Textos de amor

O tempo que me dei

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Quando leio um texto meu bem antigo fico tentando lembrar do momento exato em que o escrevi. Grande parte dos meus registros pessoais foram feitos em momentos difíceis ou solitários da minha vida e a escrita foi uma forma que encontrei de superar cada um deles. Sempre escolhia sofrer até o último minuto. Até a última gotinha de lágrima descer. Acho que para ter absoluta certeza de que tentei entender e lidar com a situação de todas as maneiras. Que tirei todas as conclusões possíveis de experiências não tão bem sucedidas.

Foi assim que eu descobri minha grande paixão. Foi assim que eu criei esse blog e comecei uma carreira como autora, então, não me arrependo. Normalmente crescemos muito mais quando não estamos nos nossos melhores dias, então encarar tudo mergulhando de cabeça me fez ser exatamente quem sou hoje.

De todas as pequenas e grandes mudanças dos último 7 anos, acho que a principal aconteceu recentemente. Não tem a ver com o meu novo corte de cabelo ou meu novo relacionamento, mas assim algo que aconteceu antes disso.

Eu me dei um tempo. Um tempo sem precisar entender cada coisa que acontecia ao meu redor. Um tempo sem me envolver de verdade com ninguém ou reviver algo que não existe mais. Um tempo sem me importar com o que as pessoas achavam que eu deveria fazer. Um tempo seu neura com meu peso, com as pontas do meu cabelo ou com as roupas que escolhia pra usar ao longo do dia. Um retiro de mim mesma e de todas convenções que criei pra ser feliz.

Imagine um livro de colorir. Eu vivia pintando o meu da mesma cor. Toda vez. Aí eu passei uns dias olhando para a página ainda não preenchida e vi que eu poderia colocar todas as outras cores se realmente quisesse. E foi exatamente isso que fiz.

Comprei passagens com destinos diferentes para os meus próprios pensamentos. Levei meu corpo para passear em novos endereços e deixei o acaso fazer o seu trabalho. O tempo passa de um jeito diferente quando entendemos que ele está ao nosso lado. Porque nem tudo que queremos é o que precisamos. E tudo aquilo que eu precisava eu já tinha.

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O amor, a paz e você

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É infinitamente mais fácil descrever um amor que machuca. É até libertador colocar pra fora em forma de texto um sentimento que não faz bem. Quase como um falso decreto de que ainda temos o controle da situação ou ao menos a consciência de que aquilo é algo extremamente tóxico pra gente. Bem lá no fundo quem escreve sobre o que sente tem um pouco de medo da felicidade. A calmaria leva embora a inspiração, porque escrever sobre a paz quase sempre é deixar a folha ou tela em branco. É não precisar definir absolutamente nada. Sair de casa e esquecer a janela aberta pra poeira dançar ao ritmo do vento.

Mas agora é diferente. Eu não tenho mais mais medo.

Sem pistas e jogos, prometi. Não quero ter razão ou alimentar meu orgulho com a certeza de que eu sou a pessoa da relação que menos se envolveu até agora. Todas as minhas teorias deixaram de fazer sentido quando te conheci, então nada mais justo que deixar as cartas na mesa e admitir de uma vez que você me ganhou. Derrubou o muro que construí em volta de mim. A saída no final das contas não era destruir tijolo por tijolo, curar trauma por trauma, mas sim me fazer lembrar de como é bom admitir cada fraqueza ao lado de alguém que continua me amando por dentro e por fora. Como eu era, como me tornei e como eu desejo ser amanhã.

O que eu mais gosto na gente é a tranquilidade. Seu amor me deu de presente bons pensamentos e agora é como seu eu tivesse um refúgio dentro da minha própria mente. O mundo lá fora pode estar desmoronando, mas quando eu fecho os olhos continuo vendo seu sorriso em câmera lenta ou lembrando do tom da sua voz. Eu adoro o jeito que você fala. Most of the time, olhando nos meus olhos e me fazendo sentir a garota mais sortuda do mundo.

As pessoas dizem que nós combinamos porque somos exatamente iguais, mas a verdade é que você faz o melhor de mim vir à tona. Como quando estou perto da minha família ou viajando para algum lugar novo. Simplesmente não há espaço ou tempo para coisas ruins.

Apesar de eu ter a sensação de que nos conhecemos há muito tempo, sei que esse é só o começo e eu não faço ideia do que o destino separou pra gente. Gosto de imaginar que os nossos sonhos jamais vão conseguir nos distanciar porque de alguma forma nos cruzamos aqui nessa cidade graças a eles. Você só de passagem e eu de mudança. Precisávamos de um bom motivo pra ficar, então, nos encontramos.

Não quero que o tempo passe rápido demais, mas isso acontece com frequência quando você está por perto. É como se a distância entre o “estou chegando” e o “adorei ficar com você” coubesse num abraço, mas a verdade é que cada momento tem feito toda diferença pra mim. Sendo assim, obrigada por me mostrar um novo caminho e topar seguir em frente. Minha vida e minha sala são igualmente bagunçadas, como você já deve ter reparado, mas fiz questão de reservar um espaço especial pra você. Nesse texto, ao meu lado e onde estivermos amanhã.

