A novata
29/10/2012

Eu ainda odeio o jeito que alguns grupinhos do colégio me encaram no intervalo. Principalmente aquele das meninas-super-poderosas. Pois é, fizeram questão de dar esse nome ao grupo. Mas vai por mim, não tem nada de docinho e lindinho ali. Sim, todas elas fizeram uma tatuagem de flor no pulso para simbolizar a amizade. E claro, criar um álbum idêntico no facebook. Eu juro que gostaria de me teletransportar toda vez que esbarro com elas na escada. Mas como isso ainda não é possível, né?

Todo esse clima bizarro que elas sempre deixavam no ar me fazia voltar no tempo. Quando eu ainda era uma novata naquele lugar. Minha mãe me obrigava a usar o uniforme que foi do primo de um vizinho. Adivinhem? Além de velho e ter alguns pequenos furos perto da gola, – segundo ela, quase imperceptíveis –  eles eram enormes. Esse tal primo, que também tinha estudado naquela escola há alguns anos, tinha o corpo bem maior que o meu. Não era gordo, mas vestia pelo menos dois números a mais. Não culpa minha família. Sei que naquela época as coisas eram difíceis. Papai tinha acabado de morrer e o os meus irmãos estavam fazendo o possível para colocar algum dinheiro em casa.

Consegui bolsa naquela escola graças a minha madrinha. Logo que fui para a primeira série, me vendo estudar no pior colégio da cidade, claramente com pena, fez de tudo para conseguir aquela tal vaga. Falou com a diretora. Uma antiga amiga, acredito. Mostrou minhas notas e pediu uma chance. Eu seria uma aluna modelo e faria todos os alunos se inspirarem ha-ha. A notícia positiva foi recebida com uma festa lá em casa. Todos diziam que eu teria um futuro diferente e orgulharia muito a família.

Confesso que na época nem entendia direito o que estava acontecendo. Só que daquele momento em diante, todas as minhas amigas não seriam mais da minha sala.

A primeira lista de livros ficou quase 500 reais. Lá tudo era pago. Até a merenda do intervalo. Minha mãe arrumou um dinheiro emprestado no primeiro ano, e nos outros, foi juntando a cada mês. Lembro que tínhamos um cofre de porquinho rosinha na estante da sala, ao lado porta retrato do meu pai. Para aquele lugar iriam então todos os trocos da casa. Pedi várias vezes para tomar picolé com algumas moedas. Não ia fazer tanta diferença. Mas minha mãe sempre negava e dizia imediatamente “picolé não te garante futuro, filha”.

Meu primeiro dia de aula foi assustador. Não consegui dormir na noite anterior. Acordei pelo menos seis vezes para ver se não tinha esquecido de colocar nada na mochila. Lápis, canetas, a mesma bolsinha do ano passado, cadernos de capa mole com a primeira folha devidamente decorada e uma maça para comer no intervalo. Adormeci bem tarde e acordei também meio tarde. Minha mãe fez questão de me deixar na porta. Acho que naquele dia ela se emocionou e deixou uma lágrima escapar. Juro que não fazia ideia do qual importante aquele momento era. Sorri, e enquanto caminhava mais depressa para não correr o risco de chegar depois o que o portão da entrada já tivesse fechado, disse quase gritando: “não esquece de me buscar, tá?” Bobagem, acho que naquele dia minha mãe contou os minutos para saber minha opinião sobre a escola.

Cheguei em cima da hora, e o sinal já estava tocando. Era uma música estranha. Percebi que era o sinal porque vi todos os alunos caminhando em direção a um prédio verde água. Tudo era tão enorme. Fiquei assustada quando vi que o uniforme das outras pessoas eram diferentes do meu. Talvez uma nova versão. Ótimo, agora todos saberiam que eu era novata só de olhar para mim. Até aquele momento, não fazia ideia do que fazer. Felizmente um funcionário da escola, que estava fechando o portão naquele momento, disse que eu precisava correr para o pátio e olhar nas folhas qual seria minha sala durante aquele ano.

Corri toda atrapalhada na direção que ele apontou. Desci um morrinho e logo cheguei em um pátio enorme, com piso e paredes amarelados. Notei que nas pilastras, haviam folhas. Tentei encontrar meu nome na lista bem rapidinho. Mas parece que existiam muitas Carolinas por ali. Quando finalmente encontrei, corri ainda mais rápido para o lugar que todos estavam indo. Nessa altura eu era a única aluna ainda fora de sala. Quando cheguei na porta, no segundo andar daquele prédio, engoli a saliva, respirei fundo e pedi permissão para entrar. A professora olhou com cara de reprovação. Existiam muitas regras por ali, e uma delas era não se atrasar na hora da entrada. Mas como era o primeiro dia e eu claramente era uma novata, ela relevou. Disse para eu entrar em silêncio e procurar um lugar.

