonitinha. Tão dona de casa. Não exagera, vai!

Li algo esses dias sobre como a gente muda quando envelhece. Não na aparência, porque né, isso acontece com todo mundo (menos com a Avril Lavigne) e é inevitável. Era sobre como as coisas que nos nos fazem feliz mudam de acordo com o tempo. Isso sim, meus amigos, é amadurecer.

02. Cabelos por toda a parte – Meu cabelo cai para caramba. E eu só me dei conta disso porque o azulejo do banheiro novo é branco e agora só eu ando pela casa, não tem como culpar ninguém. Ok. Tudo bem. Talvez nem seja tanto assim ao ponto de precisar de um tratamento. Coloquei esse item aqui porque fiquei realmente assustada com a quantidade de cabelo que aparece na hora de varrer os cômodos. Deve ser o estresse ou a ansiedade. Sou dessas.

03. Solidão – Eu sempre gostei de ficar sozinha. Com o computador, com meus livros e músicas, enfim, com os meus pensamentos. Não sou do tipo que tem muitos amigos, sabe? Conheço todo mundo, me dou bem com a galera no geral, mas no final das contas, em uma sexta qualquer, o que eu quero mesmo é paz. Passei um tempão achando que isso era defeito. Aquelas doenças de quem não gosta de conviver com os outros. Aí parei de ser tão crítica comigo mesma e percebi que é só uma fase. De introspeção e autoconhecimento. Sem julgamentos dessa vez. Não eram as pessoas erradas, na real, nem acho que existam pessoas erradas, era só eu precisando de um tempinho para me acostumar com o mundo. O que mudou quando fui morar só? É que agora eu tenho mais espaço para isso.

04. Só duas frutas, senhorita! – É o seguinte: odeio ir no mercado sozinha. Explico: quando eu ainda morava em Leopoldina, ia mensalmente com a minha mãe. Era o nosso momento amiguinha. Falávamos sobre os garotos do colégio, a rebeldia de uma das minhas primas e coisas que a gente só conversa com a mãe. Dai agora, ir sozinha, é chato. Ando pra lá e pra cá olhando os comidinhas e nem sinto vontade de colocar coisas no carrinho (a gastrite também colaborou nessa história toda). Mas né, sou um ser vivo e como todos os outros, preciso me alimentar. Sozinha, aprendi a quantidade certa que devo comprar. Duas frutas de cada vez, para não estragar, tá?

05. Você viu…Ops pera! – Ó, eu sou meio distraída. Faço coisas pensando em outras coisas e óbvio, depois isso vira uma confusão. Onde mesmo que eu coloquei a pinça ou a escova de cabelo? Em qual caixa? em? em? Antes era só perguntar para minha mãe. O superpoder de qualquer mãe é adivinhar onde todas coisas foram parar. Pois então, agora tenho que me virar sozinha. Prestar mais atenção coisas. Não tenho ninguém para perguntar. Olho no espelho e penso: “Onde a Bruna colocaria tal coisa?”Ah, se eu soubesse…

Bom, esse foi só o primeiro mês. Devo aprender mais coisas depois. Volto e conto, tá?

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Entre Amigas: “Terminei o namoro e me sinto sozinha!”
14/05/2013

P., 15 anos, Maricá/RJ – Eu já tive muitos amigos, amigos de verdade, e minha casa sempre estava cheia, mas agora parece tudo tão vazio. Depois do meu primeiro namorado, eu me fechei um pouco e só mantive amizade com meu melhor amigo. Era horrível, se ele faltava as aulas, eu ficava simplesmente isolada. Mas eu nunca percebi isso até ser tarde demais. Eu e ele começamos a namorar há alguns meses, mas ele trocou de escola, e eu não sei o que faço! Eu só tenho o mínimo de intimidade com uma garota da minha turma. Em uma turma de 50 alunos! É péssimo acordar todos os dias e ter que ir lá, e saber que eu vou ficar sozinha.

