Entre Aspas

Entre aspas: Basta um enter

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Algumas coisas me intrigam muito. Sou usuária das redes sociais, porém não sou dependente. Conheço muita gente viciadíssima. Eu uso – e muito – para divulgar meu trabalho e estar mais perto de quem gosta de me ler. Faz alguns dias que estou sem celular (mudança de operadora, precisa ter o raio de um código, etc.,etc., etc.) e estou vivendo lindamente, obrigada. Não tem nada melhor do que ficar incomunicável. Sem aquela obrigação e/ou curiosidade de checar emails de cinco em cinco segundos. Sem aquela paranóia de verificar Twitter e Facebook. Quem quiser me achar vai ligar para a minha casa. E quem tem o meu telefone de casa são só familiares e amigos chegados. Fora o telemarketing, of course.

Acho que as redes sociais invadiram a intimidade de todo mundo de uma forma bem assustadora. Até que ponto as pessoas estão vivendo suas vidas de fato? Até que ponto a carência aperta? Até que ponto a solidão grita e pede ajuda? Não sei. Vejo uma quantidade absurda de gente carente querendo um pouco de colo. Vejo quem dá indireta. Quem quer ser notado. Quem quer um elogio. Quem quer uma palavra de carinho. E, também, quem quer aparecer a todo custo. Tem gente que passa do limite e faz a exposição da figura de um jeito inadequado.

Não quero saber se você está doidão ou se sua calcinha é pequena demais. E também não quero detalhes da sua vida sexual. Tudo precisa ter limite. Você pode não ser uma vadia, mas se fala e age como uma, me desculpe, mas imagem é uma coisa que a gente constrói. Você pode até não ser um canalha, mas se fala um monte de babaquice é isso que pensarão de você. A gente deve cuidar com o que fala. Mas principalmente com o que fazemos com nós mesmos.

Na internet, ninguém te vê. As pessoas sabem de você pelo que você diz. Pelo que mostra. Tem gente que quer ser um personagem. Tudo bem, cada um sabe o que faz da sua vida. Mas é importante saber se respeitar. Porque na internet as pessoas te julgam o tempo todo (na vida real também, é ou não é?). Acho que não dá pra “cagar e andar”, afinal, ninguém vive sozinho. E é justamente isso que faz todo mundo tuitar loucamente: a solidão. A necessidade de dizer para o mundo coisas que suas paredes não ouvem.

Muitos deixam de viver a vida real pra viver a virtual. Se escondem, colocam suas carências, traumas e urgências em um buraco fundo. Tentam não enxergar a vida lá fora. Sei de casos de pessoas tímidas que na internet snao incrivelmente diferentes. Sei de casos de gente com dificuldade de relacionamento, dificuldade de se aceitar. E ali no ponto com tudo é mais simples e rápido. Basta um enter.

Eu adoro tuitar na sala de espera. E, confesso, adoro fazer participação na novela. Explico: fico tuitando sobre a novela. Não é sempre, é só quando preciso me expressar. De vez em quando tenho essa necessidade de expressão tosca. Uso Facebook para falar com quem não vejo há tempos, para reencontrar pessoas, para falar com quem gosta dos meus livros e textos. É uma troca que enriquece. Através do Twitter, divulgo meus livros, minha linha de produtos, meus textos, meus projetos. E só. Ninguém sabe se me drogo, se transo, onde moro. Ninguém sabe do meu relacionamento. Ninguém sabe quem é meu amigo. As pessoas sabem apenas o que quero que saibam. E é assim que lido com minha vida virtual e real. Porque nem todo mundo é amigo, nem todos torcem por você, nem todos ficam felizes com sua felicidade e sentem compaixão pela sua infelicidade. Simple like that.

