Foto: Flickr/Sophie Fontaine

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Querida alma ansiosa,

Não é fácil essa coisa de confessar e confiar a vida a alguém – e por incrível que pareça, foi assim que me senti nos últimos anos, quando entrar em salas de psicólogos se tornou quase a mesma coisa que entrar no meu quarto todo final de tarde.  Só não era tão agradável quanto.

Era como se estivessem violando a única parte em que ninguém poderia entrar. O único lugar em que não me julgariam. O ambiente onde ser eu mesma não era tão sufocante e massacrante.

(Os pensamentos)

(que se tornaram atormentadores)

Entre uma sala e outra, um médico e outro, uma consulta e outra, minha psicóloga disse: “Querida, tão nova e com crises de ansiedade.” (E síndrome do pânico)

A princípio, não entendi muito bem.
No final, entendi tudo.

Os meus pensamentos, o lugar em que me sentia segura, era justamente o que mais afetava os meus dias.

Causava falta de ar, dor no peito, pressão nas costas, angústia e um turbilhão de pensamentos e ideias. Causava o meu desconforto, as minhas lágrimas, minhas cobranças, minha antipatia, minha timidez, minhas insônias e todo o resto que eu teria de ficar horas digitando para que você, leitor, pudesse compreender esse tal sentimento de estar perdida no mundo.

No decorrer dos dias, minha médica disse: “Querida, se você quer melhorar sem tomar medicamentos, então comece a trabalhar a sua mente e pare de se cobrar tanto.”

Não vou mentir, amiga, não foi fácil.

Estava em processo para ingressar na universidade, a sociedade me cobrava uma resposta ágil. EU TINHA QUE SER ALGUÉM antes de dezembro acabar. Precisava arrumar um trabalho, um namorado, dinheiro para viajar ao exterior e decidir meu futuro profissional. Tirar uma boa nota no Enem? Isso era o mínimo.  Precisava prestar a Fuvest. Talvez cursar Medicina ou Direito. Eu precisava ser tudo o que eu não queria… e mais um pouco.

No fim, acho que me enterrei dentro de toda essa cobrança e sair foi bem mais difícil do que entrar.

Espero que não seja para você, amiga.

Mas eu entendo o que você tem passado aí do outro lado. Não é à toa que parou para ler este texto. Talvez você faça parte dos quase 20 mil brasileiros que só este ano foram diagnosticados com algum tipo de ansiedade.  E a culpa não é sua.

Não é sua culpa ser cobrada diariamente, a toda hora.

Você não é obrigada a ser o que a sociedade determina.

Tudo bem se não quiser ingressar em uma universidade agora – ou nunca.

Tudo bem se não quiser trabalhar em um escritório e preferir viver da sua arte.

Tudo bem se não quiser namorar. Ou ter filhos. Ou ser mãe.

Tudo bem se o seu namorado terminou com você.

Tudo bem se você não vai casar aos 30.

Ou fazer um intercâmbio aos 25.

Tudo bem não saber para onde vai (ou onde está).

Tudo bem não ter uma casa própria aos 22.

Tudo bem não ter um carro aos 18.

Tá tudo bem deixar a sua mente respirar. Seu coração se acalmar. A sua alma se encontrar.

Ao final do dia, é você quem tem de conviver com você.

Cultive na sua vida a felicidade que tanto procura nas grandes coisas ou nos pequenos detalhes.

Não deixe que o mundo determine a sua história. Seja você a pessoa a guiar os passos, seja para cá ou para lá.  Seja quem você quer ser hoje, mas aprenda a viver com o seu eu de amanhã.

Ah, e só para você saber:

Não vou me casar aos 30, não quero ser mãe, não consegui uma nota legal no Enem (fui bem mal), já terminei um namoro e me recuperei rápido, não morri. Não namoro. Tudo bem se eu ficar para tia. Não ingressei em Medicina ou Direito, faço Jornalismo. Amo a minha profissão, mesmo querendo desistir todos os dias. Não fiz a minha viagem ainda, não tenho um apartamento decorado como o de algumas meninas que sigo na internet. Não tenho um carro. Não tenho nada que o mundo quer que eu tenha, mas, se posso dizer, tenho algo muito importante:

EU.

E não tem nada melhor do que se encontrar dentro dessa confusão que somos nós.

Ou desse mundo estranho em que vivemos.

Com amor.

 

Por Moniele Hackman, 22 anos, São Paulo (SP).
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