A novata
29/10/2012

Eu ainda odeio o jeito que alguns grupinhos do colégio me encaram no intervalo. Principalmente aquele das meninas-super-poderosas. Pois é, fizeram questão de dar esse nome ao grupo. Mas vai por mim, não tem nada de docinho e lindinho ali. Sim, todas elas fizeram uma tatuagem de flor no pulso para simbolizar a amizade. E claro, criar um álbum idêntico no facebook. Eu juro que gostaria de me teletransportar toda vez que esbarro com elas na escada. Mas como isso ainda não é possível, né?

Todo esse clima bizarro que elas sempre deixavam no ar me fazia voltar no tempo. Quando eu ainda era uma novata naquele lugar. Minha mãe me obrigava a usar o uniforme que foi do primo de um vizinho. Adivinhem? Além de velho e ter alguns pequenos furos perto da gola, – segundo ela, quase imperceptíveis –  eles eram enormes. Esse tal primo, que também tinha estudado naquela escola há alguns anos, tinha o corpo bem maior que o meu. Não era gordo, mas vestia pelo menos dois números a mais. Não culpa minha família. Sei que naquela época as coisas eram difíceis. Papai tinha acabado de morrer e o os meus irmãos estavam fazendo o possível para colocar algum dinheiro em casa.

Consegui bolsa naquela escola graças a minha madrinha. Logo que fui para a primeira série, me vendo estudar no pior colégio da cidade, claramente com pena, fez de tudo para conseguir aquela tal vaga. Falou com a diretora. Uma antiga amiga, acredito. Mostrou minhas notas e pediu uma chance. Eu seria uma aluna modelo e faria todos os alunos se inspirarem ha-ha. A notícia positiva foi recebida com uma festa lá em casa. Todos diziam que eu teria um futuro diferente e orgulharia muito a família.

Confesso que na época nem entendia direito o que estava acontecendo. Só que daquele momento em diante, todas as minhas amigas não seriam mais da minha sala.

A primeira lista de livros ficou quase 500 reais. Lá tudo era pago. Até a merenda do intervalo. Minha mãe arrumou um dinheiro emprestado no primeiro ano, e nos outros, foi juntando a cada mês. Lembro que tínhamos um cofre de porquinho rosinha na estante da sala, ao lado porta retrato do meu pai. Para aquele lugar iriam então todos os trocos da casa. Pedi várias vezes para tomar picolé com algumas moedas. Não ia fazer tanta diferença. Mas minha mãe sempre negava e dizia imediatamente “picolé não te garante futuro, filha”.

Meu primeiro dia de aula foi assustador. Não consegui dormir na noite anterior. Acordei pelo menos seis vezes para ver se não tinha esquecido de colocar nada na mochila. Lápis, canetas, a mesma bolsinha do ano passado, cadernos de capa mole com a primeira folha devidamente decorada e uma maça para comer no intervalo. Adormeci bem tarde e acordei também meio tarde. Minha mãe fez questão de me deixar na porta. Acho que naquele dia ela se emocionou e deixou uma lágrima escapar. Juro que não fazia ideia do qual importante aquele momento era. Sorri, e enquanto caminhava mais depressa para não correr o risco de chegar depois o que o portão da entrada já tivesse fechado, disse quase gritando: “não esquece de me buscar, tá?” Bobagem, acho que naquele dia minha mãe contou os minutos para saber minha opinião sobre a escola.

Cheguei em cima da hora, e o sinal já estava tocando. Era uma música estranha. Percebi que era o sinal porque vi todos os alunos caminhando em direção a um prédio verde água. Tudo era tão enorme. Fiquei assustada quando vi que o uniforme das outras pessoas eram diferentes do meu. Talvez uma nova versão. Ótimo, agora todos saberiam que eu era novata só de olhar para mim. Até aquele momento, não fazia ideia do que fazer. Felizmente um funcionário da escola, que estava fechando o portão naquele momento, disse que eu precisava correr para o pátio e olhar nas folhas qual seria minha sala durante aquele ano.