Olá P., que bom que resolveu escrever sua história para gente! Primeiramente, pense no que te tornou tão isolada assim. Você é nova, ainda vai conhecer muitas pessoas na sua vida e talvez esse momento seja só isso mesmo: um momento, uma fase. Sabe aqueles trabalhos em grupo? Aquela chance de puxar um papo, comentar sobre um seriado, ir jogar no mesmo time naquela aula chata de educação física? Então. Aproveite as oportunidades. Você está na escola e, acredite, existem várias chances de se fazer amigos.

Estou sofrendo com isso desde fevereiro, mas agora eu tenho me sentido pior. Eu choro quando me lembro de como eu era antes, mas não consigo voltar a ser assim. Eu não tenho paciência com as meninas da minha turma, parece sempre que elas fazem piadas sem graça, sobre coisas sem graça que eu não quero ouvir. Eu não quero ir a festas. Eu não quero ao cinema. A única pessoa com quem eu consigo me socializar é meu namorado/melhor amigo.

Por que não consegue voltar a ser o que era antes? O que te impede? O que mudou? Tudo bem que o tempo passa e a gente amadurece mesmo, mas existe muito mais pessoas além das pessoas da sua sala, da sua escola, sabe? Existem primas, amigas da rua, do inglês (ou de qualquer outra atividade extracurricular).

E pior, eu não só não consigo me socializar como eu me sinto sufocada entre pessoas, como se elas tivessem me dissecando só pra me verem por dentro e depois jogar fora. E eu acabo sendo grossa por me sentir assim, como se tudo e todos tentassem invadir meu espaço. Eu sinto falta de dançar, fazer uma festa do pijama, passar um sábado de molho na piscina. Eu sinto falta de rir. Eu não consigo falar disso com meu namorado. Não aguento mais viver assim.

Você disse que não tem vontade de sair, mas sente falta de dançar. Por quê?  Dê a oportunidade para as pessoas te conhecerem também, sabe? Deixe que elas se aproximem.

Você já deve ter escutado isso por aí, mas eu vou tornar a repetir: de certa forma, é importante que tenhamos amizades além do namorado e além dos amigos dele. Amigas e amigos seus, entende? Amigos que você liga em um sábado só para jogar conversa fora já que não irá se encontrar com seu namorado. Mas, para isso, é necessário que você dê a oportunidade que falta. Pense nas perguntas que eu te fiz e reaja, P. Não é difícil. Beijos e boa sorte.

Está enfrentando algum conflito? Tem alguma dúvida sobre amizade, amor, família, etc? Então mande um e-mail para [email protected] contendo seu nome, sua idade, sua cidade/estado e conte-nos sua história. Afinal, estamos sempre Entre Amigas!

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Uma das cinco coisas
03/05/2013

Que bagunça! Penso, enquanto olho a montanha de caixas e sacolas que estão bem no meio da sala. É, finalmente ou talvez infelizmente, ainda não decidi, minha primeira vez em casa sozinha. Madrugada. Quase manhã. O sol está começando a entrar pela janela. Sempre quis morar em um lugar assim. Bem iluminado. Paredes brancas, piso de madeira e cozinha americana. Fecho a porta, tranco as duas fechaduras como minha mãe ensinou antes de ir embora ontem à noite. Deixo a bolsa no sofá e sento. A vista é tão bonita. Acho que poderia passar minha vida inteira aqui. Olhando as pessoas atrasadas virarem a esquina. Os aviões quase baterem no prédio. A poluição que deixa tudo meio cinza. Brincadeirinha. Tenho uma caixa de entrada lotada para desbravar e pelo que me disseram, de agora em diante, é tudo por minha conta. O condomínio. Os prazos. A vida.

Me dou mais cinco minutinhos. Não de sono. Para falar a verdade, eu ainda nem dormi de ontem para hoje. Estou me dando mais cinco minutos para ficar pensando. No rosto e nome das pessoas que acabei de conhecer. Em como as coisas estão mudando num ritmo louco. Não consigo. Meu estômago não para de queimar. Gastrite resolveu dar as caras, e,  veio acompanhada de uma resfriado que me deixou completamente sem voz. Não estou brincando. Culpei o pó do prédio, mas já me disseram que pode ser emocional. Ser sensível é uma bosta mesmo.

