Entre aspas: Entre culpas e certezas
18/09/2012

Ando cansada de carregar culpas que não são minhas. Sei que a frase parece estranha (e é), mas tem gente que acha que preciso saber todas as respostas. Logo eu, que nada sei. Verdade, quanto mais o tempo passa mais eu vejo que tenho muito o que aprender com a vida e as pessoas. Todo mundo tem algo para nos ensinar. Diariamente. Pena que nem sempre são coisas boas. Mas se o outro não ensina nada positivo, pelo menos podemos aprender o que não devemos fazer.

Se você não sabe pra onde quer ir, tudo bem. Se pelo menos souber o que não quer para a sua vida já é meio caminho andado. Eu sei o que não quero de forma alguma, assim, já elimino muita coisa. E muita gente.

Chega de se lamentar. Se a sua vida anda ruim, desculpa, mas não tenho nada a ver com isso. A minha vida também é cheia de problemas, mas eles são meus. E você não tem nada a ver com isso. Você não tem nenhuma responsabilidade, nenhuma culpa, nada. Não tenho que te cobrar coisa alguma, pois minhas cagadas e acertos só dizem respeito a mim. Se eu faço alguma coisa que te afeta e te fere, me perdoa. Não tenho a intenção de magoar ninguém com meus atos. E se de vez em quando isso acontece, faz parte da vida. Inevitavelmente, magoamos pessoas. Inevitavelmente, esperamos coisas e atitudes das pessoas. Inevitavelmente, existe a frustração. E temos que aprender a conviver com ela pra tentar ser feliz.

De vez em quando cansa ser adulta, dá uma vontade louca de fazer as malas e voltar para a casa da mãe e do pai. E ficar lá, acolhida naquele mundo onde nada atinge e abala, onde a maior preocupação é a menina da escola que me chamou de boba, feia e chata. Então eu penso: não. Uma hora a gente tem que olhar nos olhos dos medos. E andar pra frente. Sem atalho, sem muleta, sem abrigo. Porque a vida é o que acontece no intervalo dos nossos medos. Eles nos petrificam, nos transformam em múmias. É só quando a gente acorda, anda, se mexe, manda eles embora que a vida de fato surge pelos buracos da fechadura.

Sempre pensei que todo mundo tem uma missão. Ninguém vive por viver, nasce por nascer, morre por morrer. Você tem uma missão e deve tentar cumprir tudo o que “está escrito” da melhor forma possível. Mas a gente não sabe o que está escrito. Temos que tentar adivinhar todo o santo dia. É por isso que existe a intuição: ela nos leva para onde devemos ir. É por isso que a gente deve seguir o que o coração diz: ele sempre está certo.

Autora do texto: Clarissa é Clarissa porque um dia a dona Clara leu um livro e decidiu que assim seria. E assim foi. Depois de passar pelas faculdades de Direito e Psicologia, decidiu fazer o que mais ama: escrever. Concluiu o curso Formação de Escritores e Agentes Literários, na Unisinos. Escreve crônicas, contos, receitas, bilhetes, cartas, cartões, títulos, textos e, se bobear, até bula de remédio. É redatora publicitária e autora do livro de crônicas “Um pouco do resto”. Acompanhe @clariscorrea e www.clarissacorrea.com.

*Na tag “entre aspas” divulgamos textos de autores brasileiros. Escreve? Deixe seu link nos comentários. Quem sabe seu trabalho não aparece aqui no blog Depois Dos Quinze?

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Entre aspas: Basta um enter
29/02/2012

Algumas coisas me intrigam muito. Sou usuária das redes sociais, porém não sou dependente. Conheço muita gente viciadíssima. Eu uso – e muito – para divulgar meu trabalho e estar mais perto de quem gosta de me ler. Faz alguns dias que estou sem celular (mudança de operadora, precisa ter o raio de um código, etc.,etc., etc.) e estou vivendo lindamente, obrigada. Não tem nada melhor do que ficar incomunicável. Sem aquela obrigação e/ou curiosidade de checar emails de cinco em cinco segundos. Sem aquela paranóia de verificar Twitter e Facebook. Quem quiser me achar vai ligar para a minha casa. E quem tem o meu telefone de casa são só familiares e amigos chegados. Fora o telemarketing, of course.