Corri toda atrapalhada na direção que ele apontou. Desci um morrinho e logo cheguei em um pátio enorme, com piso e paredes amarelados. Notei que nas pilastras, haviam folhas. Tentei encontrar meu nome na lista bem rapidinho. Mas parece que existiam muitas Carolinas por ali. Quando finalmente encontrei, corri ainda mais rápido para o lugar que todos estavam indo. Nessa altura eu era a única aluna ainda fora de sala. Quando cheguei na porta, no segundo andar daquele prédio, engoli a saliva, respirei fundo e pedi permissão para entrar. A professora olhou com cara de reprovação. Existiam muitas regras por ali, e uma delas era não se atrasar na hora da entrada. Mas como era o primeiro dia e eu claramente era uma novata, ela relevou. Disse para eu entrar em silêncio e procurar um lugar.

Tinha sido assustador conversar e levar uma bronca da professora logo de cara. Mas foi ainda pior quando notei que a sala estava lotada e que absolutamente todos os alunos estavam olhando para mim. Notei naquele momento que meus colegas da antiga escola não pareciam em absolutamente nada com aqueles. Ao invés de estarem felizes por eu estar ali, todos pareciam me julgar. Encontrei um lugar na segunda fileira, perto do armário. Sentei e logo olhei pra frente tentando ignorar os olhares cochichos que surgiam em paralelo. Será que eles achavam que eu era surda?

Bom, com alguns dias de aula eu percebi que o problema não era exatamente esse. O tempo foi passando e cada vez mais eu me sentia um peixinho fora d’água. Na verdade eu me sentia um peixinho no espaço. Ao contrário do que eu pensei, ninguém veio puxar papo. Nos trabalhos em grupo da aula de inglês eu sempre sobrava e ia notificar, com um adesivo de loser na testa, que eu ainda não tinha encontrado um grupo. A professora, coitada, acabava sempre contando as equipes e me colocando no lugar que tinha menos pessoas. Quero dizer, se alguma amiga do grupo x faltava, aquilo queria dizer que a chata aqui entraria.

Juro que eu me esforçava. A cada ano eu tentava ser mais simpática, mais engraçada e até me arrumar melhor. Enfim, parecer um pouco mais com aquele novo universo. O problema é que a cada ano os grupos, já formados, se tornavam mais fechados. Eu sempre fazia amizade com os novatos que entravam no começo do ano. Torcia para que na tradicional divisão de salas, caíssem dois ou mais na minha turma. Desde então, na primeira semana de aula, fazia bilhetinhos especiais dando boas vindas e colocava na mesa deles.

Acho que aquela foi minha melhor ideia até hoje. Isso me garantiu anos menos solitários. A cada ano eu fazia novos amigos. Alguns deles, com o tempo, ou melhor, com as novas amizades, paravam de falar comigo com tanta frequência. Outras se tornavam bons amigos.

Eu sempre fui tímida. Não era estranha, como faziam questão de me apelidar, era apenas calada. Minha realidade era muito diferente daquelas pessoas. Talvez essa tenha sido uma maneira que encontrei de me defender. Só falar sobre mim, e minha situação por ali, para as pessoas que eu realmente confiava e julgava merecer. Ou seja, cinco ou seis pessoas durante todos esses anos.

Perto do ensino médio uma coisa bem chata começou a acontecer: as meninas da sala começaram a se tornar inimigas. Motivos? Garotos. Parece que a competição tomou conta do cérebro delas. Quem ficaria com o garoto mais bonito? Quem teria mais pretendentes nas festas? Quem receberia o depoimento mais fofo no orkut? Enfim, quem seria a mais popular e desejada do ano.

Acho que um motivo da maioria delas sempre ter me odiado um pouquinho é o fato de eu viver andando com os meninos. Depois de um tempo, me tornei amiga de quase todos – menos dos mais babacas que viviam me colocando apelidos pra fazer graça pra elas – os garotos da série. E dos que estavam uma no acima também. O que era ainda pior. Porque elas me viam andando com eles e faziam questão de dizer “que eu não tinha graça nenhuma”.

Bom, disso eu não posso discordar. Nunca fui de frescura. Escola pra mim, principalmente no ensino fundamental, não era desfile de moda. Eu nem tinha condição para ostentar isso. Prometi pra mim mesma que não deixaria aquele novo universo afetar meus planos e sonhos. Eu tinha que continuar tirando as melhores notas e conseguir passar no vestibular federal. Essa era a grande missão. Minha, da minha mãe e da minha madrinha, que infelizmente já foi pro céu.

