Vai dizer que cê não lembra?

Sobre as lembranças que ficaram.

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O primeiro dia foi o mais difícil. É que seu perfume demorou de sair e tive que lavar os lençóis umas cinco vezes antes de conseguir dormir sem me lembrar de você. Minto. Antes de começar a reclamar de saudade porque eu não tinha mais seu cheiro. E ainda tive que lidar com as suas falas pela casa, impregnadas na parede, as promessas caídas nos cantinhos do chão. Mas, ainda doendo, te vendo cada vez menos no espaço que antes era nosso, eu tive que viver. Sabe? La la la, o tempo não para, não é o que a música diz?

Eu quis te ligar muitas vezes. Nem era pra pedir pra voltar. Dizer que tinha me arrependido, perguntar se eu já podia te perdoar. Essas coisas eu meio que deixei pra trás, eu nunca achei mesmo que a gente viveria um final feliz. Eu queria saber era se você lembrava. Se você ainda lembra. Cê lembra?

Cê lembra das conversas jogadas fora nas madrugas que a gente não conseguia dormir? Dos abraços que a gente deu e dos beijos que ficaram faltando? Vai dizer que não te dói um pouquinho a viagem que a gente planejou com tanto cuidado e nunca fez? Os mapas que a gente desenhou e não seguiu? Os dias no calendário que ficaram sobrando, vazios sem nós dois?

Vai dizer que cê não se lembra da lista de nomes dos futuros filhos que não vão vir? Eles iam ter o seu sorriso e os meus olhos. E seriam teimosos que nem você. Vai dizer que cê não lembra que eu era a única pessoa que conseguia te acalmar depois de um dia desgastante? E você era a única pessoa que acreditava nos meus sonhos e, consequentemente, acabava fazendo com que eu acreditasse em mim.

Não é essa a pior parte, afinal? Continuar vivendo, mas, ainda assim, lembrar? Ganhar um prêmio e querer te ligar? Dizem aqui que ainda é amor, mas eu teimo que é costume. Acho que é um pouco para me enganar, mas prefiro pensar que eu tô só aprendendo a te tirar da minha vida, o sentimento já era. Não era?

Eu me lembro, se é o que quer saber. Mesmo sem seu cheiro. Sem as promessas que foram se perdendo com o tempo. Sem sua voz que, vez em quando, eu nem lembro mais como é. Eu lembro mesmo sem ver suas fotos felizes nas redes sociais. Mesmo tendo excluído seu telefone do meu celular. Eu lembro. Dos filhos, dos planos, das viagens, dos gritos, dos motivos de você ter ido e das centenas de razões pelas quais você deveria ter voltado. E você? Cê lembra?

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O que um dia de Lollapalooza me ensinou sobre solidão

Uma lição que vou levar para a vida inteira

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Ao sair o line up do Lollapalooza no ano passado, estava certa de que queria ir. Só de poder ver Imagine Dragons, Phoenix, Lorde e Muse tão perto, ficava bastante animada. Escolhi apenas um dia para não me cansar demais, já que minha experiência em 2012 frequentando os dois dias do festival tinha sido totalmente exaustiva. Assim que liberaram quais bandas iriam tocar em quais datas, conversei com uma amiga e combinamos de ir no primeiro dia, 5 de abril.

Comprei meu ingresso feliz da vida. Estava contando os dias para o festival até que percebi que iria sozinha. Minha amiga não tinha comprado o ingresso e ninguém que eu conhecia estava com vontade de viajar de Belo Horizonte até São Paulo para se cansar de andar num festival de música indie. Ok, tudo bem, eu pensei. Sou filha única, já passei por muita coisa sozinha na vida. Um dia de festival não vai ser tão doloroso, afinal, estarão algumas das bandas que mais gosto de escutar ultimamente.

Fui com uma excursão, que saía na sexta-feira de noite de BH para o Lolla e depois voltava no sábado à noite mesmo. Típico bate-e-volta. Estava sem muita grana pra ficar em Sampa, então, essa foi a melhor ideia na época. Viajamos muitas horas de ônibus e chegamos no lugar. Tentei me enturmar com dois caras para não ficar sozinha na fila e pronto. Entrei no Autódromo.

O sol estava desumano. De rachar a cuca mesmo. Queria ver o show de Capital Cities, por isso acabei me separando dos dois amigos. Fiquei na grama, sozinha, com uma blusa preta, calça jeans e tênis, sem chapéu – a pior combinação possível num calor de matar, devo admitir. O show foi incrível, mas comecei a sentir uma coisa que iria se agravar com o passar do dia.