Se eu viajo para a casa da minha sogra ou dos meus pais, posso até tirar foto do mar, da serra ou de algum lugar bonito, como um parque ou restaurante. E só. Não entendo quem viaja para um lugar que nunca foi, para outro país, quem conhece outra cultura e fica postando fotos adoidado. Parece que essas pessoas querem viver para os outros. Querem mostrar olha-como-sou-feliz-olha-como-curto-a-vida. Curta a sua vida. Aproveite sua viagem. Viva cada segundo. Tire fotos, sim. Mas viva o momento. Poste as fotos na volta. Descanse, desligue da internet, do mundo. Essa é a minha opinião. Em breve, vou fazer uma viagem linda. E não vou levar celular. O máximo que farei é mandar email para pais e sogros chegamos-e-está-tudo-bem. O máximo que farei é mandar email para o hotel que minha cadelinha ficará para saber se ela está bem. Quando saio de férias eu gosto mesmo é de desligar de tudo.

Existem riscos virtuais. Vejo um povo dando telefone, endereço, informações que a gente não dá assim, pra qualquer um. Falta se preservar um pouco. Preservar a intimidade. Eu brinco dizendo o seguinte: não é porque posto foto da minha cadelinha ou porque digo que preparei um risoto de aspargos que você me conhece. Não. Sou mais do que uma foto, mais que um risoto, mais do que uma reclamação de loja, mais que meus livros, mais que meus textos, mais do que uma tela. Tenho carne, osso, coração. E isso ninguém vê, só quem convive comigo todos os dias. Só quem já olhou no meu olho.

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Entre aspas: Encontro!

Quando me encontrei comigo, eu estava de passagem. Gostei tanto de quem conheci que resolvi andar junto, lado a lado, dentro.Eu introjetei em mim aquela pessoa que, finalmente, não estava mais vivendo levianamente, mas participando verdadeiramente da realidade. Foi estando muito lúcida que pude me embriagar de arte e deixar minha imaginação inventar os caminhos que ela trilharia. Conheci paisagens, às vezes, muito familiares, mas o meu olhar era inédito.
Não sou mais imediatista quando me faço companhia, pois essa nova pessoa respeita o seu próprio tempo.Por isso, também é preciso evitar alguns lugares, pessoas, antigos hábitos e pensamentos.

O passado só me cabe para servir como base para o que tenho me tornado. Cada dia eu amanheço numa página em branco e vou dormir numa outra cheia de coisas que escrevi e vivenciei. A única garantia é que nem sempre encontro o que procuro, mas sempre busco o estado e o lugar mais confortáveis para mim. Eu mereço experienciar esta fascinação pela vida e a liberdade de ser exuberante e transformar o chão em céu, o mar em útero, meu corpo em Templo. Respeito os que vivem de outro modo, porque meu caminho não é o certo nem o único, é o que eu escolhi para mim quando lancei mão do meu livre arbítrio.

E nasci apaixonada pelo amor, mas só agora, me fazendo companhia, é que ele deixou de ser uma palavra para se tornar uma experiência. Sou muito grata por estar na esquina aonde eu estava passando e por ter me dado a mão…Caminhamos juntas: eu comigo mesma!

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Entre aspas: Mulheres inteligentes e caras babacas!

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Toda mulher que se preze já se apaixonou por um babaca. A história é quase sempre a mesma, o final também. A gente conhece um cara, ele se mostra doce, maravilhoso e bem resolvido. A gente – encantada – guarda a intuição no fundo da gaveta, veste o melhor decote (e o melhor sorriso) e sai linda, leve e solta para mais um capítulo cheio de frases mal contadas, celular desligado e eventuais sumiços. Verdade seja dita: a gente sente que tem alguma coisa errada, mas acaba fazendo vista grossa. E acha que está sensível demais, exigente demais, desconfiada demais. E deixa rolar. O resultado? O cara te enrola, te pede desculpas. Depois vacila de novo e te enche de presentes. Meninas, estou escrevendo este texto para eu mesma decorar. Imprimir. E nunca mais esquecer.