Fico me perguntando se valeu a pena passar por tudo aquilo. Mas aí eu fecho meus olhos e tento não pensar dessa maneira. Superar tudo aquilo era como dizer obrigada, do meu jeito.

No ensino médio meu corpo começou a mudar rápido demais. Estiquei, emagreci e as ondas do meu cabelo começaram a ficar mais definidas. Eu odeio isso, mas todo mundo lá de casa diz que é o meu maior charme. Um pequeno update: agora curto rock internacional e não vivo sem fone de ouvido. Na aula, tento disfarçar colocando alguns fios na frente da orelha. Isso, lógico, é proibido por ali. Não sou de passar muita maquiagem, só um lápis preto e um gloss sem cor.

Todas essas mudanças, ao contrário do que vocês devem estar pensando, não me tornaram a garota mais bonita na turma ou atrairam a atenção de todos os caras daquele jeito. Eu uso all star e ainda tenho que ficar esperta para sobrar na formação de grupos. Desculpa pelo choque de realidade, mas essa coisa de ficar popular graças a aparência só acontece nos filmes e séries. Por aqui, se você fica “gostosona”, você só é mais odiada pelas meninas. Não que esse seja o meu caso.

Minha nova aparência só me fez ficar um pouco mais segura. Agora, eu acho meu All Star rabiscado um máximo e juro, não tem nenhum comentário na vida real ou na internet, que mude essa minha opinião. Estou estudando feito louca para o Enem (vocês também?) e não vejo a hora de passar no vestibular e ser a mais nova estudante de jornalismo da cidade.

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Coluna Depois dos Quinze na revista Capricho!
24/10/2012

Oi pessoal! Tô aqui para avisar que mais uma edição da revista Capricho chegou nas bancas, e que dessa vez, falei sobre um assunto bem legal na minha coluna (que fica na última página, tá?): como aceitar e aproveitar a época mais intensa da nossa vida, o colegial. Quem ainda não comprou, corre! Custa só R$4,99 e o texto é inédito.

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Adulta de primeira viagem
23/10/2012

Dizem que a vida adulta começa quando você termina a faculdade. É mentira. Nada supera o frio na barriga e a responsabilidade de estar prestes a enfrentar seu primeiro dia de trabalho. Principalmente quando essa grana pagará o lugar onde você vai dormir todos os dias e os seus prováveis programas de final de semana. Isso me faz lembrar dos planos que eu costumava fazer com minhas melhores amigas na sétima série. Nós teríamos a profissão dos sonhos, o namorado dos sonhos, o apartamento dos sonhos e dinheiro para fazer viagens pelo mundo periodicamente, e claro, combinarmos encontros. Já que nessa época estaríamos morando em países diferentes.

Bom, como vocês já devem ter sacado, não rolou. O ensino médio não foi o melhor momento da minha vida. Conheci um garoto e fiz algumas besteiras. Acho que dei trabalho demais para os meus pais. Talvez eu tenha sido a ovelha negra da família e meu vô tenha morrido com desgosto. Todos queriam saber qual seria o meu curso na faculdade, e só conseguia pensar no próximo episódio da minha série predileta.

Acho que não nasci com nenhuma vocação. Não sei escrever bem, detesto matemática e sangue me faz querer vomitar por cinco dias seguidos. Isso exclui 90% das profissões legais e emocionantes que existem. É, porque naquela época trabalhar com algo que tivesse rotina parecia inaceitável.

Primeiro fiz faculdade de administração. Desisti na metade. Aí tentei hotelaria. Dessa vez tinha que dar certo. Na época, todas as minhas amigas estavam formando e algumas até já tinham encontrado o amor de suas vidas. E eu morando na casa dos meus pais, com pôsteres colados na parede e uma latinha de Coca perdida em algum lugar do chão. Eu fingia que estava tudo bem. Mas na verdade eu queria morrer todos os dias só de pensar em passar algumas horas presa em uma sala com pessoas que pensavam completamente diferente de mim. Tranquei de novo e por último, tentei publicidade.