Tinha sido assustador conversar e levar uma bronca da professora logo de cara. Mas foi ainda pior quando notei que a sala estava lotada e que absolutamente todos os alunos estavam olhando para mim. Notei naquele momento que meus colegas da antiga escola não pareciam em absolutamente nada com aqueles. Ao invés de estarem felizes por eu estar ali, todos pareciam me julgar. Encontrei um lugar na segunda fileira, perto do armário. Sentei e logo olhei pra frente tentando ignorar os olhares cochichos que surgiam em paralelo. Será que eles achavam que eu era surda?

Bom, com alguns dias de aula eu percebi que o problema não era exatamente esse. O tempo foi passando e cada vez mais eu me sentia um peixinho fora d’água. Na verdade eu me sentia um peixinho no espaço. Ao contrário do que eu pensei, ninguém veio puxar papo. Nos trabalhos em grupo da aula de inglês eu sempre sobrava e ia notificar, com um adesivo de loser na testa, que eu ainda não tinha encontrado um grupo. A professora, coitada, acabava sempre contando as equipes e me colocando no lugar que tinha menos pessoas. Quero dizer, se alguma amiga do grupo x faltava, aquilo queria dizer que a chata aqui entraria.

Juro que eu me esforçava. A cada ano eu tentava ser mais simpática, mais engraçada e até me arrumar melhor. Enfim, parecer um pouco mais com aquele novo universo. O problema é que a cada ano os grupos, já formados, se tornavam mais fechados. Eu sempre fazia amizade com os novatos que entravam no começo do ano. Torcia para que na tradicional divisão de salas, caíssem dois ou mais na minha turma. Desde então, na primeira semana de aula, fazia bilhetinhos especiais dando boas vindas e colocava na mesa deles.

Acho que aquela foi minha melhor ideia até hoje. Isso me garantiu anos menos solitários. A cada ano eu fazia novos amigos. Alguns deles, com o tempo, ou melhor, com as novas amizades, paravam de falar comigo com tanta frequência. Outras se tornavam bons amigos.

Eu sempre fui tímida. Não era estranha, como faziam questão de me apelidar, era apenas calada. Minha realidade era muito diferente daquelas pessoas. Talvez essa tenha sido uma maneira que encontrei de me defender. Só falar sobre mim, e minha situação por ali, para as pessoas que eu realmente confiava e julgava merecer. Ou seja, cinco ou seis pessoas durante todos esses anos.

Perto do ensino médio uma coisa bem chata começou a acontecer: as meninas da sala começaram a se tornar inimigas. Motivos? Garotos. Parece que a competição tomou conta do cérebro delas. Quem ficaria com o garoto mais bonito? Quem teria mais pretendentes nas festas? Quem receberia o depoimento mais fofo no orkut? Enfim, quem seria a mais popular e desejada do ano.

Acho que um motivo da maioria delas sempre ter me odiado um pouquinho é o fato de eu viver andando com os meninos. Depois de um tempo, me tornei amiga de quase todos – menos dos mais babacas que viviam me colocando apelidos pra fazer graça pra elas – os garotos da série. E dos que estavam uma no acima também. O que era ainda pior. Porque elas me viam andando com eles e faziam questão de dizer “que eu não tinha graça nenhuma”.

Bom, disso eu não posso discordar. Nunca fui de frescura. Escola pra mim, principalmente no ensino fundamental, não era desfile de moda. Eu nem tinha condição para ostentar isso. Prometi pra mim mesma que não deixaria aquele novo universo afetar meus planos e sonhos. Eu tinha que continuar tirando as melhores notas e conseguir passar no vestibular federal. Essa era a grande missão. Minha, da minha mãe e da minha madrinha, que infelizmente já foi pro céu.

Fico me perguntando se valeu a pena passar por tudo aquilo. Mas aí eu fecho meus olhos e tento não pensar dessa maneira. Superar tudo aquilo era como dizer obrigada, do meu jeito.

