comportamento

O pote de balas e doces

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Quando eu era mais nova lembro que adorava ir até a casa da minha madrinha simplesmente porque lá havia um pote cheio de balas e chocolates. Lá em casa doce sempre foi algo controlado, por questões financeiras e de gordurinhas, então a ideia de existir um lugar onde isso era ilimitado me deixava realmente empolgada. Veja bem, não tô dizendo que visitar meus padrinhos era totalmente por interesse. Eles sempre foram muito carinhosos comigo e nunca deixaram de me dar um abraço no dia do meu aniversário. Lembro que 18 de maio só era completo se minha madrinha fosse lá na porta de casa me dar um beijinho e entregar o pijama que eu usaria até o ano seguinte. Tenho e uso alguns deles até hoje.

Tô contando tudo isso porque só agora me dei conta de que uma das primeiras coisas que fiz quando fui morar sozinha foi separar um pote pra colocar todas os doces e balas da minha casa. Infelizmente hoje em dia não tem mais tanta graça como antigamente e eu não posso abusar exatamente pelos mesmos motivos que a minha mãe usava, mas é legal saber que eu consegui ter o meu próprio pote de doces. É tipo uma realização que prova que eu me tornei oficialmente uma adulta. É um detalhe, uma besteirinha, mas que fez a ficha cair pra mim. Tipo quando minha prima engravidou ou eu fui assinar a papelada do apartamento.

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Agora eu quero saber: só eu sou louca assim ou vocês também acabaram levando uma vontade de infância pra vida adulta? Contem detalhes nos comentários.

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Não é mais você

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Ela vai embalar suas coisas e deixar na sua portaria, com um bilhete singelo escrito “A gente se vê”. E enquanto você engole a indiferença, tentando tirar da sua garganta o nó do fim, ela vai ao cabeleireiro cortar o cabelo, mudar a cor e encantar todo mundo com seu novo visual. Ela vai usar vestidos mais curtos e te deixar morrendo de ciúmes daquelas pernas que até então eram só suas. E vai rebolar por aí em festas e jantares a dois com outros caras. E você vai continuar nas mil baladas da vida, tentando encontrar qualquer sorriso que se assemelhe a risada escandalosa e apaixonante dela.

Ela vai fazer cada coisa milimetricamente diferente de todas as suas ex-namoradas. E vai te deixar com uma certeza desesperadora de que, ainda que tenha sido você que tenha ido embora, foi ela que pingou o ponto final. Porque agora é ela que desfila com uma leveza bonita, dessas pessoas que não precisam de ninguém, nem de histórias mal resolvidas, para ser feliz. Aliás, ela olha para os outros de uma maneira tão enigmática que dá a entender que todas as suas histórias são muito bem acabadas e que ela está pronta para se jogar de cabeça em qualquer outra relação que não te tenha no meio.

Você vai sentir uma reação estranha, algo parecido com uma facada no peito, quando resolver ligar para ela e ela atender como se você não fosse mais ninguém. É que para ela você realmente deixou de ser alguém quando desistiu do “nós dois”. Ela quer tanto ser feliz que não se permite sofrer por você, logo você, que pisou no amor o tanto que pôde.

Mas ela continua acreditando em amores lindos, ainda que com você tenha sido apenas uma paixão fugaz com fim sem graça. Ela continua acreditando em entregas, declarações, histórias, romances e tudo mais. Continua acreditando em tudo, mas já deixou de acreditar em você. E seu estômago vai doer porque ela não liga mais se você aparece com seus mil casos sem importância.

É verdade que ela queria tudo. Queria uma história bonita, um amor para contar para os netos, um final feliz. Mas se não foi com você, ainda sobrou a humildade de recolher os cacos e procurar ser feliz com outra pessoa. E é isso o que vai te doer. Saber que ela não desistiu dos outros, só de você. E enquanto você passa de carro em frente ao apartamento dela, o rádio toca aquela música que você nunca prestou atenção: “eu sei que ela só vai achar alguém pra vida inteira, como você não quis…”.  E aí você vai entender que, caraca, era ela.

O triste é que agora não é mais você.

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Quando a gente cansa do drama

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Não sei exatamente quando acontece, mas uma hora dá um clique. Tem sempre um motivo ou outro para reclamar, é claro, e a internet deixa tudo ainda mais tentador. Mas a vida, quando a gente cresce e arranja problemas de verdade, acaba ocupando tanto tempo que a gente tem que empurrar o mimimi pra longe.  De vez em quando bate medo, dá desespero, surge aquela pontinha de vontade de sentar e chorar e procurar a mãe, mas, na maioria das vezes, só nos resta respirar fundo e tentar achar qualquer solução.

É claro que eu não tenho a solução pra tudo e, na maior parte das vezes, erro e erro de novo até aprender. E aí um ombro amigo é sempre bom. Ou um abraço de alguém que sabe o quanto a gente se esforçou para, no fim, acabar não chegando a lugar algum. A questão é que não dá para se colocar no lugar de vítima sempre. A gente precisa assumir responsabilidade pelas nossas escolhas, pelos caminhos que tomamos e pelo jeito que a nossa vida está. Afinal, é nossa, não é?