Preciso comer alguma coisa. Ainda não ligaram a luz, então, tenho uma caixa de papelão cheia de pacotinhos coloridos e com muitas calorias. Abro o leite de caixinha e aceito a missão de tomar um litro antes que estrague. Não me julguem por gostar de leite puro. É o meu jeitinho.

Nhmmmmm. Entendi. Então ser um adulto de verdade é assim. Será que meus pais sentiram isso quando se mudaram lá para casa há 20 anos? Pergunto depois. Alguém aí viu a bolsinha de remédios? Achei. Estou procurando por algo que faça essa tosse de cachorro parar. Tinha um menino da minha sala, na terceira ou quarta série, que sempre fazia esse barulho no meio das provas. Era um saco. Sei lá porque lembrei disso agora. Foco nos remédios. Mefenâmico. Ibuprofeno. Ciprofloxacino. Definitivamente, eu deveria ter prestado mais atenção nas aulas de química.

Abro a porta do meu novo quarto e respiro fundo, ainda chiando feito rádio quebrado. Maçanetas prateadas. Nem tinha reparado que era assim. Para falar a verdade, estou com a sensação de aqui é um hotel. Ou a casa de uma amiga (invisível?). Estou num sonho e vou acordar a qualquer momento atrasada para o primeiro horário do colégio. Acho que falei a mesma coisa ano passado, quando mudei para o antigo apartamento. Qual é? Tenho dezoito anos e preciso ser uma garota forte. Tipo aquela música da Fergie, sabe? “Big Girls Don’t Cry, la la la la…”

Posso contar uma coisa pra vocês? Quando uma coisa ruim acontece na minha vida, outras cinco boas se tornam realidade. Estar aqui, nesse apartamento, meu apartamento, é uma delas.

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A aeromoça e o cara da rua de cima
13/10/2012

Nós nos conhecemos em 1984. Ou quase. Ele andava com os meninos da rua de cima, e eu ainda nem podia sair de casa direito. Meu pai era militar e inventava muitas regras. Lembro que minhas amigas comentavam sobre um cara bonito que tinha um sorriso engraçado e uma pinta em forma de coração no pescoço. Achei aquilo engraçado e talvez por isso jamais esqueci daquela conversa no beco. O tempo passou, meus pais se mudaram e eu nunca mais vi, do portão ou da janela de casa, o garoto passar.

Os tempos mudam. A época de escola consome tempo demais quando você tem que decidir o que fazer no seu futuro. Conheci alguns caras, me apaixonei três ou quatro vezes, mas nunca tive um daqueles amores que fazem a gente querer ficar junto com alguém até os oitenta e poucos anos. Achava que o problema era comigo. Não via graça em quase ninguém. Todos da faculdade e depois trabalho pareciam tão iguais. Tão assustados com a vida e com as possibilidades que ela dá. Eu me divertia com meus personagens preferidos nos filmes que assistia nas horas vagas. Isso me levou a mudar de profissão. Queria vi-ver o mundo. Vi que pra ver eu teria que partir. Então, em um domingo cinza qualquer, fiz as malas e fui pra Barcelona. Fiz cursos, algumas provas e gastei meus últimos trocados. Virei aeromoça e me reinventei. Minha mãe acha que eu enlouqueci, meu Pai faleceu em 94. Mas com certeza diria que eu tenho vento na cabeça. Talvez eu deva acrescentar coração. Ok.

Não tenho rotinas e essa é coisa mais legal do meu trabalho. Conheço mais de cem pessoas completamente diferentes todo santo dia. Algumas tenho vontade de saber a vida, outras de entrar nela. Às vezes penso que teria dado certo com o Lucas do vôo 3043. Se eu não tivesse o comparado tanto com o Matheus do 2940. São só suposições e eu nunca vou saber como seria porque eles provavelmente agora estão vivendo em continentes diferentes e nem lembram o meu último nome.

O mundo olhando da janela de um avião é menos complicado. Nossa imensidão interna não se compara com a imensidão que existe lá fora. É engraçado né? Teoricamente todos nós passamos pela mesma coisa nessa vida. Nascemos, crescemos, estudamos, casamos, viajamos, envelhecemos, ficamos bobos e achamos que sabemos da vida, então morremos sem nem saber direito o final da história. A graça é então o que acontece enquanto ela está sendo escrita. Deve ser isso. Tenho pânico de finais. Odeio quando a música acaba, quando chegamos no destino ou quando apagam a luz e já é hora de dormir.