A gente não pode sair por aí perdendo nosso tempo com esses babacas. Chega de desculpar tanto, de tampar o sol com a peneira. Quando um cara REALMENTE está afim de você, ele vai até o inferno por você. Essa verdade ninguém me tira. Não tem trabalho, família, futebol, amigos, crise existencial, nem celular sem bateria que façam com que ele – caso tenha educação e a mínima consideração – não tenha tempo de dizer um simples “oi”. Isso não é pedir muito, concorda? O cara não precisa dar satisfação a toda hora, te ligar várias vezes por dia, isso é chato e acaba com qualquer romance. O que eu quero dizer é que mulher precisa de carinho. Atenção. E uma sacanagem bem-dosada. Se o sujeito vive brincando de esconde-esconde, não responde lindamente suas mensagens, não te chama pra sair com os amigos dele e nem tenta te agarrar quando você diz que está com uma lingerie de matar por debaixo da roupa, minha amiga, o negócio está feio. Muito feio. Confesso que não é tarefa fácil colocar um ponto final de uma hora pra outra nessas histórias. Somos seres românticos, abduzidos pelos finais felizes dos filmes e livros. A gente sempre acha que alguma coisa vai mudar, que ele vai perceber TUDO o que está perdendo e vai aparecer com flores na porta da nossa casa. Mas a realidade é diferente.

Não somos a Julia Roberts, não estamos numa comédia romântica e, na vida real, homens são simples e previsíveis. Quando eles querem uma coisa, não há nada – nem ninguém – que os impeça. Portanto, anotem aí: quando um cara está afim de você, ele vai te ligar, ele vai te procurar, ele vai te beijar, ele vai querer estar sempre com as mãos em cima de você. Não sou radical, apenas cansei de dar desculpas pra erros que não são meus. Ou são. Afinal um cara babaca sempre dá pistas de que é babaca. Só não enxerga, quem não quer.

A AUTORA: Fernando Mello é redatora publicitária, cronista da revista Rio Sport Center, blogueira, e compositora de grandes sucessos musicais de artistas como: Jota Quest, Tianastácia e Wanessa Camargo. Nós já publicamos um pequeno trecho de uma entrevista bem legal que ela deu. Quem lembra?

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Entre aspas: Gente demais na cama!

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Você está deitada na cama com seu amor, uma cama que você gostaria de chamar de sua, mas não é possível: tem gente demais ali. É seu homem que, sem cerimônia, as convida a entrar. Primeiro vem uma, depois outra e mais outra. Elas atravessam as paredes, as portas, as vidraças e vão se deitando, todas, na cama que deveria ser sua.

Cada uma toma um bom espaço com sua presença acachapante de espectro: elas vieram do passado e no passado não há chatice, não há chulé, não há tédio, não há burrice, não há constrangimentos, não há falta de desejo. Elas, as mulheres que seu homem teve, são perfeitas.

Ele varre constantemente o salão de baile das próprias lembranças e deixa ali apenas o que foi melhor. Elas pertencem à festa e fizeram por merecer tal lugar: tudo bem. O problema é que não há tranca, barra, cadeira, armário que faça a porta desse salão de baile ficar fechada. Ali é ele quem manda e se ele diz “abre-te, sésamo”, elas todas entram, todas se aboletam na cama que deveria ser sua.

Você sente o espaço ficar cada vez mais exíguo e, veja, lá vem mais uma. Você se vira de um lado, de outro, tenta encontrar um cantinho onde se apoiar e, por muito pouco, não cai da cama: tem gente demais ali. Você pisca os olhos, sente o piscar, macera os olhos com a força dos cílios e das pálpebras, mas elas não vão embora: tem gente demais ali. Você se deitou para esticar os músculos, os nervos, o ventre, o sexo. Você se deitou naquela cama para ser você, mas tem gente demais ali. Elas são passado; você, presente. Porém, quando ele começa a falar delas, elas se tornam presente no agora. Elas estão presentes. Elas estão aqui. Elas incomodam.

E há os detalhes! Ele conta os detalhes da festa: sensações incríveis, imagens estupendas, de uma perfeição de face de Deus. O que você pode oferecer a um homem que já viu a face de Deus? Que ganhou o amor das profissionais do sexo, que fez delas o que bem quis, que protagonizou as mais indescritíveis fantasias, que foi estoica e estupidamente amado?

A cama está cheia e ele quer que você acredite que você não tem cacife para estar lá. Que seja. Tudo o que você tem é um caldeirão de feitiços que não foram lançados, seu legado é uma esteira de irrealizações e uma fome imensa, imensa de tudo.

Então você se encolhe no escuro, no pedacinho torto que sobrou para você naquele glorioso e povoado colchão. Em breve, será inevitável que você se levante, afinal, tem gente demais ali.

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