Dezenove
22/05/2013

- É tolice.
- Eu sei que é, mas está me matando por dentro. Cada dia sinto uma dor diferente. Como se estivesse se espalhando. – Disse, respirando forte, só para garantir que ainda doía. Naquele momento, na boca do estômago.
- Não diga bobagens. O que você tem não é uma daquelas doenças em que as pessoas se recusam a dizer o nome. Também não é amor. É drama. É pena de si mesmo. Vai passar.
- Dizem isso o tempo todo.
- É porque as pessoas, huuuum, digamos, elas vivem. Saem de suas casas todo dia, enfrentam horas no trânsito e ainda se arriscam em relacionamentos que obviamente não vão dar certo. E claro, depois de alguns meses, se ferram.
- E porque elas continuam tentando? – Retruquei.
- A ressaca do amor nunca dura para sempre. Não é como nos filmes, sabe? Vivemos no planeta terra. Temos um elenco que conta com bilhões de pessoas.
- Como eu descubro qual é a certa?
- Posso te contar uma coisa? A pessoa certa não existe. Todas as pessoas são um pouco erradas. Só depende do seu ponto de vista. Eu mesma já conheci dezenas de caras que me fizeram chorar feito um bebê dentro do banheiro. Com a porta trancada e o chuveiro aberto que é para ninguém mais escutar. Deles, além da pelúcia inútil escondida em algum canto do guarda-roupa, levo os sorrisos e as dores. Ok. Também algumas músicas e bandas que conheci enquanto estava com cada um deles.
- E onde é que você guarda as dores?
- Junto com os momentos bons. Deixo em equilíbrio. Não vale a pena apagar nossos próprios sentimentos, sabe? Acho que é tudo meio ligado. A dor, saudade, insegurança, felicidade… Vão fazendo uma trança. Como essa que estou fazendo em seu cabelo. – Disse, ao pegar o elástico da minha mão e dar três voltinhas no final da trança.
- Ah, é? Eu queria ter coragem para cortar ele curtinho. Como o seu.
- Foi uma metáfora, mas se você está encarando dessa forma, vamos lá: quando você tira uma parte da trança, ela se torna mais feia, mais frágil, mais boba. É importante que os fios estejam bem organizados e divididos. Assim como os nossos próprios sentimentos. Precisamos entender muito bem quem somos, antes de cobrar isso dos outros. É um exercício complicado, mas funciona.
- Eu sei muito bem quem sou. Sempre soube.
- Todo mundo pensa assim. Até o momento em que erra. Às vezes, erra feio. De um jeito que as coisas nunca mais voltam a ser como antes. Então, mudam para se adaptar. E acabam não se conhecendo mais por um bom tempo.
- Isso é bom?
- Não é bom, nem ruim. É a vida de um ser humano na fase adulta. Seja bem-vinda.

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Entre aspas: Depois dos Quinze
22/05/2013

Depois dos quinze você aprende que a paleta de cores da sua vida vai além do rosa e dos tons mais inofensivos. Você se vê numa linha de transição que parece um abismo divertido – e pode tanto deixá-la com vontade de se atirar ou com medo de cair pra dentro de um novo mundo. Aos poucos troca o rosa pelo vermelho, pelo vinho e por outras cores que antes você considerava chatas. Depois dos quinze você vai entender tanta coisa que não entendia antes – ou entendia, mas nunca tinha parado pra pensar sobre elas e lançar um olhar diferente.

Depois dos quinze você entende que o seu princípe encantado precisa de mais do que um cavalo branco e de um sorriso bonito pra te conquistar. Ele precisa dar um jeito de fazer você se sentir a menina (e a mulher) mais especial do mundo. Você vai ver que uns princípes eram lobos em pele de cordeiro, outros eram cordeiros mimados e bundões, outros eram bons princípes que não combinavam nada com você e, um dia desses, você esbarra com o seu princípe. E não vai se espantar se ele estiver andando na rua como outra pessoa qualquer que só você notou. Não precisa ficar com medo, menina. Você vai notar que é ele pelo jeito com que se olham. Os olhos nunca traem a gente.

Depois dos quinze você vai perceber que alguns problemas nunca foram problemas e que existe tanta, mas tanta coisa mais importante por aí. Tanta gente boa, tantos sonhos que ainda não saíram do travesseiro e tanta magia nas luzes da cidade. Você vai entender um pouquinho mais sobre as chatices dos seus pais e vai passar a entender o real valor de um “eu te amo, sabia?”. Vai ralar os joelhos de tanto cair, rir das suas burradas e quedas e vai aprender a beber café de tantas noites viradas na internet com alguma paixão que mora longe ou com algum trabalho que não te deixa dormir direito. Vai tirar o salto alto na balada, entender a delicia que é usar uma sapatilha baixa e aquele pijama confortável do lado de quem realmente te faz bem, sem se importar em como isso pode parecer na frente de um espelho.