Leio todos os dias e costumo deixar uma marca de batom em cada espelho que passo. Recebo no dia 28 de cada mês e coleciono cartões postais. Escrevo neles sobre os países que visito  os lugares que mais gostei, mas ainda não sei se tem alguém mundo que realmente se interessa por isso. Minha tia não conta.

Ontem fiz SP-PARIS. Não vou mentir, fiquei olhando no pescoço dos caras com trinta e poucos pra ver se por acaso o acaso tinha me preparado uma surpresa. Não é pedir demais, né? Eu boto fé que aquele garoto da rua de cima ainda será alguém no destino dessa minha vida cheia de destinos. Não foi o dia do grande encontro. Mas tenho certeza, ele está por aí, e uma hora ou outra, precisará voar para algum lugar distante. E eu? Vou mostrar as saídas de emergência que levam nossa história ainda inexistente para um lugar onde ela sempre fez o maior sentido. Minha mente.

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Entre aspas: Quem você quer ser depois de crescer?
05/10/2012

A indecisão na pós-adolescência. A dificuldade de seguir no caminho escolhido. Entre ser teenager ou adulto, você se sente como Peter Pan fazendo previdência privada. Uma falta de ser tanta de coisa ao mesmo tempo. Saudades daquele suposto eterno misto de vontade e possibilidade.

Envelhecer é um pouco como seguir em frente enquanto as vozes dentro da gente silenciam. Aquelas que te contavam sobre o que ser quando crescer, a cor do primeiro carro, a viagem das férias, seu tipo de roupa, seu tipo de homem. Cada escolha analisada no travesseiro podem lhe fazer sentir como um estranho a você mesmo. Fui eu mesmo que quis isso para mim? Quem disse?

E nessa ânsia de encontrar um reforço positivo, é tão fácil transformar a vida da gente num verbete de wikipedia. Aceitar a opinião alheia como único norte pra dúvidas. Duvidar-se. Criar regras e padrões que nem sempre funcionam, mas dão um mapa, um guia, ainda que sob o risco de tornar-se um quebra-cabeça com peças que não são nem suas.

Nesses tempos em que a vida de todo mundo é tão exposta e comparada, como não poderia deixar de ser, é comum se sentir perdido quando se mede pela regra dos outros. Estou saindo tanto quanto deveria? Ganho pouco? Amo demais? Devo trocar de carro? De namorado? Sou feliz?

Pode parecer sufocante sentir que sua vida não se move tão rápido quanto a dos outros. Estamos condicionados a oferecer aos outros o que eles esperam da gente. E, se isso não acontece, criamos desculpas. Não é preciso se desenvolver acompanhando a matilha só porque nasceu em 1990 e há livros sobre a Geração Y. Não é o autor quem vai conviver com as escolhas que você faz para a sua vida. Está tudo bem em ser diferente. Há muita margem entre ser hippie e ser um controlador de vôo. Há muita margem entre o que é o outro e o que é você.

Muitas das perguntas que tenho sobre o que quero ser depois de crescer não são nem minhas. São ecos de gente que está bem mais confusa do que você. E o que a gente faz quando percebe que grande parte dos nossos problemas são frustrações adolescentes adquiridas em frente aos espelhos dos outros? Fala um pouco menos, sente um pouco mais, arranja problemas de verdade e aprende a confiar no seu silêncio. Nada fala mais alto que ele. Ele é você em paz. Tem algo diferente disso que você queira ser?

Sobre o autor: Felipe Luno (no twitter @felipeluno) é jornalista, escritor, coleciona pequenos pecados amorosos e acredita em um mundo com menos carão e mais carinho. Para ler outros textos acesse www.dramaking.org

*Na tag “entre aspas” divulgamos textos de autores brasileiros. Escreve? Deixe seu link nos comentários. Quem sabe seu trabalho não aparece aqui no blog Depois Dos Quinze?

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