Você estava errado

23 de setembro de 2013
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Certa vez me disseram que eu sou muito fechada. Era alguém importante e que me conhecia bastante, como pouquíssimas pessoas no mundo, eu diria, então considerei o comentário e coloquei na cabeça que eu precisava dar mais espaço para as pessoas na minha vida. Não estou falando profissionalmente, porque existe essa diferença pra mim. Dar mais espaço significava confiar. Contar meus medos e segredos. Ser um pouco menos durona. Baixar a guarda, mesmo que só nos finais de semana e dias de sol. Me tornar assim, um pouquinho vulnerável. Correr o risco de quebrar a cara depois. Oh, céus, quem me fez usar esse escudo?

A independência, talvez.

Demorei um tempinho pra admitir que eu era uma dessas pessoas que vivem dentro da bolha. Porque eu dedico tanto do meu tempo ao trabalho, que graças a Deus é algo que me dá muito orgulho e prazer, que nem consegui notar que estava me afastando das outras pessoas. Fisicamente isso já havia acontecido, pois eu estava em São Paulo há algum tempo. Convenhamos, quando não existe convivência é tão mais difícil manter o contato e ter assunto diariamente. Minha vida se resumia ao trabalho e eu nunca gostei de ficar falando sobre isso com os meus amigos mais próximos que me conheceram antes disso começar. Tinha medo de parecer estar me gabando, sabe? Contentava-me em contar as boas novas para minha família e pronto. Pro resto, quando perguntavam, dizia o básico e pulava logo para a próxima pauta.

Por ironia do destino, justamente a pessoa que me cobrou mais humanidade, agiu pelas costas de forma covarde e quando achei que estava perto da cura, me peguei trancando todas as portas mais uma vez e colocando o fone de ouvido no último volume só pra fugir da realidade e das mentiras desse mundo que definitivamente não é o meu. Eu não queria mais tentar me misturar. Ora bolas, meu coração não é de plástico. Ele não desmonta como me convém.

Em silêncio, do outro lado da cidade, segui meu caminho. Não foi tão difícil assim. Fiz como das últimas vezes. Escrevi durante madrugadas inteiras e canalizei boa parte dos piores sentimentos. Ocupei minha cabeça e logo o meu coração deixou de besteira e também entrou no ritmo. Decepções em geral nos fazem pensar sobre a maneira que levamos a vida. Principalmente quando estamos sozinhos. As músicas ganham outro significado. O pôr-do-sol e a chuva também. Penso que quando não temos alguém pra agradar, nos resta agradar a nós mesmos. E pra mim, amiguinhos, essa foi uma das tarefas mais complicada.

Como eu poderia saber quem sou eu nesse mundo sem ao menos vivenciá-lo um pouquinho? Sou uma ótima observadora, mas nesse ponto da história, precisei tirar os dedos do teclado e vestir o meu melhor vestido. Foi exatamente assim que me libertei, aos pouquinhos. Comecei aceitando convites e dizendo besteiras sobre o que eu achava que sabia sobre sentimentos. Sem nem me importar com o que iriam pensar depois. As pessoas já falavam sem saber de qualquer maneira. Que tivessem então um motivo pra me achar idiota.

O que uma garota de 19 anos pode saber sobre a vida? M* nenhuma, eu diria.

O universo fez questão de me dar os sinais, de um jeito até gentil, pois perdi a conta dos sorrisos e posso contar no dedo as lágrimas que deixei escapar nesse meio tempo. Não é fácil admitir certas coisas pra nós mesmos, mas ao contrário do que pensei, fica um pouco menos complicado quando mais alguém se importa. Não é tão simples achar alguém que realmente faça isso hoje em dia, mas também não é impossível. Talvez nem todos os amigos só estejam interessados em favores. Existem pessoas que pensam como eu. E melhor, existem pessoas que agem como dizem. E elas andaram me ensinando um bocado de coisa.

Você estava errado. Todos nós vivemos dentro de uma bolha e nem sempre podemos controlar a direção do vento, mas a maneira que enxergamos o trajeto e quem escolhemos para estar ao nosso lado, isso sim, é uma tarefa completamente nossa. São atitudes, palavras, valores e um monte de coisas que a gente só descobre o verdadeiro valor quando aprende a ser leve.

E assim, acredito eu, vamos longe.