Textos de amor

O primeiro dia

luzes-sp

Na virada de ano eu fechei meus olhos e enquanto os fogos barulhentos iluminavam o céu, fiz um único desejo. Não pedi dinheiro, não pedi viagem e também não pedi sucesso. Pedi uma boa companhia pra estar ao meu lado enquanto batalho e conquisto aos pouquinhos cada uma dessas coisas. Não pedi um amor pra exibir e provar pra todo mundo que eu ainda tenho um coração. Pedi alguém que fizesse minhas músicas preferidas terem um pouquinho mais de sentido quando as escuto antes de dormir.

Não pedi um amor pesado que me fizesse entrar num labirinto como da última vez. Não queria matéria prima para o meu trabalho, muito pelo contrário, queria alguém que me fizesse esquecer dele durante alguns dias da semana. Pedi um novo personagem pra minha história, sabe? Um novo capítulo com novos aromas, risadas e erros. Alguém realmente interessado no que sou, não no que posso vir a proporcionar. Nem tão superficial, nem tão profundo assim. Nem tão experiente, nem tão imaturo. Um cara com boas histórias, mas sem um passado que me deixe meio invisível na maior parte do tempo.

Desejei alguém pra mandar aqueles vídeos fofos de cachorro que encontro na internet ou sei lá, mostrar o quanto minha filhote cresce a cada dia. Alguém que enxergasse a vida de um jeito meio parecido que o meu ou alguém que me fizesse mudar completamente de ideia. Alguém pra odiar o verão comigo e fazer a tradicional contagem regressiva pro inverno chegar.

Todos ainda estavam gritando e se abraçando quando abri os olhos pela primeira vez em 2015. Era ótimo estar perto dos meus amigos, mas confesso que senti uma pontadinha de angústia quase sufocante. Olhei pra fora para tentar disfarçar e pensar em outras coisas. A vista da sacada continuava tão linda quanto no ano anterior. Prédios bem espremidinhos para caber todas as pessoas que assim como eu decidiram em algum momento da vida que viver aqui era a melhor opção. Provavelmente a maioria delas vive se questionando se foi ou não uma boa ideia.

Seria legal se elas se encontrassem.

Foi o que pensei quando entrei no táxi e olhei as ruas desertas que iam sumindo a cada esquina. São Paulo sem as pessoas não parece São Paulo. São os momentos compartilhados por ali é que vão dando cor, textura e beleza aos bairros. Mesmo depois de tanto tempo, cada um deles é especial por motivos diferentes. Até o que escolhi viver. O caminho de sempre, o museu e as árvores, me fez perceber o quanto apesar de tudo, aquele lugar havia se tornado familiar pra mim. No final das contas era bom estar ali. Eu precisava mesmo entender e viver um bocado de coisa antes de estar realmente pronta de novo.

42+ comentários

Um novo lugar para escrever histórias

interior-bruna-vieira

Às vezes escrever num lugar novo é estranho. É como se eu não me sentisse à vontade o suficiente pra deixar que descubram o que tenho pensado. Como se as paredes brancas ao meu redor pedissem por novas histórias e não as lembranças que voltam de vez em quando antes de dormir. Não sei se são boas o suficiente pra cá. Acho que essa é a parte interessante de se mudar. Não há nenhuma velha recordação presa nos cômodos. Um espaço vazio à disposição do destino e de todas as coisas que podem dar errado pra dar certo depois. Ou ao contrário. Sempre ao contrário.

Eu diria que esse último ano não foi o ano dos sentimentos. Isso me preocupou um pouco lá no início, porque eu sempre fui propícia a eles, mas isso também me libertou de alguma forma. Não vale a pena esperar por muito tempo alguém aparecer pra sacudir as coisas. Há outras formas de se movimentar. Minha mãe sempre disse que pra encontrar alguma coisa você precisa organizar tudo que provavelmente está em volta daquilo. Não adianta fazer bagunça por cima de bagunça. Só piora. Acho que a vida da gente também é meio assim. Você precisa ir aos pouquinhos até encontrar o que procura ou ao menos deixar espaço livre pra ter certeza de que realmente é hora de buscar em outro lugar.

E depois? Se interesse mais pela história dos outros. Seja real ou ficção. Livros ajudam a ver as coisas de uma perspectiva diferente. Filmes, séries e novos amigos também. Quando você finalmente descobre que nem tudo gira em torno dos seus problemas, que coisas mais sérias e mais leves acontecem o tempo todo ao seu redor, fica mais fácil deixar pra lá. Quando você se dá conta de que desabafa sobre a mesma coisa há meses talvez seja um sinal de que você precisa parar de dizer e começar a ouvir. Prestar atenção em outras coisas ao invés de apenas tudo aquilo que seu coração acumulou nos últimos meses.

Afinal, você quer respostas ou que as pessoas concordem com suas perguntas?