Depois de Capital, fui encontrar com uma conhecida de SP para assistirmos Imagine Dragons. Foi arrepiante, mas eu ainda sentia que faltava alguma coisa. Saímos mais cedo para evitar confusão e fiquei, mais uma vez, sozinha, na grama, esperando o show do Phoenix. Assim que começaram a tocar, percebi o que estava sentindo. Um show incrível, de uma banda igualmente incrível – o que poderia faltar nesse momento? Amigos, essa é a resposta.

Não sei com vocês, mas comigo, as músicas me remetem a momentos e pessoas. Ouvir aquelas bandas que adoro tanto não fazem sentido algum se não estou com a companhia das pessoas que amo. Do que adianta assistir ao show de Imagine Dragons se não estou com as minhas amigas, que me mostraram a música deles pela primeira vez? Entendem o que eu digo? É só uma experiência vazia.

E aí, eu estava lá, sozinha ouvindo e dançando Phoenix, até que me deu uma vontadezinha de chorar. Estava curtindo, mas não estava feliz, porque só valeria a pena de verdade se estivesse com as pessoas certas. No final, a experiência em si só valeu por essa ficha que caiu. E os shows de Phoenix e Imagine Dragons também, claro, porque eles são incríveis.

No outro dia, no domingo, fui encontrar duas amigas e fomos para a casa de uma delas. Colocamos o papo em dia, desabafamos e nos divertimos. Uma hora, deitada no sofá, assistindo o Lollapalooza pela TV, ouvindo as duas rindo de alguma besteira, percebi que aquele momento parecia ser mais importante do que qualquer festival. A frase “a felicidade só é real quando compartilhada” nunca fez tanto sentido para mim.

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Você deveria saber

tudo aquilo que eu nunca te disse.

voce-deveria-saber- Foto: zweifelsohne wankelmütig

Você deveria saber que eu teria feito tudo. Aliás, deveria saber que me esforcei ao máximo, que apertei os sentimentos num espacinho pequeno, que disfarcei decepções com batom, que escondi as noites não dormidas com base e que não contei as minhas dores pra ninguém. Só pra te ver sorrir. Você deveria saber que eu teria continuado, que teria tentado mais, que passava por cima do meu próprio orgulho se você tivesse dado só um sinal, um sinalzinho qualquer, um pequeno movimento de leve com a cabeça, um aceno tímido, qualquer coisa. Eu teria feito tudo por você se você tivesse se importado um pouco. Mas cadê que você se importou?

Você deveria saber o que me magoava. Deveria me conhecer um pouquinho melhor e saber que, ainda que cheia de defeitos, fui eu quem mais perto chegou de conseguir te fazer feliz. E saber que, quando o outro se entrega do jeito que eu me entreguei, quando o outro se importa do jeito que eu me importei, quando o outro abre a vida do jeito que eu abri a minha pra você, você deveria saber. Deveria saber que tinha algo a mais ali, que era algo especial, que a gente era alguma coisa a mais do que só um casalzinho que ia acabar na próxima rua. Apesar de realmente termos sido só mais um casalzinho que acabou.

Eu deveria saber também que não era você. Porque você não foi o primeiro, nem de longe (mas é que eu queria muito que tivesse sido o último). Eu deveria estar preparada, é verdade, mas quem é que se prepara para descobrir que o cara que a gente ama tanto não ama a gente? Quem é que se joga numa relação já imaginando o final? Quem é que se esforça esperando o fracasso? Eu deveria ter ido com mais calma, mais tato, mais cuidado, mais atenção. Mas é que eu sou mesmo feita de paixões. E mergulhei sem medo, sem receio, sem olhar pra baixo, sem ver se tinha cama elástica, sem preocupação. E, se você me conhecesse só um pouquinho melhor, você saberia que eu não me arrependo.

Você deveria saber que eu carrego com orgulho até meus desamores. Porque, se deles sou feita, alguma coisa de bom cada um deles me trouxe. Você deveria saber que eu aprendi, que eu sempre aprendo. Alguma coisa, afinal. Você deveria saber que, como diria Cazuza, pra mim é tudo ou nunca mais. E eu tentei ser tudo, tentei mesmo, mas olha aonde a gente chegou. Você deveria saber que não tem volta, que tchau, vai com Deus, se cuida, encontre alguém que aceite aí o seu jeito. E eu…eu deveria saber que o seu pouco não bastava, que amor meia-boca não me atrai, que eu nasci pra me entregar e ter entrega de volta. Que amor, amor mesmo, deveria ser dos dois lados, vai e volta, e de você, de você foi só carinho. E bem, bem pouquinho.

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