Você deveria saber

tudo aquilo que eu nunca te disse.

voce-deveria-saber- Foto: zweifelsohne wankelmütig

Você deveria saber que eu teria feito tudo. Aliás, deveria saber que me esforcei ao máximo, que apertei os sentimentos num espacinho pequeno, que disfarcei decepções com batom, que escondi as noites não dormidas com base e que não contei as minhas dores pra ninguém. Só pra te ver sorrir. Você deveria saber que eu teria continuado, que teria tentado mais, que passava por cima do meu próprio orgulho se você tivesse dado só um sinal, um sinalzinho qualquer, um pequeno movimento de leve com a cabeça, um aceno tímido, qualquer coisa. Eu teria feito tudo por você se você tivesse se importado um pouco. Mas cadê que você se importou?

Você deveria saber o que me magoava. Deveria me conhecer um pouquinho melhor e saber que, ainda que cheia de defeitos, fui eu quem mais perto chegou de conseguir te fazer feliz. E saber que, quando o outro se entrega do jeito que eu me entreguei, quando o outro se importa do jeito que eu me importei, quando o outro abre a vida do jeito que eu abri a minha pra você, você deveria saber. Deveria saber que tinha algo a mais ali, que era algo especial, que a gente era alguma coisa a mais do que só um casalzinho que ia acabar na próxima rua. Apesar de realmente termos sido só mais um casalzinho que acabou.

Eu deveria saber também que não era você. Porque você não foi o primeiro, nem de longe (mas é que eu queria muito que tivesse sido o último). Eu deveria estar preparada, é verdade, mas quem é que se prepara para descobrir que o cara que a gente ama tanto não ama a gente? Quem é que se joga numa relação já imaginando o final? Quem é que se esforça esperando o fracasso? Eu deveria ter ido com mais calma, mais tato, mais cuidado, mais atenção. Mas é que eu sou mesmo feita de paixões. E mergulhei sem medo, sem receio, sem olhar pra baixo, sem ver se tinha cama elástica, sem preocupação. E, se você me conhecesse só um pouquinho melhor, você saberia que eu não me arrependo.

Você deveria saber que eu carrego com orgulho até meus desamores. Porque, se deles sou feita, alguma coisa de bom cada um deles me trouxe. Você deveria saber que eu aprendi, que eu sempre aprendo. Alguma coisa, afinal. Você deveria saber que, como diria Cazuza, pra mim é tudo ou nunca mais. E eu tentei ser tudo, tentei mesmo, mas olha aonde a gente chegou. Você deveria saber que não tem volta, que tchau, vai com Deus, se cuida, encontre alguém que aceite aí o seu jeito. E eu…eu deveria saber que o seu pouco não bastava, que amor meia-boca não me atrai, que eu nasci pra me entregar e ter entrega de volta. Que amor, amor mesmo, deveria ser dos dois lados, vai e volta, e de você, de você foi só carinho. E bem, bem pouquinho.

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Quando o diferente incomoda

Sobre a menina que apanhou por ser bonita e a outra que foi humilhada por ser rica.

pc-computador

A pior e a melhor parte de trabalhar com redes sociais é que a gente sabe o que tá acontecendo no mundo o tempo inteiro. Todo dia surge uma polêmica nova pra movimentar a internet. Um repórter sensacionalista. Uma tragédia terrível. Uma enquete tendenciosa. E então, ali embaixo, imediatamente, surgem as opiniões alheias. Todo mundo tem algo a dizer. Até sobre aquilo que não entende. Até sobre aquilo que não lhe diz respeito. Ter uma opinião não é crime, mas confesso que às vezes saber o que todo mundo pensa é meio assustador. Mas não tem jeito, né? Lidar com o diferente é um desafio que todas as pessoas enfrentam durante a vida. Desde o primeiro dia no jardim de infância quando nosso coleguinha diz não gostar de super-heróis até no asilo quando o senhorzinho ao lado faz questão de assistir Datena todos os dias no último volume. Oh, céus!

Essa semana li a matéria da garota de 15 anos que apanhou na escola por ser bonita. Precisei ler o título umas duas ou três vezes pra ter certeza de que não tinha entendido errado. Ela foi espancada por duas colegas e teve traumatismo craniano simplesmente pelo fato de “ostentar” beleza. O quão assustador isso pode ser? No final das contas, quem é culpado nessa história toda? A mídia que impõe os padrões de beleza para as adolescentes, a família que não soube educar as filhas ou a garota, que nasceu com a “sorte” de ter essa aparência e se orgulhar disso? Eu não sei, mas isso me fez pensar sobre muitas coisas.