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O primeiro dia

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Na virada de ano eu fechei meus olhos e enquanto os fogos barulhentos iluminavam o céu, fiz um único desejo. Não pedi dinheiro, não pedi viagem e também não pedi sucesso. Pedi uma boa companhia pra estar ao meu lado enquanto batalho e conquisto aos pouquinhos cada uma dessas coisas. Não pedi um amor pra exibir e provar pra todo mundo que eu ainda tenho um coração. Pedi alguém que fizesse minhas músicas preferidas terem um pouquinho mais de sentido quando as escuto antes de dormir.

Não pedi um amor pesado que me fizesse entrar num labirinto como da última vez. Não queria matéria prima para o meu trabalho, muito pelo contrário, queria alguém que me fizesse esquecer dele durante alguns dias da semana. Pedi um novo personagem pra minha história, sabe? Um novo capítulo com novos aromas, risadas e erros. Alguém realmente interessado no que sou, não no que posso vir a proporcionar. Nem tão superficial, nem tão profundo assim. Nem tão experiente, nem tão imaturo. Um cara com boas histórias, mas sem um passado que me deixe meio invisível na maior parte do tempo.

Desejei alguém pra mandar aqueles vídeos fofos de cachorro que encontro na internet ou sei lá, mostrar o quanto minha filhote cresce a cada dia. Alguém que enxergasse a vida de um jeito meio parecido que o meu ou alguém que me fizesse mudar completamente de ideia. Alguém pra odiar o verão comigo e fazer a tradicional contagem regressiva pro inverno chegar.

Todos ainda estavam gritando e se abraçando quando abri os olhos pela primeira vez em 2015. Era ótimo estar perto dos meus amigos, mas confesso que senti uma pontadinha de angústia quase sufocante. Olhei pra fora para tentar disfarçar e pensar em outras coisas. A vista da sacada continuava tão linda quanto no ano anterior. Prédios bem espremidinhos para caber todas as pessoas que assim como eu decidiram em algum momento da vida que viver aqui era a melhor opção. Provavelmente a maioria delas vive se questionando se foi ou não uma boa ideia.

Seria legal se elas se encontrassem.

Foi o que pensei quando entrei no táxi e olhei as ruas desertas que iam sumindo a cada esquina. São Paulo sem as pessoas não parece São Paulo. São os momentos compartilhados por ali é que vão dando cor, textura e beleza aos bairros. Mesmo depois de tanto tempo, cada um deles é especial por motivos diferentes. Até o que escolhi viver. O caminho de sempre, o museu e as árvores, me fez perceber o quanto apesar de tudo, aquele lugar havia se tornado familiar pra mim. No final das contas era bom estar ali. Eu precisava mesmo entender e viver um bocado de coisa antes de estar realmente pronta de novo.

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Um novo lugar para escrever histórias

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Às vezes escrever num lugar novo é estranho. É como se eu não me sentisse à vontade o suficiente pra deixar que descubram o que tenho pensado. Como se as paredes brancas ao meu redor pedissem por novas histórias e não as lembranças que voltam de vez em quando antes de dormir. Não sei se são boas o suficiente pra cá. Acho que essa é a parte interessante de se mudar. Não há nenhuma velha recordação presa nos cômodos. Um espaço vazio à disposição do destino e de todas as coisas que podem dar errado pra dar certo depois. Ou ao contrário. Sempre ao contrário.

Eu diria que esse último ano não foi o ano dos sentimentos. Isso me preocupou um pouco lá no início, porque eu sempre fui propícia a eles, mas isso também me libertou de alguma forma. Não vale a pena esperar por muito tempo alguém aparecer pra sacudir as coisas. Há outras formas de se movimentar. Minha mãe sempre disse que pra encontrar alguma coisa você precisa organizar tudo que provavelmente está em volta daquilo. Não adianta fazer bagunça por cima de bagunça. Só piora. Acho que a vida da gente também é meio assim. Você precisa ir aos pouquinhos até encontrar o que procura ou ao menos deixar espaço livre pra ter certeza de que realmente é hora de buscar em outro lugar.

E depois? Se interesse mais pela história dos outros. Seja real ou ficção. Livros ajudam a ver as coisas de uma perspectiva diferente. Filmes, séries e novos amigos também. Quando você finalmente descobre que nem tudo gira em torno dos seus problemas, que coisas mais sérias e mais leves acontecem o tempo todo ao seu redor, fica mais fácil deixar pra lá. Quando você se dá conta de que desabafa sobre a mesma coisa há meses talvez seja um sinal de que você precisa parar de dizer e começar a ouvir. Prestar atenção em outras coisas ao invés de apenas tudo aquilo que seu coração acumulou nos últimos meses.

Afinal, você quer respostas ou que as pessoas concordem com suas perguntas?

Ter histórias não resolvidas não te faz uma pessoa mais interessante, misteriosa e profunda. Te faz uma pessoa sem tempo e disposição pra vida. Falta vontade de abrir a janela e enxergar um monte de coisas que continuam acontecendo diariamente independente de você. Poderia ser melhor. Poderia ser pior. Só não pode é ser do mesmo jeito pra sempre.

Provavelmente você precisará de um tempo pra descobrir isso. Ler um texto não muda as coisas, outras atitudes assim. Esse é só tirar a poeira e também me lembrar lá na frente como é começar de novo pela milésima vez.

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