No ensino médio meu corpo começou a mudar rápido demais. Estiquei, emagreci e as ondas do meu cabelo começaram a ficar mais definidas. Eu odeio isso, mas todo mundo lá de casa diz que é o meu maior charme. Um pequeno update: agora curto rock internacional e não vivo sem fone de ouvido. Na aula, tento disfarçar colocando alguns fios na frente da orelha. Isso, lógico, é proibido por ali. Não sou de passar muita maquiagem, só um lápis preto e um gloss sem cor.

Todas essas mudanças, ao contrário do que vocês devem estar pensando, não me tornaram a garota mais bonita na turma ou atrairam a atenção de todos os caras daquele jeito. Eu uso all star e ainda tenho que ficar esperta para sobrar na formação de grupos. Desculpa pelo choque de realidade, mas essa coisa de ficar popular graças a aparência só acontece nos filmes e séries. Por aqui, se você fica “gostosona”, você só é mais odiada pelas meninas. Não que esse seja o meu caso.

Minha nova aparência só me fez ficar um pouco mais segura. Agora, eu acho meu All Star rabiscado um máximo e juro, não tem nenhum comentário na vida real ou na internet, que mude essa minha opinião. Estou estudando feito louca para o Enem (vocês também?) e não vejo a hora de passar no vestibular e ser a mais nova estudante de jornalismo da cidade.

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E se
05/07/2011

Há um tempo atrás prometi que jamais estragaria tudo de novo. E então, me apaixonei por um cara, e essa cara foi você.

Bem, você me conhece, sou do tipo de garota que se encanta fácil, que se entrega e sempre espera demais, mas com a gente tudo aconteceu diferente. Não foi amor à primeira vista. Nem à segunda, ou terceira. Quando dei por mim você já estava do meu lado, me apoiando e abraçando forte nos momentos difíceis.  Amigos são amores sem beijos. Então, você me beijou. E nós fomos além.

Talvez ao dizer sim, eu tenha entrado em um labirinto onde a única entrada seja também a única saída. A cada caminho que sigo, cada escolha que faço, sinto como se estivesse mais longe de onde quero chegar. Do que eramos, do que jurávamos nos tornar.

Quero que entenda, que aquela vez não chorei porque quis dizer adeus ou porque deixei de acreditar no seu amor, aquelas lágrimas escorreram porque fiquei com medo. Com medo de acontecer de novo, mas não acontecer comigo. É que em meio a certeza da intensidade do meu amor, me perdi nos “E se…” que parava de imaginar.

Ao tentar resolver as coisas da minha maneira, estraguei tudo, de novo. Te contei meus planos e medos e isso te assustou. Lembro como se fosse hoje a cara que fez ao saber o que eu sentia em relação a tudo. Você foi covarde, mas eu fui injusta. Então, ninguém acertou ou errou. Foi falta de sorte.

Lembro que certa vez você reclamou que eu já não escrevia mais sobre a gente. E então naqueles dias passei horas tentando fazer com que algumas rimas fizessem sentido. Não consegui escrever nada.  Isso te machucou. Agora, mesmo sendo tarde demais, quero que saiba que só escrevo sobre coisas que me machucam ou que sinto falta. E agora, você esta fazendo essas duas coisas ao mesmo tempo.

E se você gostar do texto ou se nem se importar, por favor, não diga nada.
Se como você disse isso faz parte da minha imaginação, não quero uma resposta.
Se eu realmente inventei tudo isso, também posso inventá-la.

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Naquela outra noite
15/01/2011

Nós tínhamos acabado de chegar. Você avistou de longe seus amigos e me puxou em direção a eles como se eu fosse mais uma parte do seu corpo. Eu sorri e os cumprimentei como sempre. Enquanto você conversava sobre misturas de bebidas e maneiras de furar a fila eu imaginava como fugir daquele lugar sem parecer uma louca.

- Não tem suco? Não tem água? Ok. Uma Ice.

Do lado um casal beijando do outro um grupo de amigas fofocando – aquelas que falam da sua roupa e do suor na sua franja. Suor, calor e funk. Por que diabos as pessoas dançam um monte de palavrão com batidas? Mexa-se Bruna. Mexa-se. Tente parecer menos estranha.

- Amor, vou no banheiro tá?

Uma pobre garota vomitando no chão e a outra tentando salvar o que restou do lápis de olho com as pontas dos dedos. Será só eu estava me ali?

- Que ótimo, sem papel.

Eu me imaginei naquele momento em vários outros lugares. Na litoral, observando a lua ao lado de uma fogueira escutando você tocar violão. No cinema não prestando atenção no filme e beijando sua boca. Em casa abrindo a geladeira pra fazer qualquer besteira pra gente comer na cama.