Depois dos quinze, você ainda vai passar pelos vinte, pelos trinta, pelos quarentas e por todos aqueles cremes anti-idade que você não vai precisar. Nada demais. Só umas precauções e algumas atitudes correspondentes a cada nova idade. Você vai viver tudo isso um dia, se é que já não vive depois dos quinze. Mas calma, menina. Recomendo que você aproveite os quinze e tudo o mais que vem junto dele. Toda a euforia, o brilho nos olhos, os diários escondidos, os amigos virtuais, o sorvete depois do colégio, os jogos de queimada na rua e tudo mais. Porque um dia os quinze acabam. Todo esse mundo mágico e delicioso que um dia passa, fica escondido no porão de casa, guardado na memória e tal. Se você quiser, guarda os quinze num baú pra abrir mais tarde e vive os seus quinze agora. Garanto que você não vai se arrepender de abrir alguns sorrisos quando estiver mais velha.

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Quem sabe dê certo, quem sabe não
13/05/2013

Guarda as declarações decoradas para as menininhas que ainda acreditam em contos de fadas. Comigo, pode vir tranquilo, desarmado, sem os textos decorados desse papel que te entregaram de príncipe encantado. Eu também já me despi de todos os sonhos de relacionamentos perfeitos que a vida me trouxe pelo caminho. Aprendi, na marra, nas caras e nos corações quebrados, que vocês nunca vão funcionar como os príncipes que acordam as belas adormecidas. Depois disso, sempre me mantive bem acordada.

Eu sei seus defeitos. Sei cada um deles. Mania que tenho de observar cada mísera ação das pessoas antes até do primeiro oi. Te analisei enquanto você sorria despreocupado e deixava o sol iluminar seu cabelo castanho. Vi como os traços do seu rosto se suavizam quando sua mãe chegava por perto e descobri no brilho dos seus olhos o que é o amor incondicional. Observei a maneira como você pisca o olho incessantes vezes quando está muito nervoso. E como coça o queixo sem parar quando não sabe o que responder.

Não precisa mesmo saber o que responder. Não quero que responda minhas dúvidas da vida. Talvez, você se veja tentado a questionar o mundo comigo. Talvez você se assuste. Eu sou mesmo alguém cheio de falhas. Tenho buracos em cada partezinha do corpo. Principalmente, no coração. Foram as cicatrizes – no corpo e na alma – que os outros antes de você deixaram aqui. Mas, fica tranquilo, não te quero perfeito. Pode vir cheio de erros.

Vamos nos despir dessa obrigação de fazer o outro feliz. Deixa ali no canto do quarto essa necessidade louca de fazer tudo certo. Eu aceito errar junto. Eu aceito gritos, pratos quebrados, brigas de tirar o fôlego. Basta que você diga que está disposto a errar comigo. E, quem sabe, entre nossos erros, a gente não consiga um ou outro acerto. Mas não te cobro nada não. Meu “felizes para sempre” sou eu que construo. Tô te chamando pra minha vida não pra preencher meus buracos, mas para me dar a mão e me ajudar a tampar minhas feridas. Te ajudo a cicatrizar as suas também, se quiser. E, juntos, rimos disso tudo.

Mas não te cobro nada. Talvez, a gente consiga dar certo. Talvez, a gente acabe, mesmo com uma história bonita. Talvez, você vá embora, talvez eu não queira mais ficar. Mas eu tô aqui, agora: vida e portas abertas pra se você quiser entrar. Porque, sem te cobrar felicidade, sem te cobrar uma história bonita e sem te cobrar amor, talvez, quem sabe, a gente dê sorte e consiga se amar, ser feliz, ter uma história bonita junto. Vai que a vida, o destino, ou sei lá, resolvem dar um empurrãozinho. Quem sabe, até, a gente não se ame até o final dos dias. Até o fim.

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Um errinho
11/05/2013

Foi só um erro. Um errinho. Uma hora, ou talvez 26 minutos, sei lá, que mudaram tudo. Fico pensando nisso antes de dormir. Em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas não depende de mim. Ou melhor, não dependeu de mim. Agora depende. Mas agora é fácil demais dizer que tudo pode ser de um outro jeito daqui para frente. Pois é tarde. O ponteiro do relógio já girou um milhão de vezes. O sol nasceu e se pôs, de um jeito lindo que fiz questão de fotografar, umas trinta. Eu, mudei de casa, empurrei móveis sozinha e fiz novos amigos. Que graças a Deus, você nem conhece. Sabe, eu fui em bar muito legal. E pela primeira vez em semanas, me diverti. Deixei que conhecessem a Helena. A sua Helena.

Tive várias conversas. Desabafei até não conseguir mais me ouvir contar a mesma história. No fundo eu queria que me dissessem o quão idiota você foi. Principalmente aquelas pessoas que viram o quanto eu me esforcei para dar certo. Mas disso, eu já sabia. E sabia também que era questão de tempo para você assumir que é uma criança. Daquelas que fazem arte e saem correndo para chorar no colo da mãe. Agora ela já não pode fazer nada por consertar os seus erros, né? Que peninha.