Outro dia, me perguntaram qual mágica fiz para conseguir parar de stalkear uma pessoa que eu vivia querendo saber sobre. Pensei rápido e só consegui uma resposta: arranjei problemas maiores. E é a verdade. Fui tendo tanta coisa para pensar nas poucas 24 horas de um dia que cansei do drama. É muita conta, muito trabalho, muitas decisões profissionais, muitas ideias de futuro para perder tempo com quem sequer sabe o que quer da vida. Com quem mal consegue decidir se nos quer em sua vida. Preguiça, né?

Reclamar, de vez em quando, faz bem. Desabafar é sempre bom. Colocar para fora o que fica preso no peito é uma necessidade de todo mundo. Escrever um texto dizendo “cansei” é normal. Mas, uma hora ou outra, a gente tem que perceber que, se quiser alguma coisa na vida, ficar reclamando e se vitimizando não vai adiantar de nada. Ninguém corre atrás dos nossos sonhos. Uma hora a gente aprende: a nossa vida depende é da gente.

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Vivendo de escrever (parte 1)

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A primeira coisa que você tem que saber para ser uma escritora é: você sabe simplesmente que quer ser uma escritora. Fui clara? É assim: não sobra dúvida. Você começa a escrever e sente que é aquilo que quer fazer. Eu, quando percebi, já era.

Escrevia na escola, escrevia em casa, escrevia na máquina do meu pai – é, amigas, eu sou meio velha, na minha época nem tinha computador assim facinho. Mas eu escrevia e aquilo me trazia uma satisfação que eu nunca tinha sentido antes. Pensando bem, até hoje é assim. Nada me satisfaz mais do que escrever, e se eu fico muito tempo sem, começo a murchar e ficar nervosa, começo a perder o fio da meada da minha vida.

A segunda coisa que você tem que saber pra ser uma escritora é que não vai ser fácil.
Eu e a Bruna tivemos trajetórias peculiares, digamos assim. Eu também comecei a escrever na internet, em 1998, num mailzine chamado CardosOnline, que era enviado, imaginem que coisa, por email. Eram kbs e kbs de texto corrido, sem imagem, sem nada. De lá saíram escritores muito expressivos de nossa geração, como Daniel Galera, Daniel Pellizzari, André Czarnobai… Estão notando alguma coisa? Pois é, são todos homens. Eu era a única mulher. Aí o mailzine acabou em 2001 e eu fiz meu primeiro blog, o brazileira!preta, que foi um dos primeiros blogs super acessados no Brasil. Nesse blog eu publiquei trechos do meu primeiro romance, o Máquina de Pinball, o que causou uma baita confusão, pois todo mundo achava que o livro era o blog e o blog era o livro… Mas tudo bem. O que importa é que o livro saiu. Foi incrível, foi lindo, nunca vou esquecer meu primeiro lançamento.

Aí vieram as críticas. Já não é fácil ser mulher, as pessoas sempre vão te criticar pelos motivos errados, como a sua roupa, a sua aparência, a sua vida. No meu caso era um misto disso tudo, mas principalmente atacavam o estilo de vida que a minha personagem levava, que era muito parecido com o meu, sim, mas não era eu. Dificilmente isso ocorreria com um homem; ninguém dá pitaco na vida de homem, né? Vida de mulher parece que está sempre aberto a júri popular. Imagina então dar pitaco na vida da personagem? Parece conversa de maluco, mas aconteceu. Eu não dei bola, continuei fazendo minhas coisas e logo lancei meu segundo livro, o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto e estou prestes a lançar o sétimo depois de já ter tido a obra adaptada para teatro e cinema.

Onde eu quero chegar? Não é fácil escrever e temos que estar sempre preparadas para as críticas. Elas sempre vêm, muitas vezes são cruéis e geralmente não vão ter nada a ver com o que você está escrevendo, mas com a sua aparência física ou a sua vida. Sabe o que isso significa? Que não é pra se importar com elas. Pense que essas pessoas são viciadas em uma maneira de enxergar o mundo e se elas não conseguem se abrir pro que você está tentando dizer e preferem desviar o assunto, elas nem merecem a sua atenção.

Certa feita eu traduzi e mandei um trecho do meu primeiro livro para o filho do meu escritor preferido, que também é escritor. O pai é o John Fante e o filho é o Dan Fante. Ele adorou, me elogiou e disse algo que eu lembro sempre. Ele disse:

- Continue escrevendo. O resto é besteira.

E é isso que eu faço. Continue escrevendo. Esse é o meu conselho.

Deixo vocês com um poema de um outro escritor que eu amo, Charles Bukowski.

Jogue os dados.

Se você for tentar, vá até o fim.
senão, nem comece.

Se você for tentar, vá até o fim.
Isso pode ser perder namoradas,
esposas, parentes, empregos e
talvez sua cabeça.

vá até o fim.
isso pode ser não comer por 3 ou
4 dias.
pode ser congelar em um
banco de praça.
pode ser cadeia,
pode ser o ridículo,
chacota,
isolamento.
isolamento é a benção.
todo o restp é um teste na sua
resistência, de
quanto você realmente quer
fazer aquilo.
e você vai fazer
independente da rejeição
e das piores dificuldades
e será melhor do que
qualquer outra coisa
que vocês possa imaginar.

se você for tentar,
vá até o fim.
não existe outra coisa que vá te fazer sentir
isso.
você estará sozinho com os
deuses
e as noites se inflamarão em
chamas.

faça. faça. faça.
faça.

até o fim.
até o fim.
você guiará sua vida direto para
o riso perfeito,
a única briga boa que existe.

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