- Ei querida, morreu aí dentro?

Você nem percebeu que eu voltei porque estava virando mais um copo de alguma coisa que tinha a mesma cor do meu esmalte. Aquele era o meu limite. O medo de te deixar ali sozinho era menor do que o medo de te deixar ali comigo. Eu não aguentaria por mais muito tempo – sem brigas.

- Amor, vamos ali pra fora comigo?

Suas mãos estavam na minha cintura e dessa vez eu estava te levando para algum lugar.

- Eu preciso ir.
- Agora? Você sabe que horas são? – Disse ele aumentando o tom de voz.
- Hora de voltar pra casa.

Eu estava discando para o táxi quando te vi voltar para a multidão.

Qualquer um diria que nós nunca tivemos nada a ver. Mas eu sabia. Você era o meu garoto e eu te amava em silêncio mesmo com tanto barulho ali fora. Mesmo com tantos idiotas tentando de convencer o contrário. Mesmo você se importando com tudo isso.

Mas eu era uma garota de sorte, você se importava.

Uma lágrima se formava em meus olhos, quanto te vi correr logo atrás do Táxi.
Você voltou pra casa junto comigo.
De mãos dadas e sorrindo.

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Vértices de um amor, Cap VI
15/10/2010

( Capítulo I / Capítulo II / Capítulo III / Capítulo IV/ Capítulo VI)

Dessa vez com o cachorro certo na cama!

OO único problema do meu pai estar em casa era o simples fato da minha mãe esquecer da minha existência. Ela sabia exatamente o quanto eu odiava acordar atrasada, mas esquecia toda vez que estava “ocupada demais” sendo feliz. Parece egoísmo, mas a ideia de crescer e ser independente me assustava muito. Em dias mais tristes, eu costumava me trancar no banheiro – o único lugar seguro e com chave da casa – só pra chorar encostada na porta sem que ninguém percebesse. Eu odiava parecer fraca. Odiava ouvir o meu irmão dizer que todos os meus problemas eram resolvidos com choro – quem dera.
Eu era do tipo de garota ‘durona’ que acumulava meses de angústia, para depois desabar por algum motivo idiota, quase sempre implicância feita pelo resultado de um bendito sexo sem prevenção da minha mãe – meu irmão. De alguma forma, meu humor estava sempre diretamente ligado com minha vontade de chorar. Eu começava a chorar por raiva, mas quase sempre terminava por amor.

Abri meus olhos naquela manhã sem acreditar que o final de semana já havia acabado, eu odiava as segundas e todas suas melancolias. Do meu quarto eu conseguia ouvir vozes da cozinha, mas não foi isso que me fez levantar. Eu já quase adormecia novamente, quando recebi uma lambida gelada e nojenta na minha mão direita que caia para fora da cama.

- Olá amiguinha! – Sorri enquanto pegava a cadelinha ainda sem nome no colo. Pelo menos alguém naquela casa me dava bom dia.

Meus pais estavam terminando de tomar o café quando surgi na cozinha com um sorriso de que-bom-que-vocês-lembram-de-mim!

- Já escolheu o nome dela? Disse meu pai sorrindo, provavelmente para quebrar o silêncio.
- Ainda não… Tem alguma sugestão? Perguntei para o meu pai, mas com a certeza que o meu irmão responderia.
- Sazuki. – Gritou o meu irmão confirmando minha tese.
- Ela não é um desses seus desenhos animados idiotas. Shiu!
- Filha! – Meus pais disseram em coral quando escutaram minha frase. Eles não queriam que eu fosse legal com ele aquela hora da manhã, queriam?
Fui para o meu quarto com um copo de leite e uma torrada na boca. Hora de desarrumar meu guarda-roupas, quer dizer, escolher uma roupa para ir a escola. Eu nunca tive o corpo perfeito, mas a maioria das roupas caíam bem em mim. Embora meus pais sempre falassem que puxei o porte do meu avô, eu nunca me considerei uma garota alta. A maioria das meninas da minha turma mediam quase um palmo a mais do eu. Mas, se meus pais queriam me chamar de alta, quem era eu pra impedir?
Minha cama já estava quase soterrada quando vi no fundo da gaveta uma de minhas blusas prediletas. Eu adorava estampas principalmente quando elas tinham alguma frase em inglês. Qual a frase daquela blusa? I Don’t Love You Anymore. Não que eu quisesse que o Phelipe visse. Não que fosse uma indireta. Era aquela, apenas aquela.