Com vinte e poucos anos você já viveu uma boa porcentagem da vida. Não o suficiente para saber o que fazer com ela, mas o bastante para se afastar de certas coisas e pessoas. Sabia muito bem que era privilegiada pela vida que levava, afinal de contas, meus pais nunca me obrigaram a pagar meus gastos. Mas ainda sim, faltava alguma coisa. As saídas no final de semanas eram divertidas, mas vazias. Os caras que conhecia na faculdade eram interessantes, mas eu vivia de saco cheio. Encarando cada acontecimento da minha vida como fosse uma obrigação. Não é legal viver assim. Alguma coisa precisava mudar. Foi aí que, logo depois da formatura, resolvi mudar de cidade e ir em busca de um trabalho que consegui graças a indicação do meu professor de marketing.

Minha nova cidade não fica tão longe de casa. Posso voltar, se quiser. Mas pela primeira vez na vida, sinto que estou vivendo minha própria história e não as consequências por deixar com que as coisas aconteçam por si só. Meu apartamento é pequeno e ainda faltam alguns móveis. Quero dizer, meu lar ainda não tem cara de casa. Minha vizinha é uma velhinha simpática que tem dois gatos de estimação. Não me acostumei com o fato de ter que andar pra lá e pra cá de metrô. Multidões me assustam. É meio assustador saber que as pessoas ao meu redor não me conhecem ou se importam comigo. Sentimento de filha caçula, né? Eu sei. Mas vai passar. Assim como o medo de dormir sozinha. O medo de altura em um prédio no décimo terceiro andar.

Bom, chega de papo. Falta pouco para minha estação. É o meu primeiro dia e eu estou vestindo meu vestido predileto. Maneirei na maquiagem e escolhi aquela sapatilha antiguinha que não machuca. Meu perfume tá ok, ninguém espirrou quando passou por perto. Juro. Ai, espera, é essa. Licença, vou descer. Obrigada! Próxima estação: Vila Mariana.

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Quando o “pra sempre” se torna um problema
23/10/2012

Quanto tempo deve durar o para sempre? Até que você ainda consiga se lembrar? Enquanto ainda realmente importa e te faz feliz de verdade? Talvez não exista uma resposta certa. Promessas são quebradas o tempo todo e mais cedo ou mais tarde, todos nós precisaremos fazer o mesmo. Ninguém entra em um relacionamento planejando seu final. Às vezes acontece, e seja por qual for o motivo, um dos lados tem que aprender do pior jeito, que é mesmo impossível controlar os sentimentos das pessoas que nos envolvemos nessa vida. Já falei. É o biologia. Nem todas as borboletas têm o mesmo tempo de vida.

Às vezes é inevitável. Nos apaixonamos perdidamente por nossas próprias lembranças. Cá entre nós, de longe, abstratas, elas parecem tão mais perfeitas e irresistíveis. São fotografias, bilhetes, presentes… Acho que de tanto revirar o passado acabamos bagunçando também presente e o futuro. Deixando de lado, em algum lugar que eu gostaria muito de saber onde é, tudo aquilo que passamos e jurávamos já ter superado. Tanto sacrifício para que de alguma forma, essa tal nostalgia faça algum sentido no final das contas, nos sintamos um pouco menos idiotas quando acompanhamos de longe, talvez via alguma rede sociais, cada passo que eles dão. Agora, me desculpem, mas vou cutucar as feridas. E as brigas? E as cobranças? E aquela vez que ele foi um estúpido e você fingiu que não era nada só para que as pessoas não descobrissem? Péssima notícia, todo mundo sabia. E aquela vez que você sentiu que precisava de um espaço? O convite que suas amigas fizeram e você teve que recusar.

Eu sei. Como já disse Leoni em “50 receitas”, o que dói mesmo não é o que ele fez de errado. É o que ele fez de certo. As flores, as risadas, a trilha sonora, os filmes que vocês assistiram juntos e tudo aquilo que nenhum outro cara do mundo vai conseguir fazer igual. Disso você está certa. Não vai acontecer de novo. Mas te garanto, nem se for com ele. As coisas mudam o tempo todo. Nós mudamos. As circunstâncias também. Não existe passado que interfira mais no futuro que o presente. E acredite, essa sua nova versão é pelo menos dez vezes mais esperta do que a antiga. Basta você olhar no espelho. Mas olha escutando aquela música que te faz dançar. Olha com o seu batom predileto que ele não gostava tanto assim. Olha com o seu vestido estampado mais bonito. Quando estiver pronta, deixe que te olhem, e perceba o que o destino separou para essa noite.

