O dia em que participei do livro de história

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Sempre adorei aula de história. Por sorte, tive excelentes professores no colégio. Ativistas assumidos, sabe? Apaixonados pela profissão. Lembro de achar engraçado e ao mesmo tempo fascinante a maneira com que alguns deles ensinavam. Como se fossem mudar o mundo a cada página que virávamos do livro. Hoje, na minha tradicional rotina (de trabalho) nas redes sociais, me dei conta de que eles de fato estavam fazendo isso.

Minha geração se uniu e saiu da internet. O povo foi pra rua.

Legal, e agora?

Não entendo muito de política. Votei pela primeira vez ano passado e mesmo pesquisando os partidos e os candidatos, não me senti completamente segura na hora de fazer minhas escolhas na urna. Era como se no final das contas, a hierarquia e democracia interna dos partidos tornasse meu voto totalmente irrelevante. E digo mais: como se todos aqueles caras de terno e gravata, tão simpáticos e sedutores durante a eleição, estivessem em uma espécie de troca de favores secreta e eterna. Quem financia a campanha de quem é eleito tem seus privilégios.

O problema é que o povo não financia campanha. Pelo menos não diretamente.

Tia Virgínia, minha professora da quarta série, disse em uma das suas aulas que a solução do país está na educação. Quando perguntei o motivo de não investirem tanto nisso, ela me explicou os motivos.

Os políticos corruptos não querem uma população inteligente que conhece e luta pelos seus direitos. É muito mais cômodo para eles manter uma educação meia boca e continuar distribuindo “esmola” disfarçada de bolsa não sei o quê. Sem contar que quando um político investe o dinheiro dos NOSSOS impostos em educação, o resultado efetivo só aparece nas próximas gerações. Ou seja, não é mais no seu mandato.

Aí começaram a falar de copa do mundo no Brasil. Que incrível, pensei. Surreal. Não entendo nada de futebol, mas adoro o sentimento nacionalista que nasce na galera durante os jogos. Isso é o que eu responderia há alguns meses. Que irônico seria dizer isso agora, né? Pois existe sim um sentimento unindo a população verde e amarela, mas é outro. É a revolta.

Mudei para São Paulo e entendi como as coisas realmente são. Como é morar na cidade que o Datena descreve. Amigos sendo assaltados diariamente. Filas de espera nos hospitais. Leis que favorecem a corrupção. Políticos homofóbicos. Transporte público caro e precário.

E então o assunto da semana no twitter passou a ser os 20 centavos. 40 ida e volta. Não uso metrô ou pego ônibus diariamente, mas depois de ler três ou quatro artigos sobre o aumento e assistir vídeos com depoimentos de pessoas que estavam na rua protestando, entendi o que estava em jogo.

Entrei oficialmente pro time quando vi vestígios de ditadura na minha democracia. Chorei assistindo esse vídeo.

Foi incrível ver o assunto das redes sociais se transformar. Nada de novela ou piadinhas sem graça para conseguir RT (ok, quase!). Vi pessoas pesquisando e debatendo assuntos “chatos” com o maior orgulho. Pelo Facebook, os convites não paravam de chegar. Não me queriam nas baladas, me queriam nos protestos. E eu fui. Mesmo deixando minha mãe doidinha lá em Leopoldina. Mesmo morrendo de medo de levar tiro de borracha no olho.

Pela primeira vez na vida, não senti medo de tirar o meu celular da bolsa no meio da rua.

Ao lado de alguns amigos, caminhei por São Paulo como nunca havia feito. Saímos do largo da batata, passamos pelo avenida Juscelino Kubitschek e já exaustos, pegamos um trem até a Paulista. Por lá alguns manifestantes, ricos-pobres-roqueiros-mães-moradoresderua-rappers-vloggers-estudantes, ainda gritavam pedindo respeito e exigindo seus direitos.

Tudo em paz.

Quando liguei a TV, já em casa, me dei conta de que não foi assim no país inteiro. O Rio estava um caos. Minutos depois, um amigo mandou mensagens com fotos tiradas do protesto em Belo Horizonte. Parecia print de CS (esse jogo). O mesmo acontecia em outras cidades brasileiras.

Estavam perdendo a razão.

Ou a culpa é dos infiltrados?

Esse excesso de interrogação me deixou meio assustada. Por eu estar sozinha em São Paulo. Por perceber que as coisas poderiam piorar e muito nos próximos dias. Por não saber como transformar toda aquela ideologia evidente nas pessoas que caminhavam ao meu lado em mudanças efetivas pro dia seguinte da manifestação.

Não queremos PEC nenhum. Não queremos corrupção. Não queremos passar pelo que África passou. Não queremos emissora de televisão que só mostra a parte podre. Não queremos voto secreto no congresso. Não queremos cura para o que não é doença. Queremos planos nacionais para saúde, educação e e segurança. Queremos saber o que a Dilma pensa disso tudo.

Hoje me fiz uma pergunta e tô passando para vocês: o gigante acordou, mas ele sabe para onde tá indo? John Mayer te ajuda a refletir.

Leiam também: Está tudo tão estranho, e não é à toa.

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