Eu não costumava abusar da maquiagem, mas não saía de casa sem um delineador. Isso meio que era minha marca registrada, ninguém da sala sabia passar como eu, era legal ser a única. – Isso até eu ensinar para a Alícia e ela usar diariamente e todo mundo reparar. Claro.

Quando me vi pronta no reflexo do espelho percebi que aquela Danie com olhar triste estava indo embora e deixando eu seu lugar a velha Danie de sempre. A Danie que amava ser observada.

Bolsa. Chave. Dinheiro. Celular. Livros.

- Tchau família feliz! – Disse enquanto descia as escadas sem olhar pra baixo. Eu adorava pensar que sabia de cor a distância de cada degrau. Louca eu?

Mesmo sem ter absolutamente nada aparentemente diferente das outras meninas da minha idade, as pessoas – em especial as crianças – daquela pequena cidade onde nasci pareciam não conseguir tirar os olhos de mim. Eu egocêntrica como era, amava isso.

Meus passos de casa até a escola sempre seguiam os compassos da música do meu fone de ouvido. Eu tinha uma paixão por lentas, então a pequena distância da minha casa até o colégio se transformava em trinta minutos de muitos pensamentos e olhares – ou desvios.

Tudo ficaria bem se naquela manhã, do outro lado da rua não estivesse minha melhor-amiga–piranha. Ela era linda e sabia exatamente como usar a beleza ao seu favor. Andava suavemente, mas ainda sim parecia uma daquelas magrelas modelos de passarela. Eu odiava isso. Nós nos conhecemos no jardim de infância, naquela época eu era extremamente tímida e ela era exatamente o contrário. Dupla perfeita? Até começar a competição. Ela amava tudo que eu amava primeiro, e eu não estou falando só do meu namorado. Eu a via como um reflexo – melhorado – meu. Seu cabelo sempre foi mais liso, mais cumprido, mais sedoso que o meu. Porque o meu corte caía tão melhor nela?

Continua.

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Vértices de um amor, Cap V
13/10/2010

( Capítulo I / Capítulo II / Capítulo III / Capítulo IV)

Os velhos tempos nunca voltam!

Todo mundo, querendo ou não, paga um preço quando começa a fingir que está feliz. Comigo não era diferente. Por mais que eu quisesse seguir em frente, aquelas frequentes conversas com Phelipe me tornavam cada vez mais dependente de lembranças. E não era apenas aquilo. Desde que tudo aconteceu, eu ainda não tinha tido tempo de sentir falta da minha – ex? – melhor amiga. Depois de mais de uma semana, aquele sentimento de raiva começou a se desgastar, e os seus conselhos começavam a fazer mais falta do que deveriam fazer. Nós nos conhecíamos desde sempre. Se aquela idiota não fosse o principal motivo de tantas lágrimas, ela me entenderia perfeitamente.
Enquanto eu observava a paisagem, Matt apareceu com o lindo sorriso de sempre e disse:
- Minha mãe não estava conseguindo encontrar uma de suas milhares de malas. Vamos?
- Claro. – Sorri enquanto levantava e limpava o meu vestido.
Caminhamos mais cinco minutos por uma trilha abandonada, embora o céu naquela manhã estivesse sem cor, o dia parecia perfeito para um mergulho sem muitas pretensões. Percebi enquanto conversávamos que Matt já não despertava em mim os mesmos sentimentos de sempre. Se antes ele era uma espécie de solução, naquele momento parecia mais incógnita com valor oculto. Eu estava cansada de tentar descobrir o resultado de tantas divisões e subtrações. Não me importava mais quantos vértices tinha aquele triângulo – que mais parecia quadrado – eu começava a querer ser apenas um ponto perdido no universo.
Conversávamos sobre algum assunto irrelevante quando finalmente chegamos a beira de uma linda lagoa. Ficamos lá sentados durante alguns minutos. Eu gostava de fechar os olhos e fingir que nada entre eu e Matt tinha mudado. Eu apenas escutava suas palavras e as entendia sem usar o coração. Aquele cara ainda era apenas o meu melhor amigo. Eu tinha vontade de gritar aquilo enquanto ele dizia que me amava de uma forma diferente, mas eu me mantinha em silêncio. Fazer ele sofrer ainda não era uma opção.
- Vamos mergulhar? – Disse ele enquanto tirava a camisa e exibia um corpo – graças à bebida da noite anterior – quase completamente desconhecido pra mim. Os meses de provável academia na Inglaterra e uma nova tatuagem que cobria quase todo o braço fizeram com que Matt ficasse ainda mais atraente. Se eu não o conhecesse tanto, ele provavelmente seria “o meu tipo.”

