Medo de estragar tudo

17 de junho de 2017
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Foto: Reprodução/Paolo Barretta

Foto: Reprodução/Paolo Barretta

Ela não pisava fora da trilha. Nunca.

O seu medo, evidentemente, era de acabar dando um destes passos em falso. Podia acontecer, né? Ela sabia muito bem que todos corriam o risco de andar sem se importar com o que está ao lado, na frente ou atrás, e, sem querer, fechar os olhos e subir um degrau que não está lá, descer uma rampa que não existe, andar quando não há caminho a ser percorrido.

Por isso, ela continuava teimosa quanto a desviar-se de seu trajeto. De certa forma era bom, já que seu foco não mudava e ela se tornava uma pessoa cada vez mais obstinada a fazer o que deveria ser feito em busca de sua felicidade. Mas, por outro lado, esta ordem invariável tornava os seus dias muito parecidos.

Ela passava pelos mesmos lugares. Via as mesmas paisagens e, por dentro, a sensação que ressoava era similar àquela de estar andando em círculos. Vez ou outra ela parava rapidamente e checava: será que estava circulando o mesmo lugar? Mas não era isso, o caminho continuava reto. É que, de fato, para chegar lá, era ela quem optava por percorrer sempre as mesmas vias.

Numa conversa com uma amiga, esta percebeu que tanta rigorosidade não estava fazendo-a de fato ter um percurso prazeroso. E então identificaram, juntas, o que a movia: ela focava lá na frente, mas se esquecia de que existem viagens que tomam mais tempo do que os momentos vividos no destino final: por isso, cabe a nós aproveitá-las. E ela não estava fazendo isso. Por mais que achasse que sua persistência a governava, o que tomava a maior parte de si era o medo.

Medo de tentar algo novo, de colocar a ponta do pé para fora da rota e de buscar outra forma de locomoção.

Mas o maior medo de todos era o de estragar tudo. De perder o posto conquistado tal como num jogo de tabuleiro: “Você caiu em um buraco, volte seis casas”. Mas a vida, é claro, é bem diferente do que um puzzle jogado numa sexta-feira à noite…

E agora cabia a ela entender que não há nada a ser estragado: se o coração manda, a gente pode sim obedecer. E se os efeitos poderão, talvez, fazer com que a gente dê algumas paradas pelo caminho, quem é que sabe? O fato é que tudo isso, contrariando-a ou não, também faz parte de seu destino. E com atalhos, retornos ou curvas acentuadas, não importa: é justamente assim que tem que ser.