O que passou, passou

19 de março de 2017
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comportamento

Foto: Ruby James

Ela acordou com uma sensação amarga.

Era como se tivessem derramado uma xícara de chá quente dentro de seu corpo. E foi reconhecendo este sentimento e recuperando a consciência aos pouquinhos – saindo do estado de sono e aterrissando na realidade – que ela sentiu um arrependimento louco.

Ela já conhecia essa sensação. Não que gostasse disso, mas havia sentido antes e sabia bem que, se permitisse, este aperto a acompanharia pelo resto do dia. O que ela havia dito de errado? Naquele momento, isso nem passou por sua cabeça: as palavras foram apenas sendo derrubadas uma a uma, como uma jarra sem tampa que derrama a água toda pelo chão.

Mas, agora, a ideia de que havia sido um grande erro a invadia e queimava por dentro, num misto de vergonha e remorso difícil de ir embora.

Se ela pudesse voltar no tempo e fazer de forma diferente, faria. Mas isso não estava ao seu alcance e lidar com o sentimento que a invadia era a única coisa a se fazer. Como era irritante suportar a impressão de que ela estaria mais tranquila se tivesse ficado quieta no dia anterior. Como apenas algumas coisas ditas podem mudar tanto o nosso estado de espírito e tirar o nosso sossego?

Ela pensou, então, que poderia seguir firme e com a cabeça erguida. Assim como da última vez, não adiantaria pintar paredes com o desgosto de ter feito o que era necessário. O resultado de suas ações não deu muito certo, mas e daí? Ela fez o que quis e isso bastava. E por mais que naquele momento surgisse uma pequena vontade de arrumar tudo, ela já tinha escolhido o caminho a seguir.

O que aconteceu ontem renderia alguns calafrios ao longo do dia, mas o remorso? Este não seria aceitável. E então ela decidiu: não permitiria ser controlada por um sentimento invasor, daqueles que não podem, devem ou merecem aparecer.