Aquela tarde passou sem que pudéssemos perceber.

Enquanto esperávamos seus pais já dentro do carro, encostei minha cabeça no ombro de Matt, eu estava realmente exausta. Ele vestia um moletom azul marinho e sua barba estava por fazer, o calor do seu corpo foi o que me manteve quente por aqueles longos minutos de silêncio. Eu já estava quase adormecendo quando percebi o carro andar. Era hora de voltar para casa.

- Te vejo amanhã? – Disse no ouvido de Matt enquanto ele tirava minhas malas do porta-malas.
- Como sempre. – Depois de um demorado selinho, acenei para os Hans e corri para a porta de casa.
Morar perto do centro tinha suas vantagens e desvantagens; meu novo affair seria o assunto de toda a rua. “Ela já terminou com aquele bonitinho?” Outra coisa me preocupava: Ter que descrever o final de semana para minha mãe. De alguma forma eu sempre voltava dos lugares de mal humor.

Eu ainda não tinha terminado de desmanchar minha mala quando o telefone de casa tocou.

- Alou? – Disse sem paciência enquanto descascava o esmalte preto que restava na unha.
- Filha é você? Que saudade… É o papai. – Por mais que meu já não fosse tão presente em minha vida, eu jamais esqueceria a voz dele.
- Oi Pai, por que você não volta logo pra casa? – Alguém precisava ser direta e dizer a verdade naquela casa.
- É uma longa história filha, mas eu já estou a caminho. Devo chegar em casa em algumas horas, e escute só, tenho uma surpresa pra você. – Bem que podia ser um novo coração, imaginei.
- Eu e mamãe sentimos sua falta. Não nos desaponte mais uma vez.
- E o seu irmão?
- Ah, ok… O meu irmão também. – Eu nunca me lembrava que tinha um irmão.
Desliguei o telefone e fui logo contar a novidade para minha mãe.

- Mããe… – Gritei enquanto me aproximava da porta do seu quarto.
- Filha, você estava aí? Quando você chegou? – Eu já me sentia arrependida por ter me manifestado.
Minha mãe não ficou tão animada como de costume quando disse que papai chegaria naquela noite. Ela provavelmente havia cansado de criar expectativas e simplesmente ter que engoli-la com o vento em seguida. Meus pais se amavam, disso eu não tinha dúvida, mas tanto trabalho fez com que a distância adormecesse o amor que sentia um pelo outro. Uma pena.

Depois de um banho quente e algumas palavras escritas e logo apagadas no vapor que se formava no espelho do banheiro eu me sentei na frente do computador enquanto terminava de pentear o meu longo cabelo. A internet não estava funcionando, meu irmão provavelmente havia aprontado uma das suas. Sem internet, me senti tentada a bisbilhotar algumas imagens e históricos que sobraram da minha última operação sem-passado.

24/03/2010 23:33:55 De Phelipe para Danie:

Oi Meu amor, como você está? Vi sua mensagem agora e estou com pena de ligar e te acordar. Não tenha medo de me perder, eu nunca deixarei você sozinha. Pare com essa mania de ver adeus onde só existe eu já volto. Eu estou deixando sinais de despida para você.  Odeio te ver insegura. Eu sou viciado em Danoni, esqueceu?  Te vejo amanhã cedo na aula. Guarda meu lugar se ler isso ainda hoje.

Eu ficava imaginando se quando ele escreveu aquilo ele já não gostava de mim, eu ficava imaginando se um dia ele já havia realmente gostado de mim. Aquele sorriso das fotos parecia tão verdadeiro – e eu parecia tão idiota.

Eu já quase adormecia quando escutei a voz rouca do meu pai. Muitos beijos, abraços e uma inesquecível surpresa: um lindo vira-lata branco e preto que ele havia encontrado abandonado na estrada. Aquilo não era um novo coração, mas era um motivo para eu sorrir de verdade naquele resto de noite. Mesmo estando sempre longe, meu pai sabia como me fazer feliz.

Era realmente muito bom estar perto de um homem que me amava de verdade sem esperar nada por isso.

Deixei meus pais e meu irmão conversando na cozinha e levei o meu mais novo amigo para o quarto. Aquele pequeno animal ainda sem nome escutaria muitos desabafos naquela noite.

Continua.

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