Dia desses publiquei no Facebook um desabafo sobre a maneira que as meninas tratam as garotas que aparecem na coluna “It Girl” ou “15 anos” da Capricho. Dizem que sempre foi assim, mas isso realmente não entra na minha cachola. Antes mesmo de ler a matéria ou saber o porque da pessoa ter sido selecionada entre tantas outras, algumas pessoas comentam: “mas ela é rica”. E o indivíduo ganha likes o suficiente pra ficar no topo da publicação. Agora eu pergunto: que culpa a garota tem de ser rica ou de ter nascido em uma família com condições? Desde quando isso é um defeito? E se a garota trabalhar duro pra comprar aquelas roupas? Se o sonho da família era dar uma festa incrível pra filha e para isso os pais trabalharam por anos? Sei lá, se a menina tiver câncer e aquela for sua última comemoração? Okay. Exagerei. Mas é preciso ser tão radical assim pra tentar mostrar o quão besta é fazer esses julgamentos maldosos sem pensar nas consequências ou se colocar no lugar do outro. Se serve de consolo tenho certeza que a revista não leva em consideração a grana da candidata ou as marcas que ela usa no look, mas sim a criatividade, qualidade da fotografia e público.

São histórias completamente diferentes, eu sei, mas que se encontram por um único motivo: sentimentos nada nobres como a inveja, ódio e a cobiça sendo potencializados e glorificados pela internet. Ou você acha as que as meninas combinaram a agressão fora das redes sociais? Posso jurar que existem grupos que fazem exatamente a mesma coisa, mas de maneiras diferentes. Talvez você até faça parte de um.

Fui adolescente outro dia, na verdade tecnicamente ainda sou, mas vocês estão vivendo isso agora, por favor, vamos conversar sobre esse assunto abertamente. Por que tanto ódio ao que é diferente? Isso incomoda ao ponto de querer externar compartilhando com os outros ou combinando humilhações em diferentes níveis? Isso faz com que você se sinta melhor? A tela do computador te dá mais segurança? Pois sabe o que eu acho? Esse sentimento não é tão diferente do que leva um indivíduo a espancar ou destratar um gay ou negro. Eles são diferentes e sabe o que mais? Todos nós somos. Alguns apenas não tem coragem de ser.

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Caro adolescente,

Para os momentos difíceis da melhor época da sua vida

adolescente

Quando você tiver 22 anos, como eu, você vai se ver em um meio termo apavorante. Ainda vai ter medo de dizer que chegou de vez no mundo dos adultos, mas já não vai poder ter seus erros perdoados por ser “novo demais”. Nesta fase, em que você começa a pensar no que vai ser da sua vida daqui pra frente, você quase não vai ter tempo de olhar para trás e ver como ela era até ontem. Mas a verdade é que nós, pessoas de vinte e poucos, fomos você outro dia. E eu ainda me lembro das graças e desgraças. Das dores que você chora escondido. E das gargalhadas que solta sem medo.

Eu nunca achei que eu ia acabar olhando pra você e querendo dar conselhos. Até porque aos 22, diferente dos 16 anos, você não pensa mais que sabe tudo da vida. Aliás, quanto mais velho você fica, menos da vida você parece saber. As certezas acabam, se vale o aviso. E você começa a questionar mais coisas, mudar de opinião com mais frequência e se propor a ouvir os argumentos dos outros em discussões que antes batia o pé. Mas, como eu disse, eu olho para você e sinto vontade de avisar. Ainda que você não me escute.

Acho que o que eu mais quero dizer é pra você ter cuidado. Você já ouviu coisas do tipo “cuidado com quem você anda”. Mas nem é isso, não. Minha dica é: cuidado com quem você se transforma perto de outras pessoas. Você pode ser amigo de quem quiser e dá para ser amigo de pessoas totalmente diferentes de você. Apenas não se deixe mudar por causa do ambiente. Tenha personalidade de dizer não quando preciso. E não tenha medo de lutar pelo o que você acredita. Isto é bem melhor do que se deixar levar pela correnteza.

De qualquer forma, preserve seus amigos de escola. Você vai sentir falta deles um dia, porque de vez em quando você precisa de alguém que te conhecia quando você nem tinha, realmente, uma personalidade formada. Eles vão ter passado por fases tenebrosas ao seu lado, então talvez entendam melhor do que os que aparecerem depois. Mas preserve aqueles poucos e bons. Abandone este desejo imenso de ser popular. Acredite, não vale de nada.

Aceite: o mundo não te deve coisa alguma. O que quer dizer que seus sonhos não vão cair no seu colo de mão beijada, ainda que você possa ter crescido com a sensação de que merece um troféu. Uma hora você percebe que vai ter que lutar pelo o que quer. E isso inclui deixar certas diversões de lado e arregaçar as mangas para chegar lá. Não, nem sempre vai ser legal, divertido, com festas e bebidas como nos filmes. Às vezes vai ser apenas cansativo. Faz parte.

Não tenha tanto medo do futuro. No fim, ele acaba nem sendo tão assustador. Se escolher a faculdade errada, tudo bem. Você pode parar e começar de novo. Aliás, anote isto: a maior parte dos seus erros poderão ser consertados. Basta você se propor a fazer isso.

Esta é a melhor parte: as dores da adolescência não matam. O coração partido vai cicatrizar, as inseguranças vão diminuir e você vai seguir a vida. Eu sei, parece papo de quem já tá bem velho e não sabe mais de nada. Mas é como eu disse: eu fui você outro dia. Chorei o mesmo tanto. Tive os mesmos medos. E ó, tô aqui, vivinha. Acredita em mim? Espero que dê tudo certo por aí.

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