Te abstraindo da minha vida, percebi algumas coisas. No trânsito, que sempre odiamos, por exemplo. As luzes vermelhas pra cá e as brancas pra lá, podem me acompanhar até lugares inesperados. Avenidas. Muros pichados. Árvores solitárias. Novos andares. Os meus amigos. Nada como uma desilusão amorosa para gente aprender a valorizá-los. E perceber os que não dão a mínima também.

Não te odeio, porque, sinceramente, você me fez é bem. Tive que me virar sozinha. Dizem que amadurecemos mais rápido quando somos obrigados, né? É verdade. Se antes me davam 20, agora passo por 25 com certeza. Não estou falando de aparência. Porque eu continuo tendo aquela cara de menininha de sempre. Na verdade, meu cabelo cresceu mais um pouquinho e estou me sentindo mais bonita. Estou falando de atitude. Palavra bonita essa, né?

A solidão tem dois lados. Embora a felicidade geralmente esteja na companhia de alguém, ficar sozinha em casa também é um jeito de descobrir o caminho. Para parar de ficar pensando em tudo o tempo todo, sabe? A resposta das perguntas que fiz quando me mostraram quem você realmente é estavam, como disseram, no tempo.

Nesses meses, algum vez, você realmente conseguiu ser você perto de mim? Sei lá. Talvez quando me contou aquele segredo de família no chão de sala e eu sem dizer nada,te abracei. Ou quando no banco da pracinha, antes da viagem, jurou que não tinha graça sem mim?

Tinha sim.

Tudo bem. Não precisa se sentir tão culpado. Foi um erro. Um errinho. Que deixou uma dor. Uma dorzinha. Que tá passando. Dia após dia. Página após página. Texto após texto. Mensagem após mensagem. Era para ser assim e o que podemos fazer? Apenas foi.

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O manual da felicidade
03/05/2013

Conheça o mundo. Não necessariamente em uma viagem. Às vezes, o que a gente precisa mesmo, é olhar tudo de uma perspectiva diferente. Aqueles pequenos problemas que fazem as coisas pareceram uma droga no final do dia, aqueles que a gente não tem coragem de admitir para ninguém, podem ser apenas nossa consciência exigindo um pouquinho mais da gente. Não do passado, nem no do futuro. De agora. Tudo é tão relativo. Seu próximo sorriso só precisa de um novo referencial.

Não guarde rancor. Nada acontece por acaso. Precisamos aprender a tirar boas lições até das piores experiências. Os sentimentos negativos, quando acumulados dentro da gente, contaminam todo o resto. Paramos de prestar atenção e ver graça nas coisas mais simples quando passamos o dia todo tentando resolver os antigos problemas de sempre. Exigir que o mundo seja exatamente como planejamos o tempo todo é egoísmo e o orgulho só serve para te tornar uma pessoa mais solitária.

Seja amável. Até mesmo com as pessoas que não podem fazer nada por você.  Na verdade, elas sempre podem. Cada pessoa que conhecemos durante a vida nos transforma de uma forma diferente. Geralmente só descobrimos isso quando elas não estão mais por perto.

Substitua a palavra “problema” por “desafio”.

Não seja tão crítico. Com você e também com as pessoas ao seu redor. Ninguém quer saber a sua opinião sobre a maneira que fulano toca a vida. Você não é a pior pessoa do mundo. Nem quando sente ódio, ciúmes ou inveja. Nem quando diz algo completamente diferente do que está pensando. Somos todos seres humanos e esses sentimentos fazem parte da nossa existência. O que nos diferencia no final das contas é a maneira com que lidamos com cada um deles.

Não viva uma vida inteira tentando ser melhor do que alguém. Quando todas as nossas escolhas se tornam consequências dessa tal competição mental, conquistar sonhos se torna uma obrigação. Não existe uma convenção para a felicidade. O que é bom para ele, pode ser uma droga para você. E vice versa.

A vida das pessoas não é tão interessante quanto parecem ser na internet. Nossa geração vive uma superexposição e isso faz com que tenhamos uma certa tendência a frustração. O facebook do vizinho é sempre mais interessante e movimentado que o nosso. Pois, saiba você, isso não quer dizer absolutamente nada. As pessoas mais legais e reais que conheço não dão a mínima para tudo isso.

Não seja aquela pessoa que sempre desmarca tudo. Agenda lotada e preguiça aguda não são exclusividades sua. A vida está muito corrida, isso é fato, mas arrume um tempinho para conversar com as pessoas que ainda se importam. Poucas coisas são tão divertidas quanto desabafar, rir de besteiras e lembrar, em uma mesa de bar ou no meio de uma comédia romântica, do bom e velhos tempos.

Tenha uma rotina física e mental saudável. Beba bastante água, tire a maquiagem antes de deitar e nos finais de semana, durma o número de horas que faltaram. Não cultive rituais de sofrimento só para saber se ainda dói. A dor pode preencher espaços, mas cultivá-la é como construir muros em volta de sí mesmo. Por fim, acomode-se agora mesmo. Na poltrona do sofá, não na vida.

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