Entre aspas: Retrato falhado
21/08/2012

Procura-se vivo ou sentindo minha falta, alguém que muito amei. Alguém que se foi e eu nunca aceitei. Procura-se o fim. Procura-se e recompensa-se porque é dele – do fim – a culpa de cada letra de música, roteiro de filme, texto de teatro, script de novela, tema literário e do peso da saudade que eu carrego. O fim. O fim de semana para suportar a semana inteira no trabalho. O fim do semestre para suportar cada dia de aula. O fim da refeição para vir a sobremesa, para tolerar cada coisa que a gente não gosta, mas engole para ser saudável. O fim do ano para a garantida ilusão do fim do que não está bom e de mais uma dose do que está bem. E com o amor? O fim do amor para vir a saudade? O fim da saudade para vir o amor? Ou o fim da dor para ir a saudade e chegar outro amor? Enquanto tento responder eu penso que não é o fim que dói é a impossibilidade de voltar ao começo, de revisitar o meio, de poder reviver só por um dia aquilo que era vida e hoje se reduziu a lembrança. Lembrança é bom quando traz esperança, não saudade, pode anotar isso aí. Aproveita e anota também como era quem amei, desenha cada traço dele, faz um retrato falado e escreve que há recompensa. Eu recompenso fazendo feliz, sendo feliz, será que basta? Pode ser que não. Não, não venha me dizer que já é hora de esquecer, não tem relógio para o que a gente sente e eu nunca fui pontual. Desenhe aí o rosto da pessoa mais linda do mundo e escreva “te procura alguém que te amou sem motivo”. Sem motivo, e quando é sem motivo a gente fica sem razão para deixar de gostar. O melhor motivo para amar alguém é simplesmente não saber o motivo ou não ter motivos para não amar. Poderia te explicar cada pedaço dele, cada detalhe do rosto, cada traço da boca, dos olhos, mas a verdade é que eu não sei mais como ele está. Pode ser que a pessoa que eu conheci e procuro seja completamente diferente da pessoa que hoje existe. Não vai dar certo pendurar um retrato falhado, procurando alguém que amei e não sei como achar, dando ilusão à saudade ao invés de pôr nela um fim. Faça, então, o seguinte, desenhe a mim, me reproduza nesta folha com exatidão. Vou colocar junto uma foto minha antiga para ele se lembrar de mim e, se ainda me amar, ter como me procurar e me encontrar. Vai ver é isso, ele já me procurou, já me encontrou, mas não sabia que era eu, faz tanto tempo… Faça esse desenho e disfarce em seu rabisco qualquer tristeza que eu carregue, senão quando ele me ver não vai me reconhecer, eu vou ficar tão feliz quando ele voltar que se me pôr como estou agora na figura, vai pensar que não sou eu. Promete que procura por mim e entrega a ele o meu retrato para se ele, um dia, resolver me procurar. Melhor assim, sem forçar, deixando livre. É que talvez, no fundo, eu nunca deixe de esperar, mas aceite ele não vir. E se não me procurar que venha logo o fim, o fim, sem fingir. Pois nem sempre que termina acaba, compreende? Mas venha o fim se quem amei não vier. A vida ensina que quando o amor termina é só para vir algo maior . Tudo tem fim, até o fim, por isso, assim, com o fim do fim a gente pode recomeçar e dar um jeito de tratar de ser feliz. Procura-se.

Texto escrito por Ruleandson do Carmo, Jornalista, 26 anos, BH/MG, mestre em Ciência da Informação, especialista em Criação e Produção para Mídia Eletrônica, professor do curso de Jornalismo da Ufop, é o personagem sem roteiro de uma comédia romântica sem fim e o vazio que une amores de cinema aos amores reais. Para saber mais, acesse  Eu só queria um Café.

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Entre aspas: O que ganhei com o tempo que perdi
24/04/2012

Amor, ou você encontra ou você é contra. Costuma ser assim. Principalmente naquele momento em que o amor parece uma bela promessa, mas seus amores insistem em contradizer esperanças. O telefone não toca, suas mensagens a paixões iniciais são respondidas com um “Quem é?” e quando você liga uma gravação informa “A pessoa que você ama não te ama ou não existe”. O sono não chega e não é o cansaço que te incomoda, mas a perda da única chance de ter quem você ama ao seu lado, sonhando. Você resolve seguir em frente, mas todas as pessoas rumam para o mesmo destino, logo aquele que você já sabe que não é o seu. Você pensa em se fazer sempre presente, mas assim as pessoas se cansam de você. Você considera ficar mais distante para notarem sua ausência. Mas se alguém não acha que há valor em te ter por que se importaria em te perder? O que você descobre o real valor quando perde é dinheiro, não amores.

Quem não valoriza sua presença não se importa com a sua ausência (ainda que você se importe). Caso você se apaixone, você é carente. Caso você não se envolva, você é um canalha. Se transar de cara, você é promíscuo e alguém que não vale a pena investir. Se não transar na primeira vez, você é puritano, frio, chato. O que, então, as pessoas querem afinal? O que nós queremos, então? Se tanta gente diz que busca alguém, mas ninguém presta, não era para um dia esses que prestam e buscam quem preste se encontrarem? Com quem estamos perdendo tempo para não vermos quem vai fazer a  gente ganhar o dia todos os dias? Eu não sei. Mas sei o que ganhei com o tempo que perdi.

Das mensagens sem resposta, ficou a coragem de dizer o que eu sentia. Do desprezo que me ofereceram ficou não a dor por existirem pessoas cruéis, mas o esforço por nunca ser igual. Do valor que não me deram, ficou a certeza de que devo oferecer o melhor ainda que não mereçam. Das desilusões, ficou a vontade de um dia oferecer sonhos a alguém. Das vezes que não deu certo, ficou a vontade de tentar.  Dos amores não correspondidos, ficou a capacidade de amar. E em meio a isso tudo o que mantenho é a esperança. Esperança e certeza de que vou ter que continuar tentando, é o que ganhei com o tempo que perdi, vivendo de amores que morreram, esperando quem nunca esteve a caminho. Anote aí: amar, ainda não inventaram outro jeito, a não ser tentar. Amor, ou você encontra ou você se reencontra (e se reconstrói).

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Texto escrito por Ruleandson do Carmo, Jornalista, 26 anos, BH/MG, mestre em Ciência da Informação, especialista em Criação e Produção para Mídia Eletrônica, professor do curso de Jornalismo da Ufop, é o personagem sem roteiro de uma comédia romântica sem fim e o vazio que une amores de cinema aos amores reais. Para saber mais, acesse  Eu só queria um Café.

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