Acho que as redes sociais invadiram a intimidade de todo mundo de uma forma bem assustadora. Até que ponto as pessoas estão vivendo suas vidas de fato? Até que ponto a carência aperta? Até que ponto a solidão grita e pede ajuda? Não sei. Vejo uma quantidade absurda de gente carente querendo um pouco de colo. Vejo quem dá indireta. Quem quer ser notado. Quem quer um elogio. Quem quer uma palavra de carinho. E, também, quem quer aparecer a todo custo. Tem gente que passa do limite e faz a exposição da figura de um jeito inadequado.

Não quero saber se você está doidão ou se sua calcinha é pequena demais. E também não quero detalhes da sua vida sexual. Tudo precisa ter limite. Você pode não ser uma vadia, mas se fala e age como uma, me desculpe, mas imagem é uma coisa que a gente constrói. Você pode até não ser um canalha, mas se fala um monte de babaquice é isso que pensarão de você. A gente deve cuidar com o que fala. Mas principalmente com o que fazemos com nós mesmos.

Na internet, ninguém te vê. As pessoas sabem de você pelo que você diz. Pelo que mostra. Tem gente que quer ser um personagem. Tudo bem, cada um sabe o que faz da sua vida. Mas é importante saber se respeitar. Porque na internet as pessoas te julgam o tempo todo (na vida real também, é ou não é?). Acho que não dá pra “cagar e andar”, afinal, ninguém vive sozinho. E é justamente isso que faz todo mundo tuitar loucamente: a solidão. A necessidade de dizer para o mundo coisas que suas paredes não ouvem.

Muitos deixam de viver a vida real pra viver a virtual. Se escondem, colocam suas carências, traumas e urgências em um buraco fundo. Tentam não enxergar a vida lá fora. Sei de casos de pessoas tímidas que na internet snao incrivelmente diferentes. Sei de casos de gente com dificuldade de relacionamento, dificuldade de se aceitar. E ali no ponto com tudo é mais simples e rápido. Basta um enter.

Eu adoro tuitar na sala de espera. E, confesso, adoro fazer participação na novela. Explico: fico tuitando sobre a novela. Não é sempre, é só quando preciso me expressar. De vez em quando tenho essa necessidade de expressão tosca. Uso Facebook para falar com quem não vejo há tempos, para reencontrar pessoas, para falar com quem gosta dos meus livros e textos. É uma troca que enriquece. Através do Twitter, divulgo meus livros, minha linha de produtos, meus textos, meus projetos. E só. Ninguém sabe se me drogo, se transo, onde moro. Ninguém sabe do meu relacionamento. Ninguém sabe quem é meu amigo. As pessoas sabem apenas o que quero que saibam. E é assim que lido com minha vida virtual e real. Porque nem todo mundo é amigo, nem todos torcem por você, nem todos ficam felizes com sua felicidade e sentem compaixão pela sua infelicidade. Simple like that.

Se eu viajo para a casa da minha sogra ou dos meus pais, posso até tirar foto do mar, da serra ou de algum lugar bonito, como um parque ou restaurante. E só. Não entendo quem viaja para um lugar que nunca foi, para outro país, quem conhece outra cultura e fica postando fotos adoidado. Parece que essas pessoas querem viver para os outros. Querem mostrar olha-como-sou-feliz-olha-como-curto-a-vida. Curta a sua vida. Aproveite sua viagem. Viva cada segundo. Tire fotos, sim. Mas viva o momento. Poste as fotos na volta. Descanse, desligue da internet, do mundo. Essa é a minha opinião. Em breve, vou fazer uma viagem linda. E não vou levar celular. O máximo que farei é mandar email para pais e sogros chegamos-e-está-tudo-bem. O máximo que farei é mandar email para o hotel que minha cadelinha ficará para saber se ela está bem. Quando saio de férias eu gosto mesmo é de desligar de tudo.