Ter histórias não resolvidas não te faz uma pessoa mais interessante, misteriosa e profunda. Te faz uma pessoa sem tempo e disposição pra vida. Falta vontade de abrir a janela e enxergar um monte de coisas que continuam acontecendo diariamente independente de você. Poderia ser melhor. Poderia ser pior. Só não pode é ser do mesmo jeito pra sempre.

Provavelmente você precisará de um tempo pra descobrir isso. Ler um texto não muda as coisas, outras atitudes assim. Esse é só tirar a poeira e também me lembrar lá na frente como é começar de novo pela milésima vez.

64+ comentários

Continue não me levando tão a sério assim

texto-escola
Você me perguntou porque eu havia parado de escrever sobre as coisas que sinto. Arregalei os olhos como se estivesse surpresa. Aquela era uma questão recorrente, de fato, mas eu não achei que estivesse tão óbvio assim. Dei de ombros e disse em outras palavras que a culpa era da sua falta de interesse. Quero dizer, textos como esse continuaram nascendo na minha mente durante todas as noites de insônia. Estou absolutamente familiarizada com as incógnitas que preenchem esses parágrafos, mas cansei do drama. Não quero mais impressionar ninguém. Nem o espelho.

Te culpo um pouco por ter roubado minha intensidade corriqueira. Mas são tantas fases e depois de você foram tantos chefões quase invencíveis. A tal da inocência a gente perde com a vida e as lições do cotidiano nos ensinam a preservar o tempo que sobra. Foi assim que me dei conta de que às vezes é mais fácil simplesmente deixar a dor na forma mais bruta. Sem críticos ou curiosos que opinam sobre as escolhas que fiz e a profundidade das cicatrizes que ficam.

Algumas coisas ainda me assustam e não sei se vai fazer sentido dizendo assim, mas elas é que me fazem lembrar de você. Será que ainda compartilhamos da mesma estranheza do mundo ou nos transformamos em velocidades tão diferentes ao ponto de nos estranharmos? Talvez eu nunca descubra.

Das vontades que tive, a única que sobreviveu ao tempo é a de dizer um monte de besteira sem ter certeza e não me importar com as consequências, como costumava ser nos intervalos das aulas de sociologia no caminho até a cantina. Você parecia me conhecer tão bem ao ponto de não me levar tão a sério o tempo todo. Ouvia minhas teorias e pedia bis. Nunca mais encontrei alguém que fizesse isso tão bem.

53+ comentários

O que o tempo faz com a gente

o-que-o-tempo-faz-com-a-gente

Por algum motivo desconhecido fui parar nos primeiros posts publicados aqui no blog. Mais de cinco anos se passaram desde o dia que resolvi desabafar pro mundo o que apertava meu peito e não me deixava dormir. Eu ainda lembro os motivos, geralmente tenho que falar sobre isso quando me perguntam como tudo começou, mas é estranho imaginar que um dia fui aquela garota. Somos Brunas completamente diferentes agora.

A melhor – e também pior – parte de escrever é que você nunca se livra completamente de um sentimento ou pensamento. Eles ficam eternizados ali, esperando alguém que tá passando por aquilo ler e se identificar. Isso é legal. Esperando você voltar só pra jogar na sua cara o quanto aquela era uma versão easy dos verdadeiros problemas que surgiriam na próxima esquina.

Sei que os dramas da adolescência vão se dissolvendo aos pouquinhos nos compromissos e obrigações da vida adulta, nas experiências e desilusões, mas é sempre um choque voltar lá no começo e lembrar que um dia a gente viu a vida daquele jeito e jurava, de pé junto, que sabia das coisas. Que amava de verdade. Que tinha todas as respostas. Um plano infalível pra realizar todos os nossos sonhos. Pfffff.

Não vou mentir. Dessa ingenuidade eu realmente sinto falta. As coisas são mais simples quando você não tem a menor ideia do que tá fazendo. Sem lembranças ruins a gente não tem o que temer, né? As músicas são só músicas. As ruas são só ruas. A hora de dormir é a hora de dormir e pronto.

Às vezes penso que eu costumava ser mais corajosa e impulsiva. Outras horas percebo que aprendi a me preservar mais. Drama dá audiência, mas eu já não quero fazer tanto barulho. Agora é mais difícil lidar com algumas coisas porque tá tudo mais exposto. Minhas prioridades mudaram. O sentimento, matéria bruta de parte do meu trabalho, tá escondido num lugar onde é difícil pra caramba de alcançar. Sei que em algum momento eu mesma o coloquei lá, então tento não colocar a culpa em ninguém. Todo mundo tem um esconderijo. Ele só vai ficando mais cabalístico com o tempo. A sorte é que algumas pessoas não desistem nunca de nos ajudar a chegar lá. Nunca estamos completamente sós. Ainda bem!

36+ comentários