Ao contrário do que todo mundo diz, o fim não precisa ser triste. Não é como nos contos de fadas, onde a história deve acabar no momento em que a princesa encontra e se entende com príncipe. A boa notícia dos tempos modernos é que, em uma vida, podemos viver várias histórias. O importante não é que elas sejam eternas, mas sim, intensas e inesquecíveis. É essencial que cresçamos de alguma forma com cada uma delas. Por isso, pratique sempre que possível a introspecção. Veja o que deu certo e o que talvez tenha feito as coisas desandarem. Não aponte os erros ou acertos. Não encontre um culpado. Fazer as malas também é um jeito de organizar as coisas.

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A garota que veio com passado
14/10/2012

Engraçado. Você apareceu exatamente quando eu queria desaparecer. Eu te olhei de longe e achei que poderia ser um ótimo ponto final pra uma antiga história. Nós nos envolvemos e eu aos poucos fui te conhecendo. Decorando suas pintas e segredos. Seria hipocrisia dizer que não nos comparei com cada segundo do meu passado. Mas era diferente. Você realmente se importava com os detalhes. E isso era tão assustador que eu tinha vontade de ficar debaixo do edredom pra sempre brincando de fugir da realidade. Mas amanhecia e ela sempre voltava.

Naquela época eu estava quebrada no chão e você juntou aos poucos cada pedacinho da minha alma. Não criei expectativas. Fui deixando você me montar, me moldar, me abraçar. As pessoas diziam que nós fomos feitos um para o outro. Aquilo não fazia o menor sentido, mas eu adorava quando seu nome aparecia na tela do meu celular no meio da madrugada.

Ficar por perto era como dormir sem escovar os dentes. Eu gostava do risco, mas algo ainda me fazia voltar instantaneamente no tempo. Um aperto. Um espaço. Um voz. Um lugar dentro de mim onde você ainda não conseguia alcançar direito. Eu rezava para esses fantasmas pararem de me atormentar. Fechava os olhos e morria de medo de alguma coisa sair pela minha boca sem querer. Trocar os nomes e as datas.

Os dias foram se passando e cada vez eu me lembrava menos. Ainda me sentia a pior pessoa do mundo, mas acordar ao seu lado, enxergar o sol clareando o quarto pela manhã e ver o seu sorriso se aproximar da minha boca transformando-se em um beijo doce e demorado camuflava a culpa.

Lembra daquela vez que tinha certeza já ter te contado uma história secreta sobre minha infância? Não era você que tinha ouvido da primeira vez.

Porque diabos a ordem cronológica dos meus sentimentos nunca corresponde com a realidade? Queria poder dividir meu coração em dois. Tirar pra fora a parte infectada. Será que existe médico para isso? Inventaram o nome para essa doença? Tem cura? Eu venderia aquele colar com pedrinhas verdes que ganhei da minha mãe para pagar. Trocaria todas as coisas que posso guardar na gaveta da minha penteadeira por meia dúzia de certezas. Nem precisa tanto vai, por uma só.

Domingo passado estive frente a frente com o meu passado. Sinceramente não sei se estava pronta. Nossos olhos se cruzaram e por alguns minutos foi como se você nem tivesse existido. Queria ser Chronos. Foi tão difícil resistir e ouvir aquelas histórias. Eu poderia correr pra longe, mas fiquei ali, congelada, enfrentando o conjunto de moléculas que eu jurava ser o único que conseguiria me fazer feliz de verdade nessa vida. Quando as protagonistas dos filmes fazem isso parece tão mais fácil.

Eu achava que a álgebra era difícil. Que a prova final do terceiro ano de matemática tinha sido a coisa mais complicada que consegui resolver. Mas aí eu cresci e vi que certas questões em nossa existência exigem mais da gente do que algumas semanas de estudo. Colocar sentimentos e atitudes na balança não é tão simples, mas dessa vez o final da história foi diferente. Não voltei pra casa mais uma vez me sentindo uma idiota solitária que não sabe o que quer. Tudo por mim, por você, pelo que vem aí pela frente. Não vou deixar nossas vidas tomarem rumos opostos. Meu coração é estrábico, mas acho que conseguimos lidar com isso e com aquelas outras coisas que ainda vou te contar no caminho.

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