Existem riscos virtuais. Vejo um povo dando telefone, endereço, informações que a gente não dá assim, pra qualquer um. Falta se preservar um pouco. Preservar a intimidade. Eu brinco dizendo o seguinte: não é porque posto foto da minha cadelinha ou porque digo que preparei um risoto de aspargos que você me conhece. Não. Sou mais do que uma foto, mais que um risoto, mais do que uma reclamação de loja, mais que meus livros, mais que meus textos, mais do que uma tela. Tenho carne, osso, coração. E isso ninguém vê, só quem convive comigo todos os dias. Só quem já olhou no meu olho.

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Entre aspas: O que ainda não aprendi!
26/12/2010

Sempre ouvi dizer que a vida ensina e que o tempo cura tudo. Mas hoje preciso te contar que certas coisas a vida ainda não fez o favor de me ensinar e que o tempo se atrasou e ainda não veio me libertar de uns desejos. (…) O tempo nem sempre cura tudo. Tenho feridas que já cicatrizaram, mas que insistem em latejar quando o dia está nublado. Tenho mágoas que já foram superadas, mas se lembro bem, se lembro forte, se penso nelas eu choro. E o choro dói, dói, dói como se fosse ontem. Tenho vontades que nunca passam. Tenho uma tara por chocolate e queijo que nunca saiu de viagem. Tenho mania de escrever em blocos e ter pelo menos dois deles sempre dentro da bolsa. Tenho sentimento de posse, tenho ciúme, tenho medo de perder quem é essencial na minha vida. Tenho medo de me perder, por isso acendo todas as luzes.

A vida me ensinou a perdoar os outros. Mas fez questão de me mostrar que a gente pode perdoar sem esquecer. Minha memória é boa, sei quem pisou na bola. Aceito que as pessoas errem uma ou dez vezes, desde que se arrependam com o coração. Arrependimentos da boca para fora nunca me convenceram, apesar de eu já ter caído em ladainhas toscas sem fim. A vida ainda não me ensinou a me perdoar. Me condeno, me mando para a cadeia, para a solitária, como pão e água. Cumpro minha pena e nem assim descanso. E eu não sei pedir. Meu Deus, eu não sei pedir ajuda. Nunca gostei de depender dos outros. E tem mais: não consigo dizer eu-preciso-de-você-agora. Sei que é simples, mas não sai. Algo me trava, a voz não sai.

Tenho um orgulho que não me deixa. Acho que tenho que ser a fortona do pedaço, que consigo me reconstruir, me levantar sem dar a mão para ninguém. Não gosto de admitir nem assumir fraquezas nem de demonstrar a minha própria fragilidade. As pessoas fazem SOS a todo instante. Choram, pedem, imploram, suplicam. Não consigo. Para mim isso é traição. Não consigo chegar para a outra pessoa e falar tô-acabada-tô-precisando-não-vou-conseguir-sozinha. Sinto um terror só de pensar.

Ninguém nunca me disse que eu precisava ser forte. Um dia, sei lá quando, eu resolvi que ia ser. Sempre fui aquela que ouviu todo mundo, automaticamente achava que tinha que dar força para os outros. É claro que mil vezes peguei o telefone chorando perguntando o-que-eu-faço. Mas isso é quando eu era adolescente e estava arrasada porque algum bonitão me deu o fora. Meus assuntos sérios e profundos eu nunca soube dividir. Penso que a vida é minha, o problema é meu, ninguém tem que ouvir minhas lamúrias, tristezas, coisas chatas e ruins. Penso que me viro sozinha. Penso que me resolvo comigo, que dou um jeito, que consigo.

Quer saber uma verdade? Isso cansa. Vejo tanta gente dizendo que eu sei tudo, que eu posso ajudar, que isso, que aquilo. Eu não sei nada, apenas me sintonizo com minhas emoções. Não posso ajudar em nada, apenas escuto o meu coração. Ele fala tanto que deixa tonta. Cansei de ser forte, cansei de não saber pedir ajuda, cansei de tentar fazer tudo ao mesmo tempo, cansei de não conseguir dormir direito pensando no que preciso comprar para a faxineira, cansei de tomar café pensando no que me espera na agência, cansei de não conseguir sossegar meu pensamento, cansei de esconder meu lado frágil, inseguro, cansado. Cansei de aceitar as minhas imperfeições sozinha. Por favor